Silêncio

vive por não morrer
com um coração enrugado e imune aos pedaços de droga dos médicos.

Dizem que arranha, berra, grita, de dor
em ter a doença num corpo que resistiu aos recortes da alma
em jeito de suicídio.

os velhos dizem que ele tem cancro do amor, doença da alma
os médicos matam-no aos poucos com destilações para a loucura.

todos falam daquele que um dia vagueava nas ruas a gritar por
ajuda.
todos
todos falam
todos falam sem calar
todos falam sem calar as bocas cheias
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos nas noites de sexo forçado
sem amor.
porque só falam
todos

todos falam
só falam
e não ouvem.

3 comentários:

José Mata disse...

Adivinha; no fim é a verdade da humanidade. Somos apenas assassinos.

Miguel disse...

é a nossa essência. ou vamos morrendo por nós mesmos, ou vão nos matando impiedosamente. cancro do amor. é isso.

nem todos têm o dom de ouvir, e falam demais, quando há coisas que conseguem ser ditas sem uma única palavra. porque as palavras são valiosas demais para serem desperdiçadas num simples bafejo por pensar.

beijo *

Maria disse...

Gostei do texto a crescer, criaste a imagem da doença de que falaste.

Beijos.