T Dois

Olho a moldura de letras que na minha frente se apresenta mais uma vez. Delineio os seus traços como se fosse a primeira vez que escrevia publicamente. Um pedaço de vidro partido que por momentos desvia a atenção das minhas palavras, uma ambulância que chega. Reparo mais uma vez nas frases escritas nas mesas alvas na minha frente em jeito de heresia, revolta contra o invisível, expressão da violência de uma aprendizagem voluntária que hoje em dia é obrigatória. Desvio o meu olhar por momentos para uma frase dita por um colega, troco um olhar de cumplicidade amargo. Nas ondulações de humanos que na minha frente escrevem frenéticamente sem que sejam dominados pela minha diletância, ou mesmo inércia. Perco-me do raciocínio que o enforcado na frente apresenta, e disperso-me no meu pensamento enquanto olho a luz imunda que pelas vidraças imediatamente atrás do meu sítio embebe o ambiente de sorrisos de indiferença. Arrepio-me de pensar nas doenças que atrás do meu meio se cultivam. Ali, tratam-se pessoas por números como bestas infectadas. Aqui, ouvem-se raciocínios falaciosos e rolam canetas em papéis já cheios de tinta ilegível. E tudo se funde numa morte intelectual, um assassínio da vontade humana de saltar pela janela e voar até casa para me acolher nos cobertores com quem se ama e protege. Recosto-me na cadeira e disfruto do cheiro doce da tinta que se espalha pelo meu caderno diário. Deixo pender a cabeça num momento de preguiça, delego a tua visão no tecto. Sorrio ao imaginar a possibilidade de alguém abaixo de mim faz o mesmo.

1 comentário:

Bellatrix disse...

T Um não serve? ;) *