Momento

Há sons, que pelo seu apelo ingénuo à infância, me levam para planos já esquecidos no tempo.
Passaram dez anos desde que não tenho por cima da minha cama uma casinha com dois ursos, um grande, outro pequeno. Os dois vinham à janela alternadamente ao som de uma melodia que me sempre foi familiar. Não era um som de uma comum caixa de música, mas algo mais secreto, que transmitia segredos à minha imaculada mente, assim como afastava os fantasmas toscos dos meus sonhos irreais. Era especial, porque o urso pequeno sempre me fazia ficar triste. Era pequeno, era insignificante, era eu enquanto respirava numa casa de adultos, sentindo que eu era tosca. Por isso, nunca abraçava, nunca dizia que gostava de alguém. Era rude, para que me conseguisse sentir o urso maior, mais sedutor, sem aquele choro de anjo.
Rio-me desse tempo em que a minha prima preferida tinha 70 anos e eu já a achava velha. Hoje tem 80 e essa velhice já me passa ao lado, mas fico sempre com a necessidade de a ter conhecido em jovem, pois parece que antes de eu existir, ela não existia, ou pelo menos em mim não o faria. Serão menos 62 anos de lembrança dela gravada na minha memória, que ingrato.
Sei que quando pessoas que me agitam a memória morrem, eu sinto-me um pedaço mais perto da atitude deles aquando da minha infância. E solto sempre um tímido sorriso ao pensar que poderei ser 20 anos na mente de alguém, tendo eu vivido 50. Sorrio mais ainda quando imagino um filho meu a imaginar-se estranho pela minha atitude ao vê-lo chorar pelo urso pequeno.

2 comentários:

Maria disse...

já tinha lido antes mas hoje faz anos que faleceu uma prima minha.. e estas tuas palavras fizeram muito mais sentido.

obrigada por isso.

gosto de ti.

*

Tyr disse...

Há correntes filosóficas dedicadas ao assunto. Chegam mesmo a por a realidade material em dúvida, e apenas o nosso intelcto nos dá a garantia da nossa existência (espero nã me estar a afaztar do assunto). Logo o que era anterior à nossa consciência para nós simplesmente não existe. No entanto discordo um bocado das coisas vistas assim, e tem toda a importância, a meu ver, toda uma história de acontecimentos, tanto na vida particular das pessoas que nos rodeiam e que nos são tão importantes, como na vida colectiva de toda a humanidade (e por que não universo?)... Se calhar não me consegui fazer dar muito sentido... mas fica uma tentativa pelo menos....:P ;)... tou a gostar bastante do Blog...