Arrepio

O fumo ardente que eu usava para evadir a minha alma podre, ofuscou-me por completo. Fatum ou não, olhei para ti por entre outras cabeças que se atravessavam entre nós. Não te vi como antes, como éramos antes.
Estavas doentio, indagado pela tua sabedoria solene. Eras um bicho amedrontado que evitou tudo o que o rodeava. Estavas angustiante, com um ar de cansaço transcendentemente poético, e por isso mesmo nesse momento te amei. Porque como sabes, eu não amo pessoas, sequer sentimentos, mas apenas momentos em que pessoas se tornam inconscientemente poéticas, como tu o havias sido nessa noite.
O breve olhar que havia raspado pela tua deliciosa nuca fez-me perder tudo o que havia ganho numa semana de must we. O teu corpo cravado com laivos do meu fumo ardente, e a tua pequena grandiosidade, fizeram-me gritar para o meu interior. Ouvia-te no meu eco, como se meu amante fosses, até à exaustão.
Até que o fumo se esfumou da minha vista azulada, e eu voltei a sentir-me como antes.
O resto da noite foi enganada por outra personagem bravia, mais um condenado à escravidão. Mal sabia que o entretenimento amado que sentia ainda se baseava na altivez da tua presença, no amor que me havia penetrado o inconsciente.
A noite ainda gritava por mim, mas decidi deitar-me. Enquando os meus estímulos visuais se diluiam no mosaico de imagens que havia apreendido nessa noite, relembrei com gosto a conversa deliciosa com o escravo. Mas mais tarde, quando os morcegos me mordiam os pulsos na busca de conhecimento, lembrei-te de novo.
No meio do meu tumulto diário apareceste, e decidimos fugir. Refugiámo-nos na maior viagem telepática que até hoje conhecia, e naquele limite, uma nuvem de fumo ardente nos trespassou o olhar.
Quando voltámos a sentir visualmente, vi-te a cobrir o meu corpo gelado com o teu corpo contrastante. Estavamos no teu quarto, onde só havia estado uma vez em toda a minha vida, mas que por isso mesmo, tinha sido suficiente. Sabia que quem tu mais tinhas amado até hoje, tinha feito de ti os seus gemidos naquele quarto.
Aí, a imagem eterna que me ficou na memória. Nossos corpos gelados, o teu beijo quente e perfeito, e o teu grito preso abaixo da minha cintura. Encostado à cama descansava o teu amor material, a tua música por cordas rodeada de um negro falso.
Sentia-te.
Acordei, tentei voltar ao sonho, inutilmente. A cama estava vazia, não havia vestígio de teu sangue. Mas se eu fechar os olhos, imaginar o fumo ardente a querer cegar-me, e sentir o delicioso sabor do teu pescoço, vejo-te comigo.

1 comentário:

Anónimo disse...

No fundo tu sabes todo o significado deste texto!
é pena que se tenham construido muros por tudo isto.. sabes do que falo!
Sê Forte, e acima de tudo.. cabeça levantada! :)
Vais ver, tudo se resolve! =]
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Por: l-life_angel-l *