Excerto

   Dirigi-me confiante à biblioteca, mas ao lá chegar toda a minha confiança desapareceu num vago ápice derivado do facto de estar encerrada. Nem sequer me tinha apercebido do passar das horas enquanto tinha estado sentada no degrau que antecede a porta da minha residência, reflectindo sobre tudo aquilo. Já era tarde para que tal edifício permanecesse aberto, mas mesmo assim tentei abrir a porta numa tentativa falhada. Então olhei para cima, pondo o meu corpo paralelo à parede à qual se situava a porta que eu tanto ansiava que fosse aberta, e o tempo parou. Aquelas paredes amareladas pela longevidade dos anos, aquelas varandas com um aspecto actual, mas degradado pelos agentes erosivos, as listas brancas que circulavam em volta das janelas, portas e recantos, fizeram com que tudo o que tinha acontecido parecesse um sonho parvo de uma criança, e que a qualquer momento iria acordar, mas infelizmente não. Senti uma enorme força a me puxar contra a tal porta, uma angústia característica, uma estranha saudade de tudo e de nada, uma junção de pecados capitais que faziam de mim e de todo o ser humano uma pessoa cruel. Passei a ver as ruas macadamizadas com outros olhos: pareciam sofridas, desamparadas, melancólicas e imensamente sábias. Senti uma estranha amizade por tudo o que me rodeava e deixei-me cair num infinito que se abrira bem diante de meus pés, e que para o qual tomei a decisão de entrar, com o característico medo do desconhecido, e com toda a maldade humana que em todos está adormecida. O chão deixara de existir e apenas um intenso negrume me acolhia profundamente. Chorei lágrimas de sangue por tudo o que vivia e por tal descia mais e mais profundamente, sentido o ar e o barulho de uma cidade, na qual todos são um mero número, menos eu. Entrei em pânico e comecei então  gritar silenciosamente, desejando morrer, querendo deixar este mundo que a todos engana com doces, mas que a todos atraiçoa pelas costas. Gostas?- ouvi. Gostas?- de novo ouvi.
In morte vivida

1 comentário:

Maria disse...

descritivo e violento q.b. tal como gostamos. = )