Lisboa

pudesse eu pôr uma venda vermelha
a todos os fracos de espírito

como eu.

cegasse para que pudesse ver a monstruosidade

que é

a cidade

dos muitos.


Sons acres caem em cima dos que passam

atarefados

por aqui

por ali

por eles

por ti.

Sem nunca compreenderem que à noite há Noite.
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.

mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.

(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem

acerca de uma falsa apoteose

da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
esmagados, uns contra os outros.
atropelam-se na pressa
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.

as paredes ganham a espessura da luz, e perdem a vergonha.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
ingénua mas feliz.

3 comentários:

Dextro disse...

um retrato brutal daquilo que a minha (nossa) cidade teima em ignorar, muito bom :)

PS: continua estranho LOL :P

Anónimo disse...

n1

Anónimo disse...

Bem, e com estas palavras fiquei de rastos.
Ganhaste seguramente um admirador, e visitante regular (espero).