Desafio da página 161
Este é o 'desafio da página 161' , que me foi proposto pelo Jota-p.
Regras:
José Saramago, O Homem Duplicado, 2002
Passo o desafio a:
diffraction
Mal desenhado
Trilho
Onde está o branco em ti?
Meus amigos
A violência da obrigação
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafisica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...
Nas tardes de sol, quando ainda teimava em manifestar-se a criança em vez do adulto, os sorrisos eram menores. É na descoberta da complexidade e da diferença que nasce a consciência; e com ela, a transparência do ter de sentir.
Onde era sangue é só solidão
O dever chamava, os sentidos também. Por um lado, os pesados livros que carregava e que precisavam de ser lidos. Por outro, o sol, as ondas e a brisa do Tejo. Um copo de vinho, algumas fotografias, um passeio aparentemente inconsequente.
Aconchego-me nos estranhos lençóis que não são meus e adormeço. Com o peso da incompetência e da irresponsabilidade. Com a leveza das gargalhadas e das tímidas confissões de início-de-tarde.
No país de mim mesma
Cansaço
e a ausência da surpresa
e
mais uma vez
a precipitação.
eu erro
e erro
e falho.
está-me no sangue, este desastre.
com as pessoas, com as coisas
com as situações.
O desastre que não sou
escrever vai sendo um exercício de cedência entre o que penso e o que assumo. que não me leiam, nestas palavras toscas que teimo despejar de forma pouco explícita, os reais significados. eu, tal como as crianças, não sei o que é compreender.
She must be hurt very badly.
Tell me what's making you sad, Li?
Open your door - don't hide in the dark.
You're lost in the dark - you can trust me.
'Cause you know that's how it must be.
Lisa - Lisa, sad Lisa - Lisa.
Gostava de saber quantas páginas já li em toda a minha vida
- Olá.
a doença
Dizer
e sem o saber
nunca sei o que dizer
nunca sei o que te dizer.
Na escola não me ensinaram a lidar
com esta constante inadequação
entre o que sinto
e o que vejo os outros sentirem
e verem.
A minha gaveta das lembranças é um lugar
onde os sorrisos e as palavras fui largar
E no escuro sem eu saber
elas teimam a mostrar
que não sei o que dizer
que não sei o que te dizer.
is everything in the right place?
Wiedersehen
Não se respira
Frédéric Platzer, Compêndio de Música
Yehudi Menuhin, A lição do mestre
Green Hornet, So much to give
Medications, Your favourite People All in one place
Las Vegas Internacional Philarmonic, 007 Classics
Song, song, song
pesam-me os olhos, os ouvidos e os braços, que carregam a responsabilidade de aprender a reproduzir coisas belas. pesa-me a música clássica e contemporânea. pesam-me as palavras e as respirações controladas. pesam-me as temáticas, os tons e o glissar. pesam-me os sons e a sua frequência.
Let's sing a song about a woman's rage
sing a song about an empy stage
a song, a song about how to sing
a song, a song about everything!
Passagem
A meu lado, ela olhava pela janela enquanto visualizava ou imaginava episódios da sua vida. Sorria levemente, e os seus olhos expressavam-se de acordo com o filme interior que ia vendo. Os seus dedos, que repousavam sobre seu colo, marcavam num gesto mudo o compasso de uma canção qualquer. Não conseguia dormir, ela. Nem o som anafórico do comboio lhe apagava os pensamentos, nem o cansaço lhe adormecia o corpo.
E eu, que a observava, tentava perceber o que veria ela dentro de si mesma para além da paisagem invernal que nos inundava.
E danço, danço
Trintintin
Trantantan
Parara
Tralili
Trilala
Trintran
pumpum
humhum
Be silent and be sharp.
Guardian angels who left me stranded
It was worth it, feeling abandoned
Makes one hardened but what has happened to love
Got me writing lyrics on postcards
Then in the evenings looking at stars
But the brightest of the planets is Mars
What has happened to love
So I will opt for the big white limo
Vanity fairgrounds and rebel angels
Can't be trusted with feathers so hollow
Heaven's invention, steel eyed vampires of love
You see over me, I'll never know
What you've shown to other eyes
Go or go ahead and surprise me
Say you've lead the way to a mirage
Go or go ahead and just try me
Nowhere's now here smelling of junipers
Fell off the hay bales, I'm over the rainbows
But oh Medusa kiss me and crucify
This unholy notion of the mythic powers of love
Look in her eyes, look in her eyes
Forget about the ones that are crying
Look in her eyes, look in her eyes
Forget about the ones that are crying
A política e a sua função de integração e manutenção da unidade social. Para efeitos, a institucionalização.
- que dizes tu?
- digo que amanhã quero sentir-me autista.
- que dizes tu?
- digo que amanhã quero escrever tudo o que pensei e ouvi.
- que dizes tu?
- digo que quero saber que consigo.
We want your information
We will do what we must
But not here or in front of people or
on the phone
We're not all blood-sucking leeches
For we all have families too
But that don't mean that we really
love them or that we don't
'Cos I can't love you
And you can't love me
But I can love you
And you can lover me
Love me
It's not a confrontation
(ALL ACROSS THE WORLD OPEN YOUR MOUTH)
We are here because we are broke
(GIVE US WHAT WE WANT, WE'VE HAD ENOUGH)
But we don't expect a hand out of anything
(SOUL! SOUL! SOUL! SOUL! SOUL!)
'Cos I can't help you
And you can't help me
Oh I can help you
And you can help me
I can help you
You can help me
I can help you
You can help me
Help me
Help you
(It's not an impossible situation)
Help me
(It's not an impossible situation)
Help you
(It's not an impossible situation)
Help me
(It's not an impossible situation)
I know there is doubt we can do this
but
I can help you
que o contrário.
Passo a vida entre passos
- Não te encontro.
Os meus reflexos não funcionam dentro do tempo dos teus, porque o meu tempo não é o tempo nem tem tempo.
- Não te encontro.
O meus segundos são os passos de distância de ti. E cada passo é uma eternidade.
O fim
éramos tudo do pouco que tinhamos.
éramos o amor
e o sorriso
da realidade.
éramo-nos sem precedentes. éramo-nos com a despreocupação de crianças.
e fechávamos as portas ao mundo, abrindo as nossas uns para os outros.
e fingiamos que nunca nos tinham ensinado
e corriamos de mãos dadas pel'
as ruas que não eram caminhos
mas destinos para
a necessidade da presença.
éramos três a negar a memória pelo momentâneo
somos três a negar a memória pelo momentâneo
porque somos crianças que fingem que nunca foram ensinadas
e fecham as portas ao mundo, fazendo com que
o sorriso da realidade
seja a abertura das suas portas
a outros iguais
que se sujeitem à sincronização
do som dos seus passos.
O que é o amor? #3
o teu cheiro
a tua mão
e o [som do] teu sorriso
na primeira gaveta da mesinha
onde guardo
as memórias.
Colapso
Corpo
só se sente; só te sinto. o corpo.
esquece-se a mente
abdico do racional por instantes
que por alienantes
se elevam ao pensamento,
libertando-o.
surge o som do corpo
vou sofrendo de movimentos espasmódicos
que só acalmam com
a cobertura do orgânico
pelo orgânico.
O que é o amor? #2
é o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
O que é o amor? #1

as palavras rudemente melodiosas, os cheiros imundos que já não incomodam, a liberdade de movimentos, os olhares baixos por opção, a vibração da cor e, a sociedade não-alinhada,
são o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
acerca de Franz Kafka
«Era um homem e um artista dotado de uma escrupulosa consciência que se mantinha vigilante, onde os outros, os surdos, já se sentiam em segurança.»
«quando se transpõem as barreiras da intimidade, expomo-nos à critica, à piedade e à inveja (...); escancarámos as portas aos mal-entendidos. Já não dominamos as relações com os outros, deixamos de poder modelá-las, somos, pelo contrário, modelados por elas.»
Dupla perspectiva
enquanto a ânsia lhe perfurava os olhos por não encontrar outras mãos sem ser as suas.
O homem feito de palavras e de sons
com o corpo.
Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.
D is for desire
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)
My phone's on vibrate
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
Inutilmente?
e durante a queda apercebo-me que passei a minha vida a decorar.
Cíclico
Manuscrito
Lisboa
a todos os fracos de espírito
como eu.
cegasse para que pudesse ver a monstruosidade
que é
a cidade
dos muitos.
Sons acres caem em cima dos que passam
atarefados
por aqui
por eles
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.
mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.
(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem
acerca de uma falsa apoteose
da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
apaga-se a razão
de sentir cada partícula de ti
a reagir com o meu sistema nervoso central,
é viver.
Erfahrunglos
mas volto.
sempre. que quiseres.
Na ponta da ponta da ponta das pontas dos dedos
O fechar dos olhos e o mundo das imagens torpes à distância de um esticar de mão. Esse reflexo do toque, que acaba por ser a mais ínfima demonstração da ânsia de manipular, é a base do pestanejar dia após dia. Mas à distância de um esticar de mão está o maior tempo do mundo. E morremos quando parece que já sentimos a sua leve textura na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos. E connosco, morre a esperança- já feita de pedaços de carne morta-
da posse.
ii
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto espera de um teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prece.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prensa.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto pandemia.
iii
Na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos, somente a deriva e a sinceridade: Sintamo-nos finalmente (e) livremente nós.
Paixão
E de repente o cheiro do seu cabelo é tudo.
E de repente a ânsia do seu toque é a perda de visão periférica.
E de repente a asfixia.
E de repente o cheiro esvai-se.
E de repente a fúria foge.
E de repente não é mais que o seu nome.
E de repente o até amanhã é a palavra que nunca será ouvida.
Tristeza
Poder
Meu amigo
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.
meu amigo
a menina que gostava de pular pelas páginas
e
g
rau___
_
_
_
até alcançar o ponto final,
não vivo.
fecho os olhos. voo.
angustio.
volto.
sigo.
não me perdoo.
Recompensa
Nunca eu aprendi a desenhar bem,
nem ele agarrou o vento do meu toque.
Mas sorrimos
dentro do olhar um do outro.
Insensibilidade

Não gosto
Tudo,
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.
Assimetria
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.
Confissão

Mas sempre fui assim nas palavras e pensamento
raciocino
ordeno
da minha forma.
Daquela
que poucos
conseguem entender.
Queda
Nem tudo tem solução:
nem a inércia
nem o medo de dela fugir.
E eu,
que me esgueiro pelas portas e me arrasto pelas dunas na noite
tenho os dois.
Voltas a aborrecer-te. Voltas a acomodar-te.
Choras. Ficas contente.
Gritas. Acalmas os ânimos.
Irritas-te. Contas até dez e inspiras.
Perdes o juízo. Sais para refrescar a mente.
Excedes-te. Toleras.
Engoles a democracia e és irredutível. Esqueces-te.
Mandas alguém à merda. Pedes desculpa.
Cerras os punhos. Levantas-te e segues.
Tic Tac
Tic Tac sem parar.
Perda, prisão, afição, ferrugem.
dois.
Tento acalmar as vozes cá dentro; mas só se faz silêncio quando a minha boca deixa fugir, nem que seja aos solavancos, um jorro de verdade.
um.
Deixei de perceber o que é esta coisa a que chamam viver;
E por causa desses que o dizem saber,
estou só.
Máscara

Os valores constrangem,

Seres-padrão
imperfurável
não permite que se viva
no sonho
e não adianta
mascararmo-nos
de tolerantes ou conformados,
ou ainda de felizes
por termos um amor
de mão ou de bolso.
Porque somos átomos esborratados pelos pensamentos
uns
dos outros.

life at the next stop

Os motores pulsam lentamente pelas estradas de sangue nas noites de sono, assim que os corpos se deleitam nos lençóis alvos e sós. A eles, os cérebros mirrados lambem, deglutem o desejo de enganar os inconscientes, dando-lhes a sensação do sonho, do irreal, daquilo que nunca terão coragem de fazer. A eles, moem as memórias com monstros e situações recorrentes que lhes causam pavor. A eles, rasgam a carne com as agulhas das injecções de adrenalina pelo corpo dormente e (se julga) adormecido. A eles, os pesadelos mostram a horrível realidade, em contraste aos momentos felizes.
Amanhece.
Os motores voltam ao ritmo diurno e o esfregar os olhos acompanha um sentimento de segurança, de serem seres inatingíveis pelos sonhos e memórias facilmente ultrapassáveis. Sentem-se realmente acordados, bem como capazes de comprar uma passagem para o paraíso no quiosque mais próximo.
A eles, o sonho traz mais vida que a própria. A eles, os cérebros tentam dizer que memória é mais que quatro paredes e um gás esguio que lhes entra pelo nariz e lhes sai pela boca. A eles, foi incutido um padrão demasiado rígido capaz de tornar a busca da felicidade inconsequente.
(Fotografia de Paulo Ribeiro, com agradecimentos)
Bloqueio
[estímulos invisíveis que o meu corpo transporta ao cérebro]
afogo-as com lágrimas invisíveis;
[o retorno]
estou dormente dos pensamentos
[tudo parece mecânico]
não me consigo solver em palavras.
Pai,
Desliza pelo meu corpo uma lâmina que me corte o corpo à profundidade da alma; faz-me ver que preciso de um rumo, que o tenho de encontrar em vez de me rotinizar. Mostra-me que sou capaz de ser, de te ser, de ser o mundo que sempre quis dominar a brincar.Puxa-me pelas orelhas como às crianças e diz-me o que deva fazer,ensina-me a pescar. Dá-me liberdade de criar, injecta-me nas veias esse néctar a que chamam de talento, de génio. Faz-me ser grande, faz com que ensinem às crianças aquilo que uma vez eu disse ou escrevi, faz-me inventar algo nesta imensidão de gente que vive a morrer.
Porque sem isso, Pai, nunca saberei rir.
Silêncio
com um coração enrugado e imune aos pedaços de droga dos médicos.
Dizem que arranha, berra, grita, de dor
em ter a doença num corpo que resistiu aos recortes da alma
em jeito de suicídio.
os velhos dizem que ele tem cancro do amor, doença da alma
os médicos matam-no aos poucos com destilações para a loucura.
todos falam daquele que um dia vagueava nas ruas a gritar por ajuda.
todos
todos falam
todos falam sem calar
todos falam sem calar as bocas cheias
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos nas noites de sexo forçado
sem amor.
porque só falam
todos
só
todos falam
só falam
e não ouvem.
Eu, eu.
Crio mil e um pretextos para escrever matematismos. Procuro teorias e teses políticas, estudo-as, nego-as. Torno-me um ser ruminante do conhecimento, enquanto o mostro com toda a pompa. Sou cientista quando vejo que não há saida quando não o sou, pois crio sempre patamares altos ao ponto de me superar. E quando me supero sinto-me o ser mais alto de todo o planeta, forte e capaz de desafiar as gravidades da existência. Dá-se início à época de cedência às princesices. Deixo de me achar mesquinha, bem como aos sentidos. Deixo-me ir pelas surpresas, e acredito que são a verdade mais cristalina. Pois se me supero cá dentro, conseguirei superar-me à vista do outro, e sentir sem medo.
Eu, princesa
É tão bom saltar ao som da música que mais gosto e que melhor me faz sentir. Melhor ainda quando choro sem razão, culpando a parte fria de mim. E danço valsas em pensamentos fugazes que me trazem recordações de amores antigos, que torturam os actuais. Iludo-me como um palhaço velho que ainda pensa causar gargalhadas. Até que de noite tremo de medo do mundo, e escrevo sem raiva. Nessa minha loucura nunca peço um mundo melhor, apenas um melhoramento de mim. Por acabo sempre por pensar que sinto, e que tenho sucesso no que faço. Mas não. Caio em devaneios sem fundamento e em sinestesias a que os meus sentidos acabam por corresponder. E aí passo a negar-me:
- Sentimentalóide, sentimentalona.
Eu, ciumenta
Imagino-te e vomito todas as palavras ~onas, ~óides. Pego na faca mais afiada e fina que vejo; degladio-me com as tuas entranhas até que o sangue me dê prazer. É inveja. É dor de não poder estar à tua altura. É ciume doentio a tal ponto que salivo de raiva quando te leio. E tu és daqueles tipinho de gentinha pelo qual eu dava a minha carne: como eu, como nós, podre. Mal de mim ver-te como alguém adversário, mas não me abstraio da tua ruindade deliciosa. Derretes o meu coraçãozinho com um olhar teu, mesmo que falso e nojento. É triste. É vão, sentir ciúmes dos próprios sentidos, de mim mesma. Mas sinto.
Compasso
A vida seria bem mais divertida se a nossa estrada fosse um palco, e o barulho dos carros a banda sonora de um musical.
Marasmo emocional, épocas de
face a todo este ódio que se produz.
porque ainda se condena moralmente,
quando nas ruas passeiam esponjas absorvidas no seu próprio ego.
porque ínfima é a consciência de que somos nós os assassinos do elixir da vida eterna;
a cada dia deixamo-nos morrer um pouco.
porque somos (im)perfeitos.
Ultimato
dá-se na pe-ne-[tra(c)-ção] da falsidade
em todas as es[feras] da vida.
Depois,
há aqueles que se deixam escorregar pelos gritos até sentirem o chão Já frio do pranto.
Segunda leitura: A liberdade acontece quando os medos se vão e o ser humano age sem precedência condicionantes, quando há força e inteligência para o conseguir. Aqueles que se deixam enterrar pelas próprias dores, perdem o rastilho de esperança, e mergulham no medo e na mentira.
Suma: Existirá uma relação antitética entre criação e plenitude; o Homem é livre quando perde os medos, mas só cria quando esconde, quando se abstrai da pluralidade a que é submetido. A pergunta põe-se na possível conjugação da Criação e Liberdade, ou seja, se o ser humano poderá coexistir com o fingimento, sem possuir o medo.]
(editado)
Depois da Meia Noite
(Ininterruptamente, continuo.)
Vergonha
Não.
Vergonha do Medo?
Sim.
Acabas de nascer e és repleto de vergonhas. Cresces e acabas por ser vergonhoso.
Não.
Escrever a Vergonha?
Difícil.
Envergonhar Palavras?
Mais simples, elas são voláteis.
Vergonha de Perguntas?
Sempre.
Medo de Perguntas?
Só se tiver vergonha.
Das minhas?
Até das minhas.
Cura II
Nesta visão de fora que me constrói, crio finalmente uma ideia real do que transpareço. Mas (re)reflectir-me na retina recria também uma nova alteração no que pareço. O processo é anulado, falha-se a tentativa de ter uma visão fugaz e isenta desde eu que ando a tentar descobrir( e talvez gostar): o meu corpo insiste em ser-me, em aperceber-se de que eu o observo. E aí, baixo a cabeça e abstraio-me, até voltar a reconhecer a minha voz.











