Bellevue


Era já tarde e passavam as horas à espera que a espera terminasse. E sono, que aqui e ali aparecia, era não mais que uma forma rápida e passar o tempo.
E ali, na confortabilidade do sofá de Berlim, temi o que me esperava - o Futuro.

um, dois, três

falha a memória
falham os passos
falham os dedos e os processos.

Desafio da página 161

Este é o 'desafio da página 161' , que me foi proposto pelo Jota-p.

Regras:

1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.

Uma súbita contracção muscular constringiu a garganta de Tertuliano Máximo Afonso, a resposta demorou, deu tempo a que a mulher repetisse, impaciente, Estou, quem fala, por fim o professor de História conseguiu pronunciar quatro palavras, Boas Tardes, minha senhora, mas a mulher, em lugar de responder no tom reservado de quem se dirige a um desconhecido de quem ainda por cima não pode ser a ara, disse com um sorriso que transparecia em cada palavra, Se é para disfarçar, não te canses, Desculpe, balbuciou Tertuliano Máximo Afonso, eu vinha só pedir uma informação, que informação pode querer uma pessoa que conhece tudo da casa para onde ligou, O que eu desejava saber é se é aí que mora o actor Daniel Santa-Clara, Meu Caro senhor, eu me encarregarei de comunicar ao actor Daniel Santa-Clara, quando ele chegar, que António Claro telefonou a perguntar se os dois moravam aqui, Não compreendo, começou Tertuliano Máximo Afonso para ganhar tempo, mas a mulher adiantou-se abruptamente, Não te reconheço, não é teu costume teres brincadeiras destas, diz de uma vez o que queres, a filmagem atrasou-se é isso.

José Saramago, O Homem Duplicado, 2002


Passo o desafio a:
diffraction
Mal desenhado
Trilho
O meu refúgio
Onde está o branco em ti?

Meus amigos

na hora do adeus, que não nos despeçamos. Que fique aberta a porta do reencontro, nas tardes de inconsequência e palavreado informal.

A violência da obrigação

Tic Tac, dizem os ponteiros do relógio grande e velho da sala de entrada. São poucas as horas que me restam para tentar memorizar aquilo que era suposto ser aprendido. No entanto, não há tempo para ter tempo, e no meio do cruzamento caótico que são as mentes universitárias, perdem-se as horas na tentativa de saber, nem que seja só para aquele dia.

O artigo 38º do Estatuto do TIJ aceita como fonte formal de Direito Internacional o Costume, tendo este de preencher o requisito da constância( questionável: quanto tempo é preciso para um costume o ser?) e da dispersão geográfica, e sendo estes últimos confirmados pela prática efectiva recorrente e pela opinio juris... (...) O protocolo 11 denota um avanço significativo na protecção da pessoa humana, desprendida da sua relação com o Estado. O mesmo passa a permitir uma queixa directa ao Tribunal Europeu, sem que esta seja filtrada pela Comissão Eurpeia... (...) Dos vícios da constituição dos Tratados, a coacção é aquela que tem como consequência a nulidade imediata e absoluta. O dolo, o erro e a corrupção têm como consequência a nulidade relativa....


Gostava de gostar de gostar.
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafisica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...

Nas tardes de sol, quando ainda teimava em manifestar-se a criança em vez do adulto, os sorrisos eram menores. É na descoberta da complexidade e da diferença que nasce a consciência; e com ela, a transparência do ter de sentir.

Onde era sangue é só solidão



















O dever chamava, os sentidos também. Por um lado, os pesados livros que carregava e que precisavam de ser lidos. Por outro, o sol, as ondas e a brisa do Tejo. Um copo de vinho, algumas fotografias, um passeio aparentemente inconsequente.
Aconchego-me nos estranhos lençóis que não são meus e adormeço. Com o peso da incompetência e da irresponsabilidade. Com a leveza das gargalhadas e das tímidas confissões de início-de-tarde.


















e se dançássemos sobre os caminhos que normalmente nos vêem a caminhar?

Ficou por dizer?

não. nada ficou por dizer.

No país de mim mesma

Na cidade do meu pensamento todas as ruas vão ter à praça da ausência. E as calçadas, feitas de letras sentadas umas ao colo das outras, mostram ideias confusas. Nas casas, as pessoas estão já mortas e sossegam sobre si mesmas, pelo que apenas se vislumbram cortinas esvoaçantes com já escassos sinais de vitalidade.

Cansaço

Foi a desilusão da previsão
e a ausência da surpresa
e
mais uma vez
a precipitação.

eu erro
e erro
e falho.

está-me no sangue, este desastre.
com as pessoas, com as coisas
com as situações.

O desastre que não sou

pudesse eu dizer Olá, roubar-te a presença e pô-la nos meus bolsos. sem que tivesse de me justificar perante qualquer excentricidade, conseguiria ter o que venho a querer desde a despedida. e vai doendo a doença enquanto não chegas, e vai morrer a doença assim que chegares: como o desastre que vou parecendo ser, assumo a minha incapacidade. e por ter a noção de o ir parecendo, vou deixando de o ser.

escrever vai sendo um exercício de cedência entre o que penso e o que assumo. que não me leiam, nestas palavras toscas que teimo despejar de forma pouco explícita, os reais significados. eu, tal como as crianças, não sei o que é compreender.


She hangs her head and cries on my shirt.
She must be hurt very badly.
Tell me what's making you sad, Li?
Open your door - don't hide in the dark.
You're lost in the dark - you can trust me.
'Cause you know that's how it must be.

Lisa - Lisa, sad Lisa - Lisa.

Gostava de saber quantas páginas já li em toda a minha vida

É já Março. O Março dos mal-me-queres e dos passeios. Mas não há companhia além das mil folhas que vou carregando pelos quilómetros rotineiros que ainda vou fazendo. É o desânimo da cegueira, é a ânsia da chegada. E mais uma vez, não sei o que dizer, nem o que te dizer.

- Olá.

a doença

*
sustentava o coração nas mãos, mas ele teimava em cair. os olhos, que tapados por um par de lentes mal alinhadas, mal sentiam a realidade. e os seus cabelos, ainda que curtos, mostravam-se indignados na sua revolta.
*

Dizer

Não sei o que se passa
e sem o saber
nunca sei o que dizer
nunca sei o que te dizer.


Na escola não me ensinaram a lidar
com esta constante inadequação
entre o que sinto
e o que vejo os outros sentirem
e verem.


A minha gaveta das lembranças é um lugar
onde os sorrisos e as palavras fui largar
E no escuro sem eu saber
elas teimam a mostrar
que não sei o que dizer
que não sei o que te dizer.

is everything in the right place?

talvez. talvez a luz esteja aqui, no vazio. Onde ninguém me perturba as capacidades para além da minha própria incapacidade. onde não me castigam por não saber entreter as pessoas para além daquilo que sou e do que sei dar.

Wiedersehen

Não costumo escrever aqui coisas pessoais ou pelo menos não tão explícitas. No entanto, é com estas linhas que desejo sorte a todos aqueles que se vão embora.

Não se respira

Por aqui, enquanto se tenta aprender através do método e da disciplina, arejam-se as ideias com livros aprazíveis ou com sons enérgicos.

Frédéric Platzer, Compêndio de Música
Yehudi Menuhin, A lição do mestre

Green Hornet, So much to give
Medications, Your favourite People All in one place
Las Vegas Internacional Philarmonic, 007 Classics

Song, song, song

pesam-me os olhos, os ouvidos e os braços, que carregam os compassos e as escalas em lá. pesa-me a fusa e a semifusa. pesa-me a teoria e o treino de ouvido. pesa-me a recorrente necessidade de afinação das cordas e a minha audição destreinada. pesa-me o meu passado não musical. pesa-me o arco e a estante de partituras.

pesam-me os olhos, os ouvidos e os braços, que carregam a responsabilidade de aprender a reproduzir coisas belas. pesa-me a música clássica e contemporânea. pesam-me as palavras e as respirações controladas. pesam-me as temáticas, os tons e o glissar. pesam-me os sons e a sua frequência.

Let's sing a song about a woman's rage
sing a song about an empy stage
a song, a song about how to sing
a song, a song about everything!

Passagem

Olhávamos as montanhas com cumes de açúcar, perdidas do tempo exterior. Eu, que carregava o cansaço nos membros, desejava perder alguns momentos de contemplação inesquecível para fechar os olhos e flutuar num sono breve.


A meu lado, ela olhava pela janela enquanto visualizava ou imaginava episódios da sua vida. Sorria levemente, e os seus olhos expressavam-se de acordo com o filme interior que ia vendo. Os seus dedos, que repousavam sobre seu colo, marcavam num gesto mudo o compasso de uma canção qualquer. Não conseguia dormir, ela. Nem o som anafórico do comboio lhe apagava os pensamentos, nem o cansaço lhe adormecia o corpo.


E eu, que a observava, tentava perceber o que veria ela dentro de si mesma para além da paisagem invernal que nos inundava.
somos demasiado pequenos para sermos realmente grandes.

E danço, danço

Passam-se os ritos e os ritmos. Agora, danço pelos violinos e pela vontade de me desprender do corpo e das vidas que se parecem apenas com uma.

Trintintin
Trantantan
Parara
Tralili
Trilala
Trintran
pumpum
humhum

Be silent and be sharp.
Que se percam os sorrisos na habituação da convivência, até aceito.
Que se ponha em causa a convivência devido à habituação, também.










Mas que seja provocada a destruição do historial de trocas interpessoais ininterruptas por uma tolice, não.
Thank you for this bitter knowledge
Guardian angels who left me stranded
It was worth it, feeling abandoned
Makes one hardened but what has happened to love

Got me writing lyrics on postcards
Then in the evenings looking at stars
But the brightest of the planets is Mars
What has happened to love

So I will opt for the big white limo
Vanity fairgrounds and rebel angels
Can't be trusted with feathers so hollow
Heaven's invention, steel eyed vampires of love
You see over me, I'll never know
What you've shown to other eyes

Go or go ahead and surprise me
Say you've lead the way to a mirage
Go or go ahead and just try me

Nowhere's now here smelling of junipers
Fell off the hay bales, I'm over the rainbows
But oh Medusa kiss me and crucify
This unholy notion of the mythic powers of love
Look in her eyes, look in her eyes
Forget about the ones that are crying
Look in her eyes, look in her eyes
Forget about the ones that are crying
não vejo não sinto não toco não sinto não ouço não sinto não escrevo não sinto não vivo não sinto não rio não sinto não nada.

A política e a sua função de integração e manutenção da unidade social. Para efeitos, a institucionalização.

- Tal como que para formar uma bolha de sabão é necessária a existência de uma substância que estimule as características das partículas, de forma a criar pontes de dilatação entre o hidrogénio e manter uma consistência suficiente que proporcione a ilusão de unidade; também para formar o social, é preciso jogar com o equipamento biológico do ser humano para fazer com o que o o outro apareça sempre como uma continuação de eu próprio, numa rede de interdependência com estratégias individuais sincronizadas com as estratégias da sociedade.

- que dizes tu?

- digo que amanhã quero sentir-me autista.

- que dizes tu?

- digo que amanhã quero escrever tudo o que pensei e ouvi.

- que dizes tu?

- digo que quero saber que consigo.
o impossível é bonito, mas impossível.
prefiro as palavras mais bonitas no contexto mais feio,

We want your information
We will do what we must
But not here or in front of people or
on the phone

We're not all blood-sucking leeches
For we all have families too
But that don't mean that we really
love them or that we don't
'Cos I can't love you
And you can't love me
But I can love you
And you can lover me

Love me

It's not a confrontation
(ALL ACROSS THE WORLD OPEN YOUR MOUTH)
We are here because we are broke
(GIVE US WHAT WE WANT, WE'VE HAD ENOUGH)
But we don't expect a hand out of anything
(SOUL! SOUL! SOUL! SOUL! SOUL!)
'Cos I can't help you
And you can't help me
Oh I can help you
And you can help me
I can help you
You can help me
I can help you
You can help me

Help me

Help you
(It's not an impossible situation)
Help me
(It's not an impossible situation)
Help you
(It's not an impossible situation)
Help me
(It's not an impossible situation)

I know there is doubt we can do this
but
I can help you


que o contrário.

do que ficou

Sou uma amálgama de corpos que recusaram o meu.

Passo a vida entre passos

Por cada passo em frente, a distância para o maior tempo de espera diminui. E dou passos para trás, mas o tempo percebe que o quero adormecer, e estica-se dentro de si mesmo.

- Não te encontro.

Os meus reflexos não funcionam dentro do tempo dos teus, porque o meu tempo não é o tempo nem tem tempo.

- Não te encontro.

O meus segundos são os passos de distância de ti. E cada passo é uma eternidade.

O fim

adorávamos ficar a ouvir o som dos nossos passos

éramos tudo do pouco que tinhamos.
éramos o amor
e o sorriso
da realidade.

éramo-nos sem precedentes. éramo-nos com a despreocupação de crianças.
e fechávamos as portas ao mundo, abrindo as nossas uns para os outros.
e fingiamos que nunca nos tinham ensinado
e corriamos de mãos dadas pel'
as ruas que não eram caminhos
mas destinos para
a necessidade da presença.

éramos três a negar a memória pelo momentâneo
somos três a negar a memória pelo momentâneo

porque somos crianças que fingem que nunca foram ensinadas
e fecham as portas ao mundo, fazendo com que
o sorriso da realidade
seja a abertura das suas portas
a outros iguais
que se sujeitem à sincronização
do som dos seus passos.

O que é o amor? #3

não sei se te quero. mas quero
o teu cheiro
a tua mão
e o [som do] teu sorriso
na primeira gaveta da mesinha
onde guardo
as memórias.

Colapso

já não penso. apenas sinto que sinto: a falta. as palavras não chegam. esgotam-se, afundam-se languidamente nas réstias de ansiedade dos que passam. perdem o sentido de tanto as repetir, de as querer repetir. já não chega o azul e o castanho, já não chega sequer o vermelho: esbatem-se à medida que lhes tento tocar. já não chega fechar os olhos e fingir que vejo. sequer cerrar os punhos e crer que existe a força. esgotou-se o pensar pelo colapso do sentir.

Desespero do inacabado


- Dá-me a tua mão. quero pousá-la na minha face e sentir que estás.

Corpo

as palavras falham
só se sente; só te sinto. o corpo.

esquece-se a mente
abdico do racional por instantes
que por alienantes
se elevam ao pensamento,
libertando-o.

surge o som do corpo
vou sofrendo de movimentos espasmódicos
que só acalmam com
a cobertura do orgânico

pelo orgânico.

e tudo parece.

[perdem-se as palavras num universo disconexo de acontecimentos.]



Magali Herradon Burbujas

O que é o amor? #2

Partilhar o que ainda não se tem.

é o amor.



Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.

O que é o amor? #1

#1- sensorial



as palavras rudemente melodiosas, os cheiros imundos que já não incomodam, a liberdade de movimentos, os olhares baixos por opção, a vibração da cor e, a sociedade não-alinhada,

são o amor.


Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.


acerca de Franz Kafka

«É verdade que aparentemente todos somos capazes de viver, porque a partir de certo momento nos refugiamos na mentira, na cegueira, no entusiasmo, no optimismo, numa convicção, no pessimismo, ou em qualquer oura coisa. Mas ele não tem em que se refugiar. É absolutamente incapaz de mentir, como de se embriagar. Não tem o mais pequeno refúgio, o mais pequeno abrigo. Por isso está exposto a tudo aquilo de que nós nos protegemos. É como um homem nu entre as pessoas vestidas.»
Max Brod

«Era um homem e um artista dotado de uma escrupulosa consciência que se mantinha vigilante, onde os outros, os surdos, já se sentiam em segurança.»
Milena Jesenka

«quando se transpõem as barreiras da intimidade, expomo-nos à critica, à piedade e à inveja (...); escancarámos as portas aos mal-entendidos. Já não dominamos as relações com os outros, deixamos de poder modelá-las, somos, pelo contrário, modelados por elas.»
Milena Jesenka


Milena|Margarete Buber-Neumann| 1977

Dupla perspectiva

as mãos acolhiam-lhe as próprias lágrimas,

enquanto a ânsia lhe perfurava os olhos por não encontrar outras mãos sem ser as suas.

- Silêncio! (ii)



E abraçou-o apenas para o sentir.

- Silêncio!


E abraçou o seu próprio corpo apenas para se sentir.


A ânsia




é uma página branca
cheia

de palavras cheias
de branco.




O homem feito de palavras e de sons


O piano a gritar-lhe pela voz
mas ele respondia sempre
com o corpo.

Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.

D is for desire

- Alguma vez leste Lunário, de Al Berto? Lembras a sujidade dos corpos? Os sabores estranhos transmitidos pelas línguas entrelaçadas nas bermas? O intenso cheiro a luxúria nos dedos indicador e médio? A perversidade inocente, aos olhos dos que se arranhavam em locais públicos, com um falso cultivo da inconsequência?
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)

My phone's on vibrate

deixei de viver pelo oxigénio.
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
Esqueceu-se de pensar. descobriu a verdadeira beleza.

Inutilmente?

while I was falling, think i've passed my life memorizing.

und wenn ich falle, merke dass mein Leben zu ? verbringen habe.

et quand je tombe, pense qui j'ai passer ma Vie ?

e quando cado penso chi sono passata la mia Vita a decorare.

e durante a queda apercebo-me que passei a minha vida a decorar.

Cíclico

Gosto demasiado de escrever para ler o que escrevo. Escrevo porque leio mal, e se acabasse por caír no erro de me ler, leria mal o que havia escrito. E aí, escrever o que quer que fosse acabaria por perder aquele sentido de inutilidade e inconsequência que gosto de manter. E deixar de gostar do que escrevo seria um suicídio de cada letra minha. Aí, deitaria ao vento cada expressão que me ocupou cada caneta, bem como ao lixo cada caneta que acabaria por perder o lugar nos instrumentos para alcançar aquilo que gosto. e eu gosto de gostar. De pessoas, de palavras, de sons, de pedras. Mais de pessoas que de pedras, mas não mais de sons que de palavras. Porque as palavras dos mudos não podem ser lidas da mesma forma que as audíveis. Mesmo que pudessem soar na minha cabeça, continuariam mudas pois a minha surdez elimina-las-ia. Porque só consigo ouvir aquilo que quero ouvir, mesmo que na minha cabeça. Porque só ouço os sons que gosto, e por isso gosto de sons. Da mesma maneira que gosto de palavras. Porque só leio aquilo que gosto de ler. E por isso leio mal. E por isso escrevo.

Manuscrito
Não me cumprimentem com sorrisos nem acenos. Quero aplausos.

Lisboa

pudesse eu pôr uma venda vermelha
a todos os fracos de espírito

como eu.

cegasse para que pudesse ver a monstruosidade

que é

a cidade

dos muitos.


Sons acres caem em cima dos que passam

atarefados

por aqui

por ali

por eles

por ti.

Sem nunca compreenderem que à noite há Noite.
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.

mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.

(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem

acerca de uma falsa apoteose

da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
esmagados, uns contra os outros.
atropelam-se na pressa
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.

as paredes ganham a espessura da luz, e perdem a vergonha.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
ingénua mas feliz.

apaga-se a razão

o prazer
de sentir cada partícula de ti
a reagir com o meu sistema nervoso central,
é viver.

Erfahrunglos

procuras-me. vou. sigo-te. olho para dentro e prometo que não o volto a fazer.

mas volto.

sempre. que quiseres.

Na ponta da ponta da ponta das pontas dos dedos

i
O fechar dos olhos e o mundo das imagens torpes à distância de um esticar de mão. Esse reflexo do toque, que acaba por ser a mais ínfima demonstração da ânsia de manipular, é a base do pestanejar dia após dia. Mas à distância de um esticar de mão está o maior tempo do mundo. E morremos quando parece que já sentimos a sua leve textura na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos. E connosco, morre a esperança- já feita de pedaços de carne morta-
da posse.

ii
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto espera de um teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prece.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prensa.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto pandemia.

iii
Na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos, somente a deriva e a sinceridade: Sintamo-nos finalmente (e) livremente nós.

Flipé

Chafurda na própria imundície intelectual e esquece-se da peste
habituando-se.



Paixão

E de repente um olá devagar é a palavra com mais sentido que alguma vez ouvimos.

E de repente o cheiro do seu cabelo é tudo.

E de repente a ânsia do seu toque é a perda de visão periférica.

E de repente a asfixia.

E de repente o cheiro esvai-se.

E de repente a fúria foge.

E de repente não é mais que o seu nome.

E de repente o até amanhã é a palavra que nunca será ouvida.

Fim

o mais doloroso não é o fim. mas o antes e o depois.

Tristeza

tenho a tristeza sentada ao meu lado. não daquela que chama a atenção dos outros. não daquela egoísta. mas daquela que nos tiram o chão, os braços e as pernas. as pernas, o chão e a boca. as palavras, a língua e os braços. uma perna e outra perna. a língua cortada com uma tesoura pequena, aos poucos e às postas. a boca agrafada ao nariz e ao peito. os lábios repuxados com laivos de sangue seco. as palavras impossíveis sem os braços sem mãos e sem cotovelos. sem uma caneta na ponta dos dedos. as pernas traçadas uma soubre a outra. na tua frente. descoladas do corpo onde sempre permaneceram. com lascas de carne já seca pelo tempo que não passou. e tudo o que pensas, é impossível. sem chorar e mostrar a dor. até que o chão se abre. a queda. para sempre.

Poder

porque se gastam aos poucos, gostava de saber o nome de todos aqueles com quem troquei palavras, para que deixassem de ser sombras na minha memória, e os pudesse escrever. e uma palavra é um infinito. e o i_n_f_i_n_i_t_o é tudo o que está dentro das pessoas.

Meu amigo

o negro espesso da tua figura aperta-me os sentidos.
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.

meu amigo

a menina que gostava de pular pelas páginas

pisava aqui
descia um
d
e
g
rau___

outro... e corria_._._._._._._._._._._._._._até à outra ponta da folha,
_
_
_
até alcançar o ponto final,
e começar a escrever com o toque das folhas recente na ponta de seus dedos, e com o pó de fantasia que ficara agarrado aos seus sapatos.


não vivo.

começa de novo a fúria. as pessoas correm e eu paro. sento-me na minha própria angústia e sorvo toda aquela avidez do veloz.
dói aqui. nas pontas do coração. no turbilhão. ______________________________________________.

fecho os olhos. voo.

angustio.

volto.

sigo.

não me perdoo.

Recompensa

peguei-lhe na mão e ensinou-me a desenhar, como uma troca de favores.
Nunca eu aprendi a desenhar bem,
nem ele agarrou o vento do meu toque.
Mas sorrimos
dentro do olhar um do outro.
cocegueia-me aqui e ali,
até rir
e adormecer com a tua presença.

Insensibilidade


até sentir o ardor nos rasgões de pele.
uma
e outra vez.
até amanhecer.
devagar.
e se esquecer.
do que não sentiu.

Não gosto

gosto de escrever. gosto de ver passar as palavras pelos meus olhos e entendê-las. estendê-las. gosto de ler o que se escreve e que não se pode dizer. mas não gosto das letras. porque enquanto parece que as leio, a minha memória lê as que consegui ler pela primeira vez. e cá ficaram. enraízadas aos sentimentos e às páginas. subestimadas. as palavras nunca significam a mesma coisa duas vezes. as letras soam sempre ao mesmo. se eu me lembrasse do trabalho com que cada uma foi escrita, talvez gostasse das letras. mas eu não gosto das letras. porque as sei de cor. porque as magoo quando não penso no tornear da caneta das primeiras que me ensinaram a escrever: as do meu nome. e as letras que finjo ler são as perdidas na minha memória. as mesmas que me fazem escrever por automatismo. sem valor. por isso não gosto das letras. e talvez menos ainda da memória delas.

Tudo,

desde as palavras que se embrulharam nas nossas línguas,
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.

Tropeçar


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(música: Lamb, Five)

Assimetria

chorarmos pelos cantos por falta de algo que nem realmente nos faz falta,
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.

Alter ego

todo esforço é vão,
pois toda a alma apodrece.

Confissão


Reparar que tenho de recorrer a esquemas para entender textos torna-se engraçado. Pois só depois reparo que o esquema acaba por parecer mais difícil de compreender que o próprio texto.
Mas sempre fui assim nas palavras e pensamento
raciocino
ordeno
da minha forma.
Daquela
que poucos
conseguem entender.

Nem mais uma palavra

...
enquanto não sentires realmente o que dizes.

Saturation


or even
simulation.

Queda

[O acto, o assassínio]

Nem tudo tem solução:
nem a inércia
nem o medo de dela fugir.

E eu,
que me esgueiro pelas portas e me arrasto pelas dunas na noite
tenho os dois.
...

[A consciência]
Aborreces-te. Acomodas-te.
Voltas a aborrecer-te. Voltas a acomodar-te.
Choras. Ficas contente.
Gritas. Acalmas os ânimos.
Irritas-te. Contas até dez e inspiras.
Perdes o juízo. Sais para refrescar a mente.
Excedes-te. Toleras.
Engoles a democracia e és irredutível. Esqueces-te.
Mandas alguém à merda. Pedes desculpa.
Cerras os punhos. Levantas-te e segues.

E quando quebras o ciclo por uns momentos, reparas que não és mais que uma explosão de sentidos por revelar, acomodados, reprimidos: que te mastigam o cérebro dia após dia, que te fazem fumar as pontas de vontade.

Tic Tac

Faz daqui a dois minutos mais dois minutos que cá estou sem ver a luz do sol. Já me injectei de esperança uma, duas, talvez três vezes desde que estou neste cubículo pérfido. A anestesia já não faz efeito, já não me mata, apenas mói, corrói, dói. Apenas me faz ficar aqui encostada a esta parede a olhar para aquele mosquitinho irritante a afogar-se no leite do gato. Raiva de o ver a agonizar, raiva de saber que o posso salvar e não faço porque tenho o corpo preso com linhas de coser, cozer; palavreados e composições. Merda textual que me mordisca os pensamentos.
Tic Tac sem parar.
Perda, prisão, afição, ferrugem.

C O R R O S ã o do eu.

Crime


Agendando a vida enquanto se vive.

Imperativo

porquê
para quê

berros de ordem

quando basta uma palavra meiga

dois.

um.
Tento acalmar as vozes cá dentro; mas só se faz silêncio quando a minha boca deixa fugir, nem que seja aos solavancos, um jorro de verdade.

um.
Deixei de perceber o que é esta coisa a que chamam viver;
E por causa desses que o dizem saber,
estou só.

Máscara


Corre-se pelas ruas e ama-se às esquinas com um calor desenfreado. Um vai e vem espasmódico de ancas que inunda a espessura da noite. Depois, contando as moedas proporcionais ao vazio da alma, limpam aos lenços a vergonha já agarrada à máscara , e dormem como anjos.

Os valores constrangem,


[porque enquanto correm lírios soltos pelas belas e serenas artérias do corpo; é contínua a perda de tempo com enigmas, leis e regras de conduta.]

Seres-padrão


A bolha invisível,
imperfurável
não permite que se viva
no sonho
e não adianta
mascararmo-nos
de tolerantes ou conformados,
ou ainda de felizes
por termos um amor
de mão ou de bolso.

Porque somos átomos esborratados pelos pensamentos
uns
dos outros.


life at the next stop



Os motores pulsam lentamente pelas estradas de sangue nas noites de sono, assim que os corpos se deleitam nos lençóis alvos e sós. A eles, os cérebros mirrados lambem, deglutem o desejo de enganar os inconscientes, dando-lhes a sensação do sonho, do irreal, daquilo que nunca terão coragem de fazer. A eles, moem as memórias com monstros e situações recorrentes que lhes causam pavor. A eles, rasgam a carne com as agulhas das injecções de adrenalina pelo corpo dormente e (se julga) adormecido. A eles, os pesadelos mostram a horrível realidade, em contraste aos momentos felizes.
Amanhece.
Os motores voltam ao ritmo diurno e o esfregar os olhos acompanha um sentimento de segurança, de serem seres inatingíveis pelos sonhos e memórias facilmente ultrapassáveis. Sentem-se realmente acordados, bem como capazes de comprar uma passagem para o paraíso no quiosque mais próximo.
A eles, o sonho traz mais vida que a própria. A eles, os cérebros tentam dizer que memória é mais que quatro paredes e um gás esguio que lhes entra pelo nariz e lhes sai pela boca. A eles, foi incutido um padrão demasiado rígido capaz de tornar a busca da felicidade inconsequente.

(Fotografia de Paulo Ribeiro, com agradecimentos)

Loop

O futuro é passivel de ser previsível quando se é escritor;
o suspiro da surpresa é contido e dá-se conta
das constantes anáforas da vida.


(foto de Paulo Alegria)

The sparkling diamond


Bicolor, bífido, hibrido; falso?

Bloqueio

Roço os dedos pelas teclas
[estímulos invisíveis que o meu corpo transporta ao cérebro]
afogo-as com lágrimas invisíveis;
[o retorno]
estou dormente dos pensamentos
[tudo parece mecânico]
não me consigo solver em palavras.

Solto

Mau não é ser mau, mas ser nulo.

Pai,

pega-me pelo braço como quem castiga uma criança, diz que nunca fui aquilo que querias, diz que me tornei uma aberração.E tudo por causa da minha necessidade de me viciar nas drogas da preguiça e do comodismo.
Desliza pelo meu corpo uma lâmina que me corte o corpo à profundidade da alma; faz-me ver que preciso de um rumo, que o tenho de encontrar em vez de me rotinizar. Mostra-me que sou capaz de ser, de te ser, de ser o mundo que sempre quis dominar a brincar.Puxa-me pelas orelhas como às crianças e diz-me o que deva fazer,ensina-me a pescar. Dá-me liberdade de criar, injecta-me nas veias esse néctar a que chamam de talento, de génio. Faz-me ser grande, faz com que ensinem às crianças aquilo que uma vez eu disse ou escrevi, faz-me inventar algo nesta imensidão de gente que vive a morrer.
Porque sem isso, Pai, nunca saberei rir.

nove

não me sinto capaz.

Silêncio

vive por não morrer
com um coração enrugado e imune aos pedaços de droga dos médicos.

Dizem que arranha, berra, grita, de dor
em ter a doença num corpo que resistiu aos recortes da alma
em jeito de suicídio.

os velhos dizem que ele tem cancro do amor, doença da alma
os médicos matam-no aos poucos com destilações para a loucura.

todos falam daquele que um dia vagueava nas ruas a gritar por
ajuda.
todos
todos falam
todos falam sem calar
todos falam sem calar as bocas cheias
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos nas noites de sexo forçado
sem amor.
porque só falam
todos

todos falam
só falam
e não ouvem.

Eu, eu.

Eu, cientista
Crio mil e um pretextos para escrever matematismos. Procuro teorias e teses políticas, estudo-as, nego-as. Torno-me um ser ruminante do conhecimento, enquanto o mostro com toda a pompa. Sou cientista quando vejo que não há saida quando não o sou, pois crio sempre patamares altos ao ponto de me superar. E quando me supero sinto-me o ser mais alto de todo o planeta, forte e capaz de desafiar as gravidades da existência. Dá-se início à época de cedência às princesices. Deixo de me achar mesquinha, bem como aos sentidos. Deixo-me ir pelas surpresas, e acredito que são a verdade mais cristalina. Pois se me supero cá dentro, conseguirei superar-me à vista do outro, e sentir sem medo.

Eu, princesa
É tão bom saltar ao som da música que mais gosto e que melhor me faz sentir. Melhor ainda quando choro sem razão, culpando a parte fria de mim. E danço valsas em pensamentos fugazes que me trazem recordações de amores antigos, que torturam os actuais. Iludo-me como um palhaço velho que ainda pensa causar gargalhadas. Até que de noite tremo de medo do mundo, e escrevo sem raiva. Nessa minha loucura nunca peço um mundo melhor, apenas um melhoramento de mim. Por acabo sempre por pensar que sinto, e que tenho sucesso no que faço. Mas não. Caio em devaneios sem fundamento e em sinestesias a que os meus sentidos acabam por corresponder. E aí passo a negar-me:
- Sentimentalóide, sentimentalona.

Eu, ciumenta
Imagino-te e vomito todas as palavras ~onas, ~óides. Pego na faca mais afiada e fina que vejo; degladio-me com as tuas entranhas até que o sangue me dê prazer. É inveja. É dor de não poder estar à tua altura. É ciume doentio a tal ponto que salivo de raiva quando te leio. E tu és daqueles tipinho de gentinha pelo qual eu dava a minha carne: como eu, como nós, podre. Mal de mim ver-te como alguém adversário, mas não me abstraio da tua ruindade deliciosa. Derretes o meu coraçãozinho com um olhar teu, mesmo que falso e nojento. É triste. É vão, sentir ciúmes dos próprios sentidos, de mim mesma. Mas sinto.


Compasso

...um dois três, uma volta, mais uma, um passo à esquerda, dois à direita, uma vénia...

A vida seria bem mais divertida se a nossa estrada fosse um palco, e o barulho dos carros a banda sonora de um musical.

Marasmo emocional, épocas de

porque ainda há quem pense que amar é uma obrigação humana;
face a todo este ódio que se produz.

porque ainda se condena moralmente,
quando nas ruas passeiam esponjas absorvidas no seu próprio ego.

porque ínfima é a consciência de que somos nós os assassinos do elixir da vida eterna;

a cada dia deixamo-nos morrer um pouco.

porque somos
(im)perfeitos.

Ultimato

O auge da cri-[a(c)-ção]
dá-se na pe-ne-[tra(c)-ção] da falsidade
em todas as es[feras] da vida.

Depois,
há aqueles que se deixam escorregar pelos gritos até sentirem o chão frio do pranto.

[Primeira leitura: As melhores criações advêm das alturas em que se esconde a loucura, e se mente ao real para tudo parecer calmo e harmonioso; não existe mais que um desespero vergonhoso e latente. As outras, que surgem das situações de tristeza declarada não terão a mesma intensidade, pois as lágrimas acabam sempre por atenuar a dor, e arrefecer o ambiente.

Segunda leitura: A liberdade acontece quando os medos se vão e o ser humano age sem precedência condicionantes, quando há força e inteligência para o conseguir. Aqueles que se deixam enterrar pelas próprias dores, perdem o rastilho de esperança, e mergulham no medo e na mentira.

Suma: Existirá uma relação antitética entre criação e plenitude; o Homem é livre quando perde os medos, mas só cria quando esconde, quando se abstrai da pluralidade a que é submetido. A pergunta põe-se na possível conjugação da Criação e Liberdade, ou seja, se o ser humano poderá coexistir com o fingimento, sem possuir o medo.]

(editado)

Depois da Meia Noite

Passam nove minutos da meia noite e eu penso em ti. Revejo todos os momentos que temos tido, tudo o que temos crescido. E sabe bem chegar a casa cansada e saber que temos alguém que nos aconchega no colo e dos acaricia o cabelo até adormecermos. Que sentimos a pelnitude do outro em nós mesmos, que somos um chá purificante das dores salgadas que não descolam da nossa pele. Um beijo pequeno, uma abraço, um toque teu - é o que basta para me sentir em paz e em plena liberdade. É perfeito, é forte e no mesmo tempo frágil como uma gota da sangue que escorrega e se esvai. Mas faz-nos sentir vivos, faz-nos ter vontade de criar às mais loucas horas e situações, faz-nos rir, faz-nos chorar.
(Ininterruptamente, continuo.)

Vergonha

Medo da Vergonha?
Não.
Vergonha do Medo?
Sim.
Vergonha da Existência?
Acabas de nascer e és repleto de vergonhas. Cresces e acabas por ser vergonhoso.
Vergonha de Escrever?
Não.
Escrever a Vergonha?
Difícil.
Envergonhar Palavras?
Mais simples, elas são voláteis.
Vergonha de Perguntas?
Sempre.
Medo de Perguntas?
Só se tiver vergonha.
Das minhas?
Até das minhas.

Cura II

Disponho as palavras de modo diferente e reinvento a minha já inerte maneira de escrever. Vejo-me de fora sem a dependência do meu corpo às minhas doenças: como se não me fosse; sem as feridas em grito. Critico-me sem mágoa. Escrevo com a caneta sem a minha tinta em constante indecisão.
Nesta visão de fora que me constrói, crio finalmente uma ideia real do que transpareço. Mas (re)reflectir-me na retina recria também uma nova alteração no que pareço. O processo é anulado, falha-se a tentativa de ter uma visão fugaz e isenta desde eu que ando a tentar descobrir( e talvez gostar): o meu corpo insiste em ser-me, em aperceber-se de que eu o observo. E aí, baixo a cabeça e abstraio-me, até voltar a reconhecer a minha voz.