um, dois, três

falha a memória
falham os passos
falham os dedos e os processos.

Desafio da página 161

Este é o 'desafio da página 161' , que me foi proposto pelo Jota-p.

Regras:

1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.

Uma súbita contracção muscular constringiu a garganta de Tertuliano Máximo Afonso, a resposta demorou, deu tempo a que a mulher repetisse, impaciente, Estou, quem fala, por fim o professor de História conseguiu pronunciar quatro palavras, Boas Tardes, minha senhora, mas a mulher, em lugar de responder no tom reservado de quem se dirige a um desconhecido de quem ainda por cima não pode ser a ara, disse com um sorriso que transparecia em cada palavra, Se é para disfarçar, não te canses, Desculpe, balbuciou Tertuliano Máximo Afonso, eu vinha só pedir uma informação, que informação pode querer uma pessoa que conhece tudo da casa para onde ligou, O que eu desejava saber é se é aí que mora o actor Daniel Santa-Clara, Meu Caro senhor, eu me encarregarei de comunicar ao actor Daniel Santa-Clara, quando ele chegar, que António Claro telefonou a perguntar se os dois moravam aqui, Não compreendo, começou Tertuliano Máximo Afonso para ganhar tempo, mas a mulher adiantou-se abruptamente, Não te reconheço, não é teu costume teres brincadeiras destas, diz de uma vez o que queres, a filmagem atrasou-se é isso.

José Saramago, O Homem Duplicado, 2002


Passo o desafio a:
diffraction
Mal desenhado
Trilho
O meu refúgio
Onde está o branco em ti?

Meus amigos

na hora do adeus, que não nos despeçamos. Que fique aberta a porta do reencontro, nas tardes de inconsequência e palavreado informal.

A violência da obrigação

Tic Tac, dizem os ponteiros do relógio grande e velho da sala de entrada. São poucas as horas que me restam para tentar memorizar aquilo que era suposto ser aprendido. No entanto, não há tempo para ter tempo, e no meio do cruzamento caótico que são as mentes universitárias, perdem-se as horas na tentativa de saber, nem que seja só para aquele dia.

O artigo 38º do Estatuto do TIJ aceita como fonte formal de Direito Internacional o Costume, tendo este de preencher o requisito da constância( questionável: quanto tempo é preciso para um costume o ser?) e da dispersão geográfica, e sendo estes últimos confirmados pela prática efectiva recorrente e pela opinio juris... (...) O protocolo 11 denota um avanço significativo na protecção da pessoa humana, desprendida da sua relação com o Estado. O mesmo passa a permitir uma queixa directa ao Tribunal Europeu, sem que esta seja filtrada pela Comissão Eurpeia... (...) Dos vícios da constituição dos Tratados, a coacção é aquela que tem como consequência a nulidade imediata e absoluta. O dolo, o erro e a corrupção têm como consequência a nulidade relativa....


Gostava de gostar de gostar.
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafisica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...

Nas tardes de sol, quando ainda teimava em manifestar-se a criança em vez do adulto, os sorrisos eram menores. É na descoberta da complexidade e da diferença que nasce a consciência; e com ela, a transparência do ter de sentir.

Onde era sangue é só solidão



















O dever chamava, os sentidos também. Por um lado, os pesados livros que carregava e que precisavam de ser lidos. Por outro, o sol, as ondas e a brisa do Tejo. Um copo de vinho, algumas fotografias, um passeio aparentemente inconsequente.
Aconchego-me nos estranhos lençóis que não são meus e adormeço. Com o peso da incompetência e da irresponsabilidade. Com a leveza das gargalhadas e das tímidas confissões de início-de-tarde.


















e se dançássemos sobre os caminhos que normalmente nos vêem a caminhar?

Ficou por dizer?

não. nada ficou por dizer.

No país de mim mesma

Na cidade do meu pensamento todas as ruas vão ter à praça da ausência. E as calçadas, feitas de letras sentadas umas ao colo das outras, mostram ideias confusas. Nas casas, as pessoas estão já mortas e sossegam sobre si mesmas, pelo que apenas se vislumbram cortinas esvoaçantes com já escassos sinais de vitalidade.

Cansaço

Foi a desilusão da previsão
e a ausência da surpresa
e
mais uma vez
a precipitação.

eu erro
e erro
e falho.

está-me no sangue, este desastre.
com as pessoas, com as coisas
com as situações.

O desastre que não sou

pudesse eu dizer Olá, roubar-te a presença e pô-la nos meus bolsos. sem que tivesse de me justificar perante qualquer excentricidade, conseguiria ter o que venho a querer desde a despedida. e vai doendo a doença enquanto não chegas, e vai morrer a doença assim que chegares: como o desastre que vou parecendo ser, assumo a minha incapacidade. e por ter a noção de o ir parecendo, vou deixando de o ser.

escrever vai sendo um exercício de cedência entre o que penso e o que assumo. que não me leiam, nestas palavras toscas que teimo despejar de forma pouco explícita, os reais significados. eu, tal como as crianças, não sei o que é compreender.


She hangs her head and cries on my shirt.
She must be hurt very badly.
Tell me what's making you sad, Li?
Open your door - don't hide in the dark.
You're lost in the dark - you can trust me.
'Cause you know that's how it must be.

Lisa - Lisa, sad Lisa - Lisa.

Gostava de saber quantas páginas já li em toda a minha vida

É já Março. O Março dos mal-me-queres e dos passeios. Mas não há companhia além das mil folhas que vou carregando pelos quilómetros rotineiros que ainda vou fazendo. É o desânimo da cegueira, é a ânsia da chegada. E mais uma vez, não sei o que dizer, nem o que te dizer.

- Olá.

a doença

*
sustentava o coração nas mãos, mas ele teimava em cair. os olhos, que tapados por um par de lentes mal alinhadas, mal sentiam a realidade. e os seus cabelos, ainda que curtos, mostravam-se indignados na sua revolta.
*

Dizer

Não sei o que se passa
e sem o saber
nunca sei o que dizer
nunca sei o que te dizer.


Na escola não me ensinaram a lidar
com esta constante inadequação
entre o que sinto
e o que vejo os outros sentirem
e verem.


A minha gaveta das lembranças é um lugar
onde os sorrisos e as palavras fui largar
E no escuro sem eu saber
elas teimam a mostrar
que não sei o que dizer
que não sei o que te dizer.

is everything in the right place?

talvez. talvez a luz esteja aqui, no vazio. Onde ninguém me perturba as capacidades para além da minha própria incapacidade. onde não me castigam por não saber entreter as pessoas para além daquilo que sou e do que sei dar.

Wiedersehen

Não costumo escrever aqui coisas pessoais ou pelo menos não tão explícitas. No entanto, é com estas linhas que desejo sorte a todos aqueles que se vão embora.

Não se respira

Por aqui, enquanto se tenta aprender através do método e da disciplina, arejam-se as ideias com livros aprazíveis ou com sons enérgicos.

Frédéric Platzer, Compêndio de Música
Yehudi Menuhin, A lição do mestre

Green Hornet, So much to give
Medications, Your favourite People All in one place
Las Vegas Internacional Philarmonic, 007 Classics

Song, song, song

pesam-me os olhos, os ouvidos e os braços, que carregam os compassos e as escalas em lá. pesa-me a fusa e a semifusa. pesa-me a teoria e o treino de ouvido. pesa-me a recorrente necessidade de afinação das cordas e a minha audição destreinada. pesa-me o meu passado não musical. pesa-me o arco e a estante de partituras.

pesam-me os olhos, os ouvidos e os braços, que carregam a responsabilidade de aprender a reproduzir coisas belas. pesa-me a música clássica e contemporânea. pesam-me as palavras e as respirações controladas. pesam-me as temáticas, os tons e o glissar. pesam-me os sons e a sua frequência.

Let's sing a song about a woman's rage
sing a song about an empy stage
a song, a song about how to sing
a song, a song about everything!

Passagem

Olhávamos as montanhas com cumes de açúcar, perdidas do tempo exterior. Eu, que carregava o cansaço nos membros, desejava perder alguns momentos de contemplação inesquecível para fechar os olhos e flutuar num sono breve.


A meu lado, ela olhava pela janela enquanto visualizava ou imaginava episódios da sua vida. Sorria levemente, e os seus olhos expressavam-se de acordo com o filme interior que ia vendo. Os seus dedos, que repousavam sobre seu colo, marcavam num gesto mudo o compasso de uma canção qualquer. Não conseguia dormir, ela. Nem o som anafórico do comboio lhe apagava os pensamentos, nem o cansaço lhe adormecia o corpo.


E eu, que a observava, tentava perceber o que veria ela dentro de si mesma para além da paisagem invernal que nos inundava.
somos demasiado pequenos para sermos realmente grandes.