Sou uma amálgama de corpos que recusaram o meu.
Passo a vida entre passos
Por cada passo em frente, a distância para o maior tempo de espera diminui. E dou passos para trás, mas o tempo percebe que o quero adormecer, e estica-se dentro de si mesmo.
- Não te encontro.
Os meus reflexos não funcionam dentro do tempo dos teus, porque o meu tempo não é o tempo nem tem tempo.
- Não te encontro.
O meus segundos são os passos de distância de ti. E cada passo é uma eternidade.
- Não te encontro.
Os meus reflexos não funcionam dentro do tempo dos teus, porque o meu tempo não é o tempo nem tem tempo.
- Não te encontro.
O meus segundos são os passos de distância de ti. E cada passo é uma eternidade.
O fim
adorávamos ficar a ouvir o som dos nossos passos
éramos tudo do pouco que tinhamos.
éramos o amor
e o sorriso
da realidade.
éramo-nos sem precedentes. éramo-nos com a despreocupação de crianças.
e fechávamos as portas ao mundo, abrindo as nossas uns para os outros.
e fingiamos que nunca nos tinham ensinado
e corriamos de mãos dadas pel'
as ruas que não eram caminhos
mas destinos para
a necessidade da presença.
éramos três a negar a memória pelo momentâneo
somos três a negar a memória pelo momentâneo
porque somos crianças que fingem que nunca foram ensinadas
e fecham as portas ao mundo, fazendo com que
o sorriso da realidade
seja a abertura das suas portas
a outros iguais
que se sujeitem à sincronização
do som dos seus passos.
éramos tudo do pouco que tinhamos.
éramos o amor
e o sorriso
da realidade.
éramo-nos sem precedentes. éramo-nos com a despreocupação de crianças.
e fechávamos as portas ao mundo, abrindo as nossas uns para os outros.
e fingiamos que nunca nos tinham ensinado
e corriamos de mãos dadas pel'
as ruas que não eram caminhos
mas destinos para
a necessidade da presença.
éramos três a negar a memória pelo momentâneo
somos três a negar a memória pelo momentâneo
porque somos crianças que fingem que nunca foram ensinadas
e fecham as portas ao mundo, fazendo com que
o sorriso da realidade
seja a abertura das suas portas
a outros iguais
que se sujeitem à sincronização
do som dos seus passos.
O que é o amor? #3
não sei se te quero. mas quero
o teu cheiro
a tua mão
e o [som do] teu sorriso
na primeira gaveta da mesinha
onde guardo
as memórias.
o teu cheiro
a tua mão
e o [som do] teu sorriso
na primeira gaveta da mesinha
onde guardo
as memórias.
Colapso
já não penso. apenas sinto que sinto: a falta. as palavras não chegam. esgotam-se, afundam-se languidamente nas réstias de ansiedade dos que passam. perdem o sentido de tanto as repetir, de as querer repetir. já não chega o azul e o castanho, já não chega sequer o vermelho: esbatem-se à medida que lhes tento tocar. já não chega fechar os olhos e fingir que vejo. sequer cerrar os punhos e crer que existe a força. esgotou-se o pensar pelo colapso do sentir.
Corpo
as palavras falham
só se sente; só te sinto. o corpo.
esquece-se a mente
abdico do racional por instantes
que por alienantes
se elevam ao pensamento,
libertando-o.
surge o som do corpo
vou sofrendo de movimentos espasmódicos
que só acalmam com
a cobertura do orgânico
pelo orgânico.
só se sente; só te sinto. o corpo.
esquece-se a mente
abdico do racional por instantes
que por alienantes
se elevam ao pensamento,
libertando-o.
surge o som do corpo
vou sofrendo de movimentos espasmódicos
que só acalmam com
a cobertura do orgânico
pelo orgânico.
O que é o amor? #2
Partilhar o que ainda não se tem.
é o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
é o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
O que é o amor? #1
#1- sensorial

as palavras rudemente melodiosas, os cheiros imundos que já não incomodam, a liberdade de movimentos, os olhares baixos por opção, a vibração da cor e, a sociedade não-alinhada,
são o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
acerca de Franz Kafka
«É verdade que aparentemente todos somos capazes de viver, porque a partir de certo momento nos refugiamos na mentira, na cegueira, no entusiasmo, no optimismo, numa convicção, no pessimismo, ou em qualquer oura coisa. Mas ele não tem em que se refugiar. É absolutamente incapaz de mentir, como de se embriagar. Não tem o mais pequeno refúgio, o mais pequeno abrigo. Por isso está exposto a tudo aquilo de que nós nos protegemos. É como um homem nu entre as pessoas vestidas.»
«Era um homem e um artista dotado de uma escrupulosa consciência que se mantinha vigilante, onde os outros, os surdos, já se sentiam em segurança.»
«quando se transpõem as barreiras da intimidade, expomo-nos à critica, à piedade e à inveja (...); escancarámos as portas aos mal-entendidos. Já não dominamos as relações com os outros, deixamos de poder modelá-las, somos, pelo contrário, modelados por elas.»
Max Brod
«Era um homem e um artista dotado de uma escrupulosa consciência que se mantinha vigilante, onde os outros, os surdos, já se sentiam em segurança.»
Milena Jesenka
«quando se transpõem as barreiras da intimidade, expomo-nos à critica, à piedade e à inveja (...); escancarámos as portas aos mal-entendidos. Já não dominamos as relações com os outros, deixamos de poder modelá-las, somos, pelo contrário, modelados por elas.»
Milena Jesenka
Milena|Margarete Buber-Neumann| 1977
Dupla perspectiva
as mãos acolhiam-lhe as próprias lágrimas,
enquanto a ânsia lhe perfurava os olhos por não encontrar outras mãos sem ser as suas.
enquanto a ânsia lhe perfurava os olhos por não encontrar outras mãos sem ser as suas.
O homem feito de palavras e de sons
O piano a gritar-lhe pela voz
mas ele respondia sempre
com o corpo.
Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.
com o corpo.
Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.
D is for desire
- Alguma vez leste Lunário, de Al Berto? Lembras a sujidade dos corpos? Os sabores estranhos transmitidos pelas línguas entrelaçadas nas bermas? O intenso cheiro a luxúria nos dedos indicador e médio? A perversidade inocente, aos olhos dos que se arranhavam em locais públicos, com um falso cultivo da inconsequência?
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)
My phone's on vibrate
deixei de viver pelo oxigénio.
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
Inutilmente?
e durante a queda apercebo-me que passei a minha vida a decorar.
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