O fim
éramos tudo do pouco que tinhamos.
éramos o amor
e o sorriso
da realidade.
éramo-nos sem precedentes. éramo-nos com a despreocupação de crianças.
e fechávamos as portas ao mundo, abrindo as nossas uns para os outros.
e fingiamos que nunca nos tinham ensinado
e corriamos de mãos dadas pel'
as ruas que não eram caminhos
mas destinos para
a necessidade da presença.
éramos três a negar a memória pelo momentâneo
somos três a negar a memória pelo momentâneo
porque somos crianças que fingem que nunca foram ensinadas
e fecham as portas ao mundo, fazendo com que
o sorriso da realidade
seja a abertura das suas portas
a outros iguais
que se sujeitem à sincronização
do som dos seus passos.
O que é o amor? #3
o teu cheiro
a tua mão
e o [som do] teu sorriso
na primeira gaveta da mesinha
onde guardo
as memórias.
Colapso
Corpo
só se sente; só te sinto. o corpo.
esquece-se a mente
abdico do racional por instantes
que por alienantes
se elevam ao pensamento,
libertando-o.
surge o som do corpo
vou sofrendo de movimentos espasmódicos
que só acalmam com
a cobertura do orgânico
pelo orgânico.
O que é o amor? #2
é o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
O que é o amor? #1

as palavras rudemente melodiosas, os cheiros imundos que já não incomodam, a liberdade de movimentos, os olhares baixos por opção, a vibração da cor e, a sociedade não-alinhada,
são o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
acerca de Franz Kafka
«Era um homem e um artista dotado de uma escrupulosa consciência que se mantinha vigilante, onde os outros, os surdos, já se sentiam em segurança.»
«quando se transpõem as barreiras da intimidade, expomo-nos à critica, à piedade e à inveja (...); escancarámos as portas aos mal-entendidos. Já não dominamos as relações com os outros, deixamos de poder modelá-las, somos, pelo contrário, modelados por elas.»
Dupla perspectiva
enquanto a ânsia lhe perfurava os olhos por não encontrar outras mãos sem ser as suas.
O homem feito de palavras e de sons
com o corpo.
Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.
D is for desire
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)
My phone's on vibrate
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
Inutilmente?
e durante a queda apercebo-me que passei a minha vida a decorar.
Cíclico
Manuscrito
Lisboa
a todos os fracos de espírito
como eu.
cegasse para que pudesse ver a monstruosidade
que é
a cidade
dos muitos.
Sons acres caem em cima dos que passam
atarefados
por aqui
por eles
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.
mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.
(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem
acerca de uma falsa apoteose
da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
apaga-se a razão
de sentir cada partícula de ti
a reagir com o meu sistema nervoso central,
é viver.
Erfahrunglos
mas volto.
sempre. que quiseres.
Na ponta da ponta da ponta das pontas dos dedos
O fechar dos olhos e o mundo das imagens torpes à distância de um esticar de mão. Esse reflexo do toque, que acaba por ser a mais ínfima demonstração da ânsia de manipular, é a base do pestanejar dia após dia. Mas à distância de um esticar de mão está o maior tempo do mundo. E morremos quando parece que já sentimos a sua leve textura na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos. E connosco, morre a esperança- já feita de pedaços de carne morta-
da posse.
ii
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto espera de um teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prece.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prensa.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto pandemia.
iii
Na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos, somente a deriva e a sinceridade: Sintamo-nos finalmente (e) livremente nós.
Paixão
E de repente o cheiro do seu cabelo é tudo.
E de repente a ânsia do seu toque é a perda de visão periférica.
E de repente a asfixia.
E de repente o cheiro esvai-se.
E de repente a fúria foge.
E de repente não é mais que o seu nome.
E de repente o até amanhã é a palavra que nunca será ouvida.
Tristeza
Poder
Meu amigo
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.
meu amigo
a menina que gostava de pular pelas páginas
e
g
rau___
_
_
_
até alcançar o ponto final,
não vivo.
fecho os olhos. voo.
angustio.
volto.
sigo.
não me perdoo.
Recompensa
Nunca eu aprendi a desenhar bem,
nem ele agarrou o vento do meu toque.
Mas sorrimos
dentro do olhar um do outro.
Insensibilidade

Não gosto
Tudo,
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.
Assimetria
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.
Confissão

Mas sempre fui assim nas palavras e pensamento
raciocino
ordeno
da minha forma.
Daquela
que poucos
conseguem entender.
Queda
Nem tudo tem solução:
nem a inércia
nem o medo de dela fugir.
E eu,
que me esgueiro pelas portas e me arrasto pelas dunas na noite
tenho os dois.
Voltas a aborrecer-te. Voltas a acomodar-te.
Choras. Ficas contente.
Gritas. Acalmas os ânimos.
Irritas-te. Contas até dez e inspiras.
Perdes o juízo. Sais para refrescar a mente.
Excedes-te. Toleras.
Engoles a democracia e és irredutível. Esqueces-te.
Mandas alguém à merda. Pedes desculpa.
Cerras os punhos. Levantas-te e segues.
Tic Tac
Tic Tac sem parar.
Perda, prisão, afição, ferrugem.
dois.
Tento acalmar as vozes cá dentro; mas só se faz silêncio quando a minha boca deixa fugir, nem que seja aos solavancos, um jorro de verdade.
um.
Deixei de perceber o que é esta coisa a que chamam viver;
E por causa desses que o dizem saber,
estou só.
Máscara

Os valores constrangem,

Seres-padrão
imperfurável
não permite que se viva
no sonho
e não adianta
mascararmo-nos
de tolerantes ou conformados,
ou ainda de felizes
por termos um amor
de mão ou de bolso.
Porque somos átomos esborratados pelos pensamentos
uns
dos outros.

life at the next stop

Os motores pulsam lentamente pelas estradas de sangue nas noites de sono, assim que os corpos se deleitam nos lençóis alvos e sós. A eles, os cérebros mirrados lambem, deglutem o desejo de enganar os inconscientes, dando-lhes a sensação do sonho, do irreal, daquilo que nunca terão coragem de fazer. A eles, moem as memórias com monstros e situações recorrentes que lhes causam pavor. A eles, rasgam a carne com as agulhas das injecções de adrenalina pelo corpo dormente e (se julga) adormecido. A eles, os pesadelos mostram a horrível realidade, em contraste aos momentos felizes.
Amanhece.
Os motores voltam ao ritmo diurno e o esfregar os olhos acompanha um sentimento de segurança, de serem seres inatingíveis pelos sonhos e memórias facilmente ultrapassáveis. Sentem-se realmente acordados, bem como capazes de comprar uma passagem para o paraíso no quiosque mais próximo.
A eles, o sonho traz mais vida que a própria. A eles, os cérebros tentam dizer que memória é mais que quatro paredes e um gás esguio que lhes entra pelo nariz e lhes sai pela boca. A eles, foi incutido um padrão demasiado rígido capaz de tornar a busca da felicidade inconsequente.
(Fotografia de Paulo Ribeiro, com agradecimentos)
Bloqueio
[estímulos invisíveis que o meu corpo transporta ao cérebro]
afogo-as com lágrimas invisíveis;
[o retorno]
estou dormente dos pensamentos
[tudo parece mecânico]
não me consigo solver em palavras.
Pai,
Desliza pelo meu corpo uma lâmina que me corte o corpo à profundidade da alma; faz-me ver que preciso de um rumo, que o tenho de encontrar em vez de me rotinizar. Mostra-me que sou capaz de ser, de te ser, de ser o mundo que sempre quis dominar a brincar.Puxa-me pelas orelhas como às crianças e diz-me o que deva fazer,ensina-me a pescar. Dá-me liberdade de criar, injecta-me nas veias esse néctar a que chamam de talento, de génio. Faz-me ser grande, faz com que ensinem às crianças aquilo que uma vez eu disse ou escrevi, faz-me inventar algo nesta imensidão de gente que vive a morrer.
Porque sem isso, Pai, nunca saberei rir.
Silêncio
com um coração enrugado e imune aos pedaços de droga dos médicos.
Dizem que arranha, berra, grita, de dor
em ter a doença num corpo que resistiu aos recortes da alma
em jeito de suicídio.
os velhos dizem que ele tem cancro do amor, doença da alma
os médicos matam-no aos poucos com destilações para a loucura.
todos falam daquele que um dia vagueava nas ruas a gritar por ajuda.
todos
todos falam
todos falam sem calar
todos falam sem calar as bocas cheias
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos nas noites de sexo forçado
sem amor.
porque só falam
todos
só
todos falam
só falam
e não ouvem.
Eu, eu.
Crio mil e um pretextos para escrever matematismos. Procuro teorias e teses políticas, estudo-as, nego-as. Torno-me um ser ruminante do conhecimento, enquanto o mostro com toda a pompa. Sou cientista quando vejo que não há saida quando não o sou, pois crio sempre patamares altos ao ponto de me superar. E quando me supero sinto-me o ser mais alto de todo o planeta, forte e capaz de desafiar as gravidades da existência. Dá-se início à época de cedência às princesices. Deixo de me achar mesquinha, bem como aos sentidos. Deixo-me ir pelas surpresas, e acredito que são a verdade mais cristalina. Pois se me supero cá dentro, conseguirei superar-me à vista do outro, e sentir sem medo.
Eu, princesa
É tão bom saltar ao som da música que mais gosto e que melhor me faz sentir. Melhor ainda quando choro sem razão, culpando a parte fria de mim. E danço valsas em pensamentos fugazes que me trazem recordações de amores antigos, que torturam os actuais. Iludo-me como um palhaço velho que ainda pensa causar gargalhadas. Até que de noite tremo de medo do mundo, e escrevo sem raiva. Nessa minha loucura nunca peço um mundo melhor, apenas um melhoramento de mim. Por acabo sempre por pensar que sinto, e que tenho sucesso no que faço. Mas não. Caio em devaneios sem fundamento e em sinestesias a que os meus sentidos acabam por corresponder. E aí passo a negar-me:
- Sentimentalóide, sentimentalona.
Eu, ciumenta
Imagino-te e vomito todas as palavras ~onas, ~óides. Pego na faca mais afiada e fina que vejo; degladio-me com as tuas entranhas até que o sangue me dê prazer. É inveja. É dor de não poder estar à tua altura. É ciume doentio a tal ponto que salivo de raiva quando te leio. E tu és daqueles tipinho de gentinha pelo qual eu dava a minha carne: como eu, como nós, podre. Mal de mim ver-te como alguém adversário, mas não me abstraio da tua ruindade deliciosa. Derretes o meu coraçãozinho com um olhar teu, mesmo que falso e nojento. É triste. É vão, sentir ciúmes dos próprios sentidos, de mim mesma. Mas sinto.
Compasso
A vida seria bem mais divertida se a nossa estrada fosse um palco, e o barulho dos carros a banda sonora de um musical.
Marasmo emocional, épocas de
face a todo este ódio que se produz.
porque ainda se condena moralmente,
quando nas ruas passeiam esponjas absorvidas no seu próprio ego.
porque ínfima é a consciência de que somos nós os assassinos do elixir da vida eterna;
a cada dia deixamo-nos morrer um pouco.
porque somos (im)perfeitos.
Ultimato
dá-se na pe-ne-[tra(c)-ção] da falsidade
em todas as es[feras] da vida.
Depois,
há aqueles que se deixam escorregar pelos gritos até sentirem o chão Já frio do pranto.
Segunda leitura: A liberdade acontece quando os medos se vão e o ser humano age sem precedência condicionantes, quando há força e inteligência para o conseguir. Aqueles que se deixam enterrar pelas próprias dores, perdem o rastilho de esperança, e mergulham no medo e na mentira.
Suma: Existirá uma relação antitética entre criação e plenitude; o Homem é livre quando perde os medos, mas só cria quando esconde, quando se abstrai da pluralidade a que é submetido. A pergunta põe-se na possível conjugação da Criação e Liberdade, ou seja, se o ser humano poderá coexistir com o fingimento, sem possuir o medo.]
(editado)
Depois da Meia Noite
(Ininterruptamente, continuo.)
Vergonha
Não.
Vergonha do Medo?
Sim.
Acabas de nascer e és repleto de vergonhas. Cresces e acabas por ser vergonhoso.
Não.
Escrever a Vergonha?
Difícil.
Envergonhar Palavras?
Mais simples, elas são voláteis.
Vergonha de Perguntas?
Sempre.
Medo de Perguntas?
Só se tiver vergonha.
Das minhas?
Até das minhas.
Cura II
Nesta visão de fora que me constrói, crio finalmente uma ideia real do que transpareço. Mas (re)reflectir-me na retina recria também uma nova alteração no que pareço. O processo é anulado, falha-se a tentativa de ter uma visão fugaz e isenta desde eu que ando a tentar descobrir( e talvez gostar): o meu corpo insiste em ser-me, em aperceber-se de que eu o observo. E aí, baixo a cabeça e abstraio-me, até voltar a reconhecer a minha voz.
Cura
[A beleza]
Sente a vida a correr nas veias, sente o coração que pulsa a tua mente.
[A indissociabilidade]
Despe-te no meio da multidão envergonhada e ofende-te aos gritos.
[A diferença]
Imuniza-te ao pudor que tens de ti mesma.
[O crescimento]
Olha o teu corpo como uma continuação importante de ti , de mim e do mundo.
[Os pensamentos]
Vejamos o nosso reflexo com um sorriso.
[O processo]
Dança hoje e amanhã, até que nos doam os músculos de tanta grandiosidade.
[A sinestesia]
Não cries a dependência como se fossem partes diversas e separadas de ti.
[O sangue]
Tira o problema dos problemas e dos conceitos, dos problemas dos conceitos e do conceito de problema.
[A liberdade]
Sejamos plenos dentro dos nossos corpos.
[A fusão]
Sintamo-nos finalmente nós.
[A felicidade]
Oscilações
às vezes queria ter mais tempo para mim;
às vezes queria ter talento;
às vezes queria gostar menos de mim;
às vezes gostava de ser mais séria;
às vezes gostava de parar o tempo;
às vezes gostava de me conhecer;
às vezes gostava de não saber escrever;
às vezes queria acreditar em Deus;
às vezes preferia saber mais;
às vezes sonho em voar;
às vezes quero ler durante horas a fio sem comer sequer;
às vezes quero afogar-me com a minha própria ansiedade;
às vezes gostava de me chamar pelo nome;
às vezes preferia ver-me do lado de fora.
Às vezes perco-me em desejos diletantes,
outras vezes reduzo-me ao que de maravilhoso tenho.
Curta-metragem
Rebanho
Acessório de Refletância de Ângulo Raso




Quisera que chegasse
Ainda te lembras do que sentiste?
Consegues trespassar para a medíocre invenção da escrita o que pensaste e guardaste?
Nem eu.
Auto-hetero-auto Retrato
Face rosa de desamor, olhar azul de mar.
Águas revoltas, passado presente, amor latente.
Tu.
Lábios doces de delícia, braços e mãos rasgados em carícia.
Brincadeiras inocentes, precedências inerentes.
Amor puro, amor verdadeiro, amor teu.
Tu, eu.
Corpos aquecidos pela paixão e pela injustiça.
Um leque de confidências, uma mão cheia de incoerências.
Eu, tu.
Olhares cegos de visão e de razão.
Paixão permanente, coração latejante, pensamento vadio- e por isso vazio.
Nós.
Uma criança carinhosa, um pomar colorido.
Um cacho de saudade, cujos bagos são saboreados em momentos escassos( e deliciosos).
Vice-versa
E se o meu batom fosse verde, a minha caneta de sublinhar azul, a minha pele opaca, a minha altura 1.80 m, as minhas unhas bonitas e cuidadas, e meu sangue fosse azul?
- Se o fosses, pensarias o inverso.
Pausa
Parabéns ao meu manusco :D
Aweeee
Ao Krip, do Caneta sem Tinta
G*, meu querido amigo imaginário. Ainda te lembras quando passámos horas a dizer mal do mundo? Foram poucas, comparadas com as que ganhámos em apontar defeitos um ao outro. Tornámo-nos em dois animais desenhados por crianças, rolámos na relva, insultámo-nos, fingimos, amámos como quem ama uma borboleta que nos atravessa o caminho na cidade. Fizeste as malas, mas não quero que partas (ainda).
Lembra-te que me deves o Omnia Mutantur em papel.
Lembra-te dos 'foolish games'.
Lembra-te de tudo o que fingimos lembrar-mo-nos.
Lembra-te que deixámos de ser crianças.
Lembra-te do nosso filme preferido.
Lembra-te de teres andado com o meu saco um dia inteiro.
Lembra-te de teres lido "A Aparição".
Lembra-te das perguntas e das não-respostas.
Lembra-te da "fotologoesfera".
Lembra-te que temos uma fotografia juntos.
Lembra-te que conheci quem me roubou o coração através de ti.
Lembra-te da minha insistência no número 9.
Lembra-te do presente que me deste.
Lembra-te de Lilith.
Lembra-te das coisas sem sentido.
Lembra-te que me contrariaste milhões de vezes até nos conhecermos.
Lembra-te que sabemos o nome completo e data de nascimento um do outro.
Lembra-te que tinhas razão.
Lembra-te de momentos e memórias.
Lembra-te de coisas que ainda não sabes.
Lembra-te da importância das tuas palavras para mim, para o mundo.
Mas não me lembres, parte.
Ab irato
e não me sei rir deles, como as crianças.
Aconchego-me no teu corpo e peço protecção, como as crianças.
Evito chorar com medo de piorar, como fazia em criança.
Mas cresci, como as crianças.
E ainda rebolo na cama sem sono,
mas já não chamo pela mãe.
Já tenho mais anos-luz que dedos nas mãos,
sei escrever há tempo de mais para me lembrar de quando aprendi.
(como gostava me recordar de tentar pegar num lápis com o desajeito que me é intrínseco)
O cabelo escureceu,
tornei-me num pseudo-camaleão armado em poeta.
Já me sinto responsável - e já me doem as costas por isso.
Confissão
Nado não vivo
Verdes, podres.
Tuas.
Envergonhas o chão que pisas,
mostras-te o que não és.
Metes nojo aos transeuntes,
enojas-te a ti próprio.
És mendigo de ti mesmo,
és um pedinte de nenhures.
E carregas a ingenuidade tórrida de um corpo asqueroso
que oferece náuseas ao mais rico homem.
E gritas que és sem o ser,
mas na verdade nunca foste,
nem sequer na ultima garrafa de vinho barato que deglutiste,
e muito menos nalgum olhar que ofereceste.
Consola-te pobre cego, que mesmo a ver não deixas de o ser.
Embriaga-te em sonhos e ilusões,
veste roupas largas e goza com anões,
vive na vontade de morrer!
Mas na tua lúcubre visita à terra,
o escuro alcatrão que calcaste
não passa de uma farsa de que te apropriaste.
Convence-te pobre porco,
que quem te julga com tamanho nojo como eu,
nunca será tão odiado como és!
Nesse teu ínfimo mundo azul,
ao qual olhas com prazer...
sem nunca teres chegado a nascer.
T Dois
Rapto
A viagem ainda não tinha terminado. O corpo de alguns pedia néctar, mas eu preferi contemplar a pré-histórica roda enquadrada num desenvolvimento avassalador, cortado aos poucos pelo vento que apenas eu conseguia ver.
Deixei-me adormecer no aconchego de um amigo-revelação. E apesar de ter sido o seu ferveroso cheiro a adormecer-me, a minha mente estimulava-se com o perfume de outro - a quem eu realmente pertenço. E não há nada mais atordoante que adormecer na velocidade do tempo, com o perigo à espreita em qualquer faixa de rodagem contrária ao nosso caminho, mas nada mais agradável que acordar com uma voz sorridente, envolta num regresso a casa.
Penetro a chave minha fechadura, retiro o diário da minha gaveta, recolho-me, penso em ti por segundos. Apago-me por breves horas.
(Apenas lamento o facto de a minha tosca transcrição de emoções ser cega. Contudo, é agradável saber que nem tudo o que se vive pode ser intelectuado.)
De(In)dicado
De todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.
[Pedro Abrunhosa -Como uma ilha]
Injustiça
Talvez porque a felicidade faz o tempo correr.
Eternidade espontânea
Escrever no escuro, mesmo que sejam traços sem sentido.
Manter o pensamento acordado, mesmo que os olhos não o peçam.
Encontrar truques para a má memória do mundo, mesmo sabendo que há coisas que se esquecem.
Alimentar uma escrita feroz para próprio gozo, sabendo que ninguém a vai ler.
Ver uma cidade dormente, e pensar apenas numa pessoa.
Sentir a alma cheia, quando à tua volta apenas existe o vazio de cores que nunca tu construiste.
Deixar a velocidade nos trespassar o corpo, contrariando o tempo que nos apodrece.
Esboçar um sorriso por estarmos vivos, enquanto todos à nossa volta são abatidos um por um.
Jogar mal por falta de jeito, e rir por derrota da forma mais verdadeira.
Notar que alguém nos nota, mesmo que seja por uma segundo efémero.
Sentir que do outro lado do rio está alguém que nos cuida, mesmo que a saudade aperte.
Ingerir alimentos pouco saudáveis a meio da noite, só pelo gozo da companhia.
Lançar sorrisos irónicos falsos, esconder uns verdadeiros.
Jogar um pouco na mente durante o dia, esquecer tudo na noite.
Enfrentar a noite num rasco de vontade, mesmo com medo de tonturas.
Ter a roupa cravada de cheiro dos bares, sabendo que os nossos pulmões não se lavam na máquina.
Lançar uma palavra de aconchego a uma mente ainda irracional.
Rir ao acaso.
Momento
Passaram dez anos desde que não tenho por cima da minha cama uma casinha com dois ursos, um grande, outro pequeno. Os dois vinham à janela alternadamente ao som de uma melodia que me sempre foi familiar. Não era um som de uma comum caixa de música, mas algo mais secreto, que transmitia segredos à minha imaculada mente, assim como afastava os fantasmas toscos dos meus sonhos irreais. Era especial, porque o urso pequeno sempre me fazia ficar triste. Era pequeno, era insignificante, era eu enquanto respirava numa casa de adultos, sentindo que eu era tosca. Por isso, nunca abraçava, nunca dizia que gostava de alguém. Era rude, para que me conseguisse sentir o urso maior, mais sedutor, sem aquele choro de anjo.
141
Adormecer com as tuas festas
Chorar no teu ombro quando me apetecer...
Eu aconchegar-te com ternura e carinho
limpar as tuas lágrimas e sussurrar ao teu ouvido aquilo q precisas de ouvir no momento
aproveitar um abrir de olhos nocturno teu, para roubar um beijinho e voltar a aconchegar-nos
gosto de ti
pelo que és
pelo que me fazes ser.
(sem que eu o peça)
foto de R*
Crime
Larga-se o ser mudo numa qualquer esquina. Aprende a falar num instante.
Luta para que não lhe doa a partida de que não toma sentido.
E ingénuo espera que o busquem.
E ingénuo espera na esquina que o crime o abrace.
E não sabe que o cordão umbilical lhe foi cortado.
E aprende a falar.
Um ser que nunca falou o mesmo dialecto.
E grita.
Por fim, grita.
por mylostwords
Duo em uníssono
significa: o que protége
Gaguejo por entre os teUs suspiros aInda entrelaçados nas tuas palavras. Lança-as mar, queremo-las quando chegarem a Hipérboles na margem, mesmo que inúteis, mesmo que as absorvamos como antes. Estórias de encantar, barafundas de falsas emoções - são tuas sem o ser. Remata a tua existência com conselhos inúteis (como este), que tanto gostas de dizer que não gostas. Mais que seres o que és, não és o que dizes ser, muito menos o que te contradizes na tentativa de o fazer. Não és, meio do que dizes gostar, claramentE.
(dedicado)
O cheiro não cadastrável
És sem o ser.
Deixas de o ser quando não peço.
Interpretas-me.
A tua voz, o teu carinho não é mais que uma efémera amostra.
Do que sinto quando te sinto, nada é explicável.
Amor? Que seja, que sejas. Gosto.
De ti, de mim.
(pausa)
(parágrafo sem o ser.)










