as palavras falham
só se sente; só te sinto. o corpo.
esquece-se a mente
abdico do racional por instantes
que por alienantes
se elevam ao pensamento,
libertando-o.
surge o som do corpo
vou sofrendo de movimentos espasmódicos
que só acalmam com
a cobertura do orgânico
pelo orgânico.
O que é o amor? #2
Partilhar o que ainda não se tem.
é o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
é o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
O que é o amor? #1
#1- sensorial

as palavras rudemente melodiosas, os cheiros imundos que já não incomodam, a liberdade de movimentos, os olhares baixos por opção, a vibração da cor e, a sociedade não-alinhada,
são o amor.
Nota: todos os textos desta série são dedicados a Paulo Ferreira e Margarida Ponte.
acerca de Franz Kafka
«É verdade que aparentemente todos somos capazes de viver, porque a partir de certo momento nos refugiamos na mentira, na cegueira, no entusiasmo, no optimismo, numa convicção, no pessimismo, ou em qualquer oura coisa. Mas ele não tem em que se refugiar. É absolutamente incapaz de mentir, como de se embriagar. Não tem o mais pequeno refúgio, o mais pequeno abrigo. Por isso está exposto a tudo aquilo de que nós nos protegemos. É como um homem nu entre as pessoas vestidas.»
«Era um homem e um artista dotado de uma escrupulosa consciência que se mantinha vigilante, onde os outros, os surdos, já se sentiam em segurança.»
«quando se transpõem as barreiras da intimidade, expomo-nos à critica, à piedade e à inveja (...); escancarámos as portas aos mal-entendidos. Já não dominamos as relações com os outros, deixamos de poder modelá-las, somos, pelo contrário, modelados por elas.»
Max Brod
«Era um homem e um artista dotado de uma escrupulosa consciência que se mantinha vigilante, onde os outros, os surdos, já se sentiam em segurança.»
Milena Jesenka
«quando se transpõem as barreiras da intimidade, expomo-nos à critica, à piedade e à inveja (...); escancarámos as portas aos mal-entendidos. Já não dominamos as relações com os outros, deixamos de poder modelá-las, somos, pelo contrário, modelados por elas.»
Milena Jesenka
Milena|Margarete Buber-Neumann| 1977
Dupla perspectiva
as mãos acolhiam-lhe as próprias lágrimas,
enquanto a ânsia lhe perfurava os olhos por não encontrar outras mãos sem ser as suas.
enquanto a ânsia lhe perfurava os olhos por não encontrar outras mãos sem ser as suas.
O homem feito de palavras e de sons
O piano a gritar-lhe pela voz
mas ele respondia sempre
com o corpo.
Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.
com o corpo.
Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.
D is for desire
- Alguma vez leste Lunário, de Al Berto? Lembras a sujidade dos corpos? Os sabores estranhos transmitidos pelas línguas entrelaçadas nas bermas? O intenso cheiro a luxúria nos dedos indicador e médio? A perversidade inocente, aos olhos dos que se arranhavam em locais públicos, com um falso cultivo da inconsequência?
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)
My phone's on vibrate
deixei de viver pelo oxigénio.
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
Inutilmente?
e durante a queda apercebo-me que passei a minha vida a decorar.
Cíclico
Gosto demasiado de escrever para ler o que escrevo. Escrevo porque leio mal, e se acabasse por caír no erro de me ler, leria mal o que havia escrito. E aí, escrever o que quer que fosse acabaria por perder aquele sentido de inutilidade e inconsequência que gosto de manter. E deixar de gostar do que escrevo seria um suicídio de cada letra minha. Aí, deitaria ao vento cada expressão que me ocupou cada caneta, bem como ao lixo cada caneta que acabaria por perder o lugar nos instrumentos para alcançar aquilo que gosto. e eu gosto de gostar. De pessoas, de palavras, de sons, de pedras. Mais de pessoas que de pedras, mas não mais de sons que de palavras. Porque as palavras dos mudos não podem ser lidas da mesma forma que as audíveis. Mesmo que pudessem soar na minha cabeça, continuariam mudas pois a minha surdez elimina-las-ia. Porque só consigo ouvir aquilo que quero ouvir, mesmo que na minha cabeça. Porque só ouço os sons que gosto, e por isso gosto de sons. Da mesma maneira que gosto de palavras. Porque só leio aquilo que gosto de ler. E por isso leio mal. E por isso escrevo.
Manuscrito
Lisboa
pudesse eu pôr uma venda vermelha
a todos os fracos de espírito
como eu.
cegasse para que pudesse ver a monstruosidade
que é
a cidade
dos muitos.
Sons acres caem em cima dos que passam
atarefados
por aqui
por eles
a todos os fracos de espírito
como eu.
cegasse para que pudesse ver a monstruosidade
que é
a cidade
dos muitos.
Sons acres caem em cima dos que passam
atarefados
por aqui
por ali
por eles
por ti.
Sem nunca compreenderem que à noite há Noite.
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.
mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.
(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem
acerca de uma falsa apoteose
da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.
mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.
(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem
acerca de uma falsa apoteose
da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
esmagados, uns contra os outros.
atropelam-se na pressa
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.
as paredes ganham a espessura da luz, e perdem a vergonha.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
ingénua mas feliz.
apaga-se a razão
o prazer
de sentir cada partícula de ti
a reagir com o meu sistema nervoso central,
é viver.
de sentir cada partícula de ti
a reagir com o meu sistema nervoso central,
é viver.
Erfahrunglos
procuras-me. vou. sigo-te. olho para dentro e prometo que não o volto a fazer.
mas volto.
sempre. que quiseres.
mas volto.
sempre. que quiseres.
Na ponta da ponta da ponta das pontas dos dedos
i
O fechar dos olhos e o mundo das imagens torpes à distância de um esticar de mão. Esse reflexo do toque, que acaba por ser a mais ínfima demonstração da ânsia de manipular, é a base do pestanejar dia após dia. Mas à distância de um esticar de mão está o maior tempo do mundo. E morremos quando parece que já sentimos a sua leve textura na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos. E connosco, morre a esperança- já feita de pedaços de carne morta-
da posse.
ii
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto espera de um teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prece.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prensa.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto pandemia.
iii
Na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos, somente a deriva e a sinceridade: Sintamo-nos finalmente (e) livremente nós.
O fechar dos olhos e o mundo das imagens torpes à distância de um esticar de mão. Esse reflexo do toque, que acaba por ser a mais ínfima demonstração da ânsia de manipular, é a base do pestanejar dia após dia. Mas à distância de um esticar de mão está o maior tempo do mundo. E morremos quando parece que já sentimos a sua leve textura na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos. E connosco, morre a esperança- já feita de pedaços de carne morta-
da posse.
ii
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto espera de um teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prece.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prensa.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto pandemia.
iii
Na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos, somente a deriva e a sinceridade: Sintamo-nos finalmente (e) livremente nós.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
