- Silêncio!


E abraçou o seu próprio corpo apenas para se sentir.


A ânsia




é uma página branca
cheia

de palavras cheias
de branco.




O homem feito de palavras e de sons


O piano a gritar-lhe pela voz
mas ele respondia sempre
com o corpo.

Encostava cada costela de si à sua carne
a mão esquerda tomara-lhe o cotovelo direito,
a mão direita tomara-lhe a face
e com a beleza desfiada, ouvia.

D is for desire

- Alguma vez leste Lunário, de Al Berto? Lembras a sujidade dos corpos? Os sabores estranhos transmitidos pelas línguas entrelaçadas nas bermas? O intenso cheiro a luxúria nos dedos indicador e médio? A perversidade inocente, aos olhos dos que se arranhavam em locais públicos, com um falso cultivo da inconsequência?
- Não.
- Claro. -sempre gostei dos ingénuos- E és desejável por isso.
- gemido)
- sexo)
- sexo)
- sexo)
- gargalhada)
- grito)
- gargalhada)
- sexo)
- cheiro)
- beijos)
- sexo)
- toque)
- cabelo)
- luz)
- vontade)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- desculpa)
- adeus)
- quero)
- adeus)
- quero quero quero quero quero)
- ausência)
- quero; ainda; te)

My phone's on vibrate

deixei de viver pelo oxigénio.
e enquanto o ambiente entusiasta nos gritava aos ouvidos
entrelaçaste os dedos sem amanhã
e eu fingi
que nunca mais me iria lembrar de ti.
Esqueceu-se de pensar. descobriu a verdadeira beleza.

Inutilmente?

while I was falling, think i've passed my life memorizing.

und wenn ich falle, merke dass mein Leben zu ? verbringen habe.

et quand je tombe, pense qui j'ai passer ma Vie ?

e quando cado penso chi sono passata la mia Vita a decorare.

e durante a queda apercebo-me que passei a minha vida a decorar.

Cíclico

Gosto demasiado de escrever para ler o que escrevo. Escrevo porque leio mal, e se acabasse por caír no erro de me ler, leria mal o que havia escrito. E aí, escrever o que quer que fosse acabaria por perder aquele sentido de inutilidade e inconsequência que gosto de manter. E deixar de gostar do que escrevo seria um suicídio de cada letra minha. Aí, deitaria ao vento cada expressão que me ocupou cada caneta, bem como ao lixo cada caneta que acabaria por perder o lugar nos instrumentos para alcançar aquilo que gosto. e eu gosto de gostar. De pessoas, de palavras, de sons, de pedras. Mais de pessoas que de pedras, mas não mais de sons que de palavras. Porque as palavras dos mudos não podem ser lidas da mesma forma que as audíveis. Mesmo que pudessem soar na minha cabeça, continuariam mudas pois a minha surdez elimina-las-ia. Porque só consigo ouvir aquilo que quero ouvir, mesmo que na minha cabeça. Porque só ouço os sons que gosto, e por isso gosto de sons. Da mesma maneira que gosto de palavras. Porque só leio aquilo que gosto de ler. E por isso leio mal. E por isso escrevo.

Manuscrito
Não me cumprimentem com sorrisos nem acenos. Quero aplausos.

Lisboa

pudesse eu pôr uma venda vermelha
a todos os fracos de espírito

como eu.

cegasse para que pudesse ver a monstruosidade

que é

a cidade

dos muitos.


Sons acres caem em cima dos que passam

atarefados

por aqui

por ali

por eles

por ti.

Sem nunca compreenderem que à noite há Noite.
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.

mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.

(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem

acerca de uma falsa apoteose

da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
esmagados, uns contra os outros.
atropelam-se na pressa
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.

as paredes ganham a espessura da luz, e perdem a vergonha.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
ingénua mas feliz.

apaga-se a razão

o prazer
de sentir cada partícula de ti
a reagir com o meu sistema nervoso central,
é viver.

Erfahrunglos

procuras-me. vou. sigo-te. olho para dentro e prometo que não o volto a fazer.

mas volto.

sempre. que quiseres.

Na ponta da ponta da ponta das pontas dos dedos

i
O fechar dos olhos e o mundo das imagens torpes à distância de um esticar de mão. Esse reflexo do toque, que acaba por ser a mais ínfima demonstração da ânsia de manipular, é a base do pestanejar dia após dia. Mas à distância de um esticar de mão está o maior tempo do mundo. E morremos quando parece que já sentimos a sua leve textura na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos. E connosco, morre a esperança- já feita de pedaços de carne morta-
da posse.

ii
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto espera de um teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prece.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prensa.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto pandemia.

iii
Na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos, somente a deriva e a sinceridade: Sintamo-nos finalmente (e) livremente nós.

Flipé

Chafurda na própria imundície intelectual e esquece-se da peste
habituando-se.



Paixão

E de repente um olá devagar é a palavra com mais sentido que alguma vez ouvimos.

E de repente o cheiro do seu cabelo é tudo.

E de repente a ânsia do seu toque é a perda de visão periférica.

E de repente a asfixia.

E de repente o cheiro esvai-se.

E de repente a fúria foge.

E de repente não é mais que o seu nome.

E de repente o até amanhã é a palavra que nunca será ouvida.

Fim

o mais doloroso não é o fim. mas o antes e o depois.

Tristeza

tenho a tristeza sentada ao meu lado. não daquela que chama a atenção dos outros. não daquela egoísta. mas daquela que nos tiram o chão, os braços e as pernas. as pernas, o chão e a boca. as palavras, a língua e os braços. uma perna e outra perna. a língua cortada com uma tesoura pequena, aos poucos e às postas. a boca agrafada ao nariz e ao peito. os lábios repuxados com laivos de sangue seco. as palavras impossíveis sem os braços sem mãos e sem cotovelos. sem uma caneta na ponta dos dedos. as pernas traçadas uma soubre a outra. na tua frente. descoladas do corpo onde sempre permaneceram. com lascas de carne já seca pelo tempo que não passou. e tudo o que pensas, é impossível. sem chorar e mostrar a dor. até que o chão se abre. a queda. para sempre.

Poder

porque se gastam aos poucos, gostava de saber o nome de todos aqueles com quem troquei palavras, para que deixassem de ser sombras na minha memória, e os pudesse escrever. e uma palavra é um infinito. e o i_n_f_i_n_i_t_o é tudo o que está dentro das pessoas.

Meu amigo

o negro espesso da tua figura aperta-me os sentidos.
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.

meu amigo

a menina que gostava de pular pelas páginas

pisava aqui
descia um
d
e
g
rau___

outro... e corria_._._._._._._._._._._._._._até à outra ponta da folha,
_
_
_
até alcançar o ponto final,
e começar a escrever com o toque das folhas recente na ponta de seus dedos, e com o pó de fantasia que ficara agarrado aos seus sapatos.