Gosto demasiado de escrever para ler o que escrevo. Escrevo porque leio mal, e se acabasse por caír no erro de me ler, leria mal o que havia escrito. E aí, escrever o que quer que fosse acabaria por perder aquele sentido de inutilidade e inconsequência que gosto de manter. E deixar de gostar do que escrevo seria um suicídio de cada letra minha. Aí, deitaria ao vento cada expressão que me ocupou cada caneta, bem como ao lixo cada caneta que acabaria por perder o lugar nos instrumentos para alcançar aquilo que gosto. e eu gosto de gostar. De pessoas, de palavras, de sons, de pedras. Mais de pessoas que de pedras, mas não mais de sons que de palavras. Porque as palavras dos mudos não podem ser lidas da mesma forma que as audíveis. Mesmo que pudessem soar na minha cabeça, continuariam mudas pois a minha surdez elimina-las-ia. Porque só consigo ouvir aquilo que quero ouvir, mesmo que na minha cabeça. Porque só ouço os sons que gosto, e por isso gosto de sons. Da mesma maneira que gosto de palavras. Porque só leio aquilo que gosto de ler. E por isso leio mal. E por isso escrevo.
Manuscrito
