Lisboa

pudesse eu pôr uma venda vermelha
a todos os fracos de espírito

como eu.

cegasse para que pudesse ver a monstruosidade

que é

a cidade

dos muitos.


Sons acres caem em cima dos que passam

atarefados

por aqui

por ali

por eles

por ti.

Sem nunca compreenderem que à noite há Noite.
onde todos são vagabundos.
feridos, sedentos.
miseráveis.
que procuram em corpos alheios o cheiro
doce
do rio.
e bebem. e riem. e fingem esquecer o que ao acordar
não se esquecem de lembrar.

mas dentro das paredes, perdem-se conta às almas desistentes.
àquelas que já nem o próprio cheiro procuram
que ignoram as luzes
e até
a espessura da noite.
esses.

(por serem mais vagabundos que os que vagabundeiam)
já não riem nem bebem nem choram nem sentem.
apenas dormem
e mentem

acerca de uma falsa apoteose

da vida que levam.
e na manhã seguinte correm aos tropeções
esmagados, uns contra os outros.
atropelam-se na pressa
de deixar de ter pressa.
e poder chorar.
ou deixar de mentir.
amanhece.

as paredes ganham a espessura da luz, e perdem a vergonha.
agora, as janelas já não se escondem entre as cortinas
nem se cobrem com os véus negros
da Lisboa que agora acorda.
ingénua mas feliz.

apaga-se a razão

o prazer
de sentir cada partícula de ti
a reagir com o meu sistema nervoso central,
é viver.

Erfahrunglos

procuras-me. vou. sigo-te. olho para dentro e prometo que não o volto a fazer.

mas volto.

sempre. que quiseres.

Na ponta da ponta da ponta das pontas dos dedos

i
O fechar dos olhos e o mundo das imagens torpes à distância de um esticar de mão. Esse reflexo do toque, que acaba por ser a mais ínfima demonstração da ânsia de manipular, é a base do pestanejar dia após dia. Mas à distância de um esticar de mão está o maior tempo do mundo. E morremos quando parece que já sentimos a sua leve textura na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos. E connosco, morre a esperança- já feita de pedaços de carne morta-
da posse.

ii
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto espera de um teatro de marionetas.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prece.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto prensa.
A felicidade e tristeza impossíveis, enquanto pandemia.

iii
Na ponta da ponta da ponta da ponta dos dedos, somente a deriva e a sinceridade: Sintamo-nos finalmente (e) livremente nós.

Flipé

Chafurda na própria imundície intelectual e esquece-se da peste
habituando-se.



Paixão

E de repente um olá devagar é a palavra com mais sentido que alguma vez ouvimos.

E de repente o cheiro do seu cabelo é tudo.

E de repente a ânsia do seu toque é a perda de visão periférica.

E de repente a asfixia.

E de repente o cheiro esvai-se.

E de repente a fúria foge.

E de repente não é mais que o seu nome.

E de repente o até amanhã é a palavra que nunca será ouvida.

Fim

o mais doloroso não é o fim. mas o antes e o depois.

Tristeza

tenho a tristeza sentada ao meu lado. não daquela que chama a atenção dos outros. não daquela egoísta. mas daquela que nos tiram o chão, os braços e as pernas. as pernas, o chão e a boca. as palavras, a língua e os braços. uma perna e outra perna. a língua cortada com uma tesoura pequena, aos poucos e às postas. a boca agrafada ao nariz e ao peito. os lábios repuxados com laivos de sangue seco. as palavras impossíveis sem os braços sem mãos e sem cotovelos. sem uma caneta na ponta dos dedos. as pernas traçadas uma soubre a outra. na tua frente. descoladas do corpo onde sempre permaneceram. com lascas de carne já seca pelo tempo que não passou. e tudo o que pensas, é impossível. sem chorar e mostrar a dor. até que o chão se abre. a queda. para sempre.

Poder

porque se gastam aos poucos, gostava de saber o nome de todos aqueles com quem troquei palavras, para que deixassem de ser sombras na minha memória, e os pudesse escrever. e uma palavra é um infinito. e o i_n_f_i_n_i_t_o é tudo o que está dentro das pessoas.

Meu amigo

o negro espesso da tua figura aperta-me os sentidos.
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.

meu amigo

a menina que gostava de pular pelas páginas

pisava aqui
descia um
d
e
g
rau___

outro... e corria_._._._._._._._._._._._._._até à outra ponta da folha,
_
_
_
até alcançar o ponto final,
e começar a escrever com o toque das folhas recente na ponta de seus dedos, e com o pó de fantasia que ficara agarrado aos seus sapatos.


não vivo.

começa de novo a fúria. as pessoas correm e eu paro. sento-me na minha própria angústia e sorvo toda aquela avidez do veloz.
dói aqui. nas pontas do coração. no turbilhão. ______________________________________________.

fecho os olhos. voo.

angustio.

volto.

sigo.

não me perdoo.

Recompensa

peguei-lhe na mão e ensinou-me a desenhar, como uma troca de favores.
Nunca eu aprendi a desenhar bem,
nem ele agarrou o vento do meu toque.
Mas sorrimos
dentro do olhar um do outro.
cocegueia-me aqui e ali,
até rir
e adormecer com a tua presença.

Insensibilidade


até sentir o ardor nos rasgões de pele.
uma
e outra vez.
até amanhecer.
devagar.
e se esquecer.
do que não sentiu.

Não gosto

gosto de escrever. gosto de ver passar as palavras pelos meus olhos e entendê-las. estendê-las. gosto de ler o que se escreve e que não se pode dizer. mas não gosto das letras. porque enquanto parece que as leio, a minha memória lê as que consegui ler pela primeira vez. e cá ficaram. enraízadas aos sentimentos e às páginas. subestimadas. as palavras nunca significam a mesma coisa duas vezes. as letras soam sempre ao mesmo. se eu me lembrasse do trabalho com que cada uma foi escrita, talvez gostasse das letras. mas eu não gosto das letras. porque as sei de cor. porque as magoo quando não penso no tornear da caneta das primeiras que me ensinaram a escrever: as do meu nome. e as letras que finjo ler são as perdidas na minha memória. as mesmas que me fazem escrever por automatismo. sem valor. por isso não gosto das letras. e talvez menos ainda da memória delas.

Tudo,

desde as palavras que se embrulharam nas nossas línguas,
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.

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(música: Lamb, Five)

Assimetria

chorarmos pelos cantos por falta de algo que nem realmente nos faz falta,
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.