Fim

o mais doloroso não é o fim. mas o antes e o depois.

Tristeza

tenho a tristeza sentada ao meu lado. não daquela que chama a atenção dos outros. não daquela egoísta. mas daquela que nos tiram o chão, os braços e as pernas. as pernas, o chão e a boca. as palavras, a língua e os braços. uma perna e outra perna. a língua cortada com uma tesoura pequena, aos poucos e às postas. a boca agrafada ao nariz e ao peito. os lábios repuxados com laivos de sangue seco. as palavras impossíveis sem os braços sem mãos e sem cotovelos. sem uma caneta na ponta dos dedos. as pernas traçadas uma soubre a outra. na tua frente. descoladas do corpo onde sempre permaneceram. com lascas de carne já seca pelo tempo que não passou. e tudo o que pensas, é impossível. sem chorar e mostrar a dor. até que o chão se abre. a queda. para sempre.

Poder

porque se gastam aos poucos, gostava de saber o nome de todos aqueles com quem troquei palavras, para que deixassem de ser sombras na minha memória, e os pudesse escrever. e uma palavra é um infinito. e o i_n_f_i_n_i_t_o é tudo o que está dentro das pessoas.

Meu amigo

o negro espesso da tua figura aperta-me os sentidos.
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.

meu amigo

a menina que gostava de pular pelas páginas

pisava aqui
descia um
d
e
g
rau___

outro... e corria_._._._._._._._._._._._._._até à outra ponta da folha,
_
_
_
até alcançar o ponto final,
e começar a escrever com o toque das folhas recente na ponta de seus dedos, e com o pó de fantasia que ficara agarrado aos seus sapatos.


não vivo.

começa de novo a fúria. as pessoas correm e eu paro. sento-me na minha própria angústia e sorvo toda aquela avidez do veloz.
dói aqui. nas pontas do coração. no turbilhão. ______________________________________________.

fecho os olhos. voo.

angustio.

volto.

sigo.

não me perdoo.

Recompensa

peguei-lhe na mão e ensinou-me a desenhar, como uma troca de favores.
Nunca eu aprendi a desenhar bem,
nem ele agarrou o vento do meu toque.
Mas sorrimos
dentro do olhar um do outro.
cocegueia-me aqui e ali,
até rir
e adormecer com a tua presença.

Insensibilidade


até sentir o ardor nos rasgões de pele.
uma
e outra vez.
até amanhecer.
devagar.
e se esquecer.
do que não sentiu.

Não gosto

gosto de escrever. gosto de ver passar as palavras pelos meus olhos e entendê-las. estendê-las. gosto de ler o que se escreve e que não se pode dizer. mas não gosto das letras. porque enquanto parece que as leio, a minha memória lê as que consegui ler pela primeira vez. e cá ficaram. enraízadas aos sentimentos e às páginas. subestimadas. as palavras nunca significam a mesma coisa duas vezes. as letras soam sempre ao mesmo. se eu me lembrasse do trabalho com que cada uma foi escrita, talvez gostasse das letras. mas eu não gosto das letras. porque as sei de cor. porque as magoo quando não penso no tornear da caneta das primeiras que me ensinaram a escrever: as do meu nome. e as letras que finjo ler são as perdidas na minha memória. as mesmas que me fazem escrever por automatismo. sem valor. por isso não gosto das letras. e talvez menos ainda da memória delas.

Tudo,

desde as palavras que se embrulharam nas nossas línguas,
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.

Tropeçar


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(música: Lamb, Five)

Assimetria

chorarmos pelos cantos por falta de algo que nem realmente nos faz falta,
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.

Alter ego

todo esforço é vão,
pois toda a alma apodrece.

Confissão


Reparar que tenho de recorrer a esquemas para entender textos torna-se engraçado. Pois só depois reparo que o esquema acaba por parecer mais difícil de compreender que o próprio texto.
Mas sempre fui assim nas palavras e pensamento
raciocino
ordeno
da minha forma.
Daquela
que poucos
conseguem entender.

Nem mais uma palavra

...
enquanto não sentires realmente o que dizes.

Saturation


or even
simulation.

Queda

[O acto, o assassínio]

Nem tudo tem solução:
nem a inércia
nem o medo de dela fugir.

E eu,
que me esgueiro pelas portas e me arrasto pelas dunas na noite
tenho os dois.
...

[A consciência]
Aborreces-te. Acomodas-te.
Voltas a aborrecer-te. Voltas a acomodar-te.
Choras. Ficas contente.
Gritas. Acalmas os ânimos.
Irritas-te. Contas até dez e inspiras.
Perdes o juízo. Sais para refrescar a mente.
Excedes-te. Toleras.
Engoles a democracia e és irredutível. Esqueces-te.
Mandas alguém à merda. Pedes desculpa.
Cerras os punhos. Levantas-te e segues.

E quando quebras o ciclo por uns momentos, reparas que não és mais que uma explosão de sentidos por revelar, acomodados, reprimidos: que te mastigam o cérebro dia após dia, que te fazem fumar as pontas de vontade.

Tic Tac

Faz daqui a dois minutos mais dois minutos que cá estou sem ver a luz do sol. Já me injectei de esperança uma, duas, talvez três vezes desde que estou neste cubículo pérfido. A anestesia já não faz efeito, já não me mata, apenas mói, corrói, dói. Apenas me faz ficar aqui encostada a esta parede a olhar para aquele mosquitinho irritante a afogar-se no leite do gato. Raiva de o ver a agonizar, raiva de saber que o posso salvar e não faço porque tenho o corpo preso com linhas de coser, cozer; palavreados e composições. Merda textual que me mordisca os pensamentos.
Tic Tac sem parar.
Perda, prisão, afição, ferrugem.

C O R R O S ã o do eu.

Crime


Agendando a vida enquanto se vive.

Imperativo

porquê
para quê

berros de ordem

quando basta uma palavra meiga

dois.

um.
Tento acalmar as vozes cá dentro; mas só se faz silêncio quando a minha boca deixa fugir, nem que seja aos solavancos, um jorro de verdade.

um.
Deixei de perceber o que é esta coisa a que chamam viver;
E por causa desses que o dizem saber,
estou só.

Máscara


Corre-se pelas ruas e ama-se às esquinas com um calor desenfreado. Um vai e vem espasmódico de ancas que inunda a espessura da noite. Depois, contando as moedas proporcionais ao vazio da alma, limpam aos lenços a vergonha já agarrada à máscara , e dormem como anjos.

Os valores constrangem,


[porque enquanto correm lírios soltos pelas belas e serenas artérias do corpo; é contínua a perda de tempo com enigmas, leis e regras de conduta.]

Seres-padrão


A bolha invisível,
imperfurável
não permite que se viva
no sonho
e não adianta
mascararmo-nos
de tolerantes ou conformados,
ou ainda de felizes
por termos um amor
de mão ou de bolso.

Porque somos átomos esborratados pelos pensamentos
uns
dos outros.


life at the next stop



Os motores pulsam lentamente pelas estradas de sangue nas noites de sono, assim que os corpos se deleitam nos lençóis alvos e sós. A eles, os cérebros mirrados lambem, deglutem o desejo de enganar os inconscientes, dando-lhes a sensação do sonho, do irreal, daquilo que nunca terão coragem de fazer. A eles, moem as memórias com monstros e situações recorrentes que lhes causam pavor. A eles, rasgam a carne com as agulhas das injecções de adrenalina pelo corpo dormente e (se julga) adormecido. A eles, os pesadelos mostram a horrível realidade, em contraste aos momentos felizes.
Amanhece.
Os motores voltam ao ritmo diurno e o esfregar os olhos acompanha um sentimento de segurança, de serem seres inatingíveis pelos sonhos e memórias facilmente ultrapassáveis. Sentem-se realmente acordados, bem como capazes de comprar uma passagem para o paraíso no quiosque mais próximo.
A eles, o sonho traz mais vida que a própria. A eles, os cérebros tentam dizer que memória é mais que quatro paredes e um gás esguio que lhes entra pelo nariz e lhes sai pela boca. A eles, foi incutido um padrão demasiado rígido capaz de tornar a busca da felicidade inconsequente.

(Fotografia de Paulo Ribeiro, com agradecimentos)

Loop

O futuro é passivel de ser previsível quando se é escritor;
o suspiro da surpresa é contido e dá-se conta
das constantes anáforas da vida.


(foto de Paulo Alegria)

The sparkling diamond


Bicolor, bífido, hibrido; falso?

Bloqueio

Roço os dedos pelas teclas
[estímulos invisíveis que o meu corpo transporta ao cérebro]
afogo-as com lágrimas invisíveis;
[o retorno]
estou dormente dos pensamentos
[tudo parece mecânico]
não me consigo solver em palavras.

Solto

Mau não é ser mau, mas ser nulo.

Pai,

pega-me pelo braço como quem castiga uma criança, diz que nunca fui aquilo que querias, diz que me tornei uma aberração.E tudo por causa da minha necessidade de me viciar nas drogas da preguiça e do comodismo.
Desliza pelo meu corpo uma lâmina que me corte o corpo à profundidade da alma; faz-me ver que preciso de um rumo, que o tenho de encontrar em vez de me rotinizar. Mostra-me que sou capaz de ser, de te ser, de ser o mundo que sempre quis dominar a brincar.Puxa-me pelas orelhas como às crianças e diz-me o que deva fazer,ensina-me a pescar. Dá-me liberdade de criar, injecta-me nas veias esse néctar a que chamam de talento, de génio. Faz-me ser grande, faz com que ensinem às crianças aquilo que uma vez eu disse ou escrevi, faz-me inventar algo nesta imensidão de gente que vive a morrer.
Porque sem isso, Pai, nunca saberei rir.

nove

não me sinto capaz.

Silêncio

vive por não morrer
com um coração enrugado e imune aos pedaços de droga dos médicos.

Dizem que arranha, berra, grita, de dor
em ter a doença num corpo que resistiu aos recortes da alma
em jeito de suicídio.

os velhos dizem que ele tem cancro do amor, doença da alma
os médicos matam-no aos poucos com destilações para a loucura.

todos falam daquele que um dia vagueava nas ruas a gritar por
ajuda.
todos
todos falam
todos falam sem calar
todos falam sem calar as bocas cheias
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos nas noites de sexo forçado
sem amor.
porque só falam
todos

todos falam
só falam
e não ouvem.

Eu, eu.

Eu, cientista
Crio mil e um pretextos para escrever matematismos. Procuro teorias e teses políticas, estudo-as, nego-as. Torno-me um ser ruminante do conhecimento, enquanto o mostro com toda a pompa. Sou cientista quando vejo que não há saida quando não o sou, pois crio sempre patamares altos ao ponto de me superar. E quando me supero sinto-me o ser mais alto de todo o planeta, forte e capaz de desafiar as gravidades da existência. Dá-se início à época de cedência às princesices. Deixo de me achar mesquinha, bem como aos sentidos. Deixo-me ir pelas surpresas, e acredito que são a verdade mais cristalina. Pois se me supero cá dentro, conseguirei superar-me à vista do outro, e sentir sem medo.

Eu, princesa
É tão bom saltar ao som da música que mais gosto e que melhor me faz sentir. Melhor ainda quando choro sem razão, culpando a parte fria de mim. E danço valsas em pensamentos fugazes que me trazem recordações de amores antigos, que torturam os actuais. Iludo-me como um palhaço velho que ainda pensa causar gargalhadas. Até que de noite tremo de medo do mundo, e escrevo sem raiva. Nessa minha loucura nunca peço um mundo melhor, apenas um melhoramento de mim. Por acabo sempre por pensar que sinto, e que tenho sucesso no que faço. Mas não. Caio em devaneios sem fundamento e em sinestesias a que os meus sentidos acabam por corresponder. E aí passo a negar-me:
- Sentimentalóide, sentimentalona.

Eu, ciumenta
Imagino-te e vomito todas as palavras ~onas, ~óides. Pego na faca mais afiada e fina que vejo; degladio-me com as tuas entranhas até que o sangue me dê prazer. É inveja. É dor de não poder estar à tua altura. É ciume doentio a tal ponto que salivo de raiva quando te leio. E tu és daqueles tipinho de gentinha pelo qual eu dava a minha carne: como eu, como nós, podre. Mal de mim ver-te como alguém adversário, mas não me abstraio da tua ruindade deliciosa. Derretes o meu coraçãozinho com um olhar teu, mesmo que falso e nojento. É triste. É vão, sentir ciúmes dos próprios sentidos, de mim mesma. Mas sinto.


Compasso

...um dois três, uma volta, mais uma, um passo à esquerda, dois à direita, uma vénia...

A vida seria bem mais divertida se a nossa estrada fosse um palco, e o barulho dos carros a banda sonora de um musical.

Marasmo emocional, épocas de

porque ainda há quem pense que amar é uma obrigação humana;
face a todo este ódio que se produz.

porque ainda se condena moralmente,
quando nas ruas passeiam esponjas absorvidas no seu próprio ego.

porque ínfima é a consciência de que somos nós os assassinos do elixir da vida eterna;

a cada dia deixamo-nos morrer um pouco.

porque somos
(im)perfeitos.

Ultimato

O auge da cri-[a(c)-ção]
dá-se na pe-ne-[tra(c)-ção] da falsidade
em todas as es[feras] da vida.

Depois,
há aqueles que se deixam escorregar pelos gritos até sentirem o chão frio do pranto.

[Primeira leitura: As melhores criações advêm das alturas em que se esconde a loucura, e se mente ao real para tudo parecer calmo e harmonioso; não existe mais que um desespero vergonhoso e latente. As outras, que surgem das situações de tristeza declarada não terão a mesma intensidade, pois as lágrimas acabam sempre por atenuar a dor, e arrefecer o ambiente.

Segunda leitura: A liberdade acontece quando os medos se vão e o ser humano age sem precedência condicionantes, quando há força e inteligência para o conseguir. Aqueles que se deixam enterrar pelas próprias dores, perdem o rastilho de esperança, e mergulham no medo e na mentira.

Suma: Existirá uma relação antitética entre criação e plenitude; o Homem é livre quando perde os medos, mas só cria quando esconde, quando se abstrai da pluralidade a que é submetido. A pergunta põe-se na possível conjugação da Criação e Liberdade, ou seja, se o ser humano poderá coexistir com o fingimento, sem possuir o medo.]

(editado)

Depois da Meia Noite

Passam nove minutos da meia noite e eu penso em ti. Revejo todos os momentos que temos tido, tudo o que temos crescido. E sabe bem chegar a casa cansada e saber que temos alguém que nos aconchega no colo e dos acaricia o cabelo até adormecermos. Que sentimos a pelnitude do outro em nós mesmos, que somos um chá purificante das dores salgadas que não descolam da nossa pele. Um beijo pequeno, uma abraço, um toque teu - é o que basta para me sentir em paz e em plena liberdade. É perfeito, é forte e no mesmo tempo frágil como uma gota da sangue que escorrega e se esvai. Mas faz-nos sentir vivos, faz-nos ter vontade de criar às mais loucas horas e situações, faz-nos rir, faz-nos chorar.
(Ininterruptamente, continuo.)

Vergonha

Medo da Vergonha?
Não.
Vergonha do Medo?
Sim.
Vergonha da Existência?
Acabas de nascer e és repleto de vergonhas. Cresces e acabas por ser vergonhoso.
Vergonha de Escrever?
Não.
Escrever a Vergonha?
Difícil.
Envergonhar Palavras?
Mais simples, elas são voláteis.
Vergonha de Perguntas?
Sempre.
Medo de Perguntas?
Só se tiver vergonha.
Das minhas?
Até das minhas.

Cura II

Disponho as palavras de modo diferente e reinvento a minha já inerte maneira de escrever. Vejo-me de fora sem a dependência do meu corpo às minhas doenças: como se não me fosse; sem as feridas em grito. Critico-me sem mágoa. Escrevo com a caneta sem a minha tinta em constante indecisão.
Nesta visão de fora que me constrói, crio finalmente uma ideia real do que transpareço. Mas (re)reflectir-me na retina recria também uma nova alteração no que pareço. O processo é anulado, falha-se a tentativa de ter uma visão fugaz e isenta desde eu que ando a tentar descobrir( e talvez gostar): o meu corpo insiste em ser-me, em aperceber-se de que eu o observo. E aí, baixo a cabeça e abstraio-me, até voltar a reconhecer a minha voz.

Cura

Eleva os braços aos céus e dança entre os pingos delicados de chuva.
[A beleza]
Sente a vida a correr nas veias, sente o coração que pulsa a tua mente.
[A indissociabilidade]
Despe-te no meio da multidão envergonhada e ofende-te aos gritos.
[A diferença]
Imuniza-te ao pudor que tens de ti mesma.
[O crescimento]
Olha o teu corpo como uma continuação importante de ti , de mim e do mundo.
[Os pensamentos]
Vejamos o nosso reflexo com um sorriso.
[O processo]
Dança hoje e amanhã, até que nos doam os músculos de tanta grandiosidade.
[A sinestesia]
Não cries a dependência como se fossem partes diversas e separadas de ti.
[O sangue]
Tira o problema dos problemas e dos conceitos, dos problemas dos conceitos e do conceito de problema.
[A liberdade]
Sejamos plenos dentro dos nossos corpos.
[A fusão]
Sintamo-nos finalmente nós.
[A felicidade]

Oscilações

Às vezes gostava de saber representar;
às vezes queria ter mais tempo para mim;
às vezes queria ter talento;
às vezes queria gostar menos de mim;
às vezes gostava de ser mais séria;
às vezes gostava de parar o tempo;
às vezes gostava de me conhecer;
às vezes gostava de não saber escrever;
às vezes queria acreditar em Deus;
às vezes preferia saber mais;
às vezes sonho em voar;
às vezes quero ler durante horas a fio sem comer sequer;
às vezes quero afogar-me com a minha própria ansiedade;
às vezes gostava de me chamar pelo nome;
às vezes preferia ver-me do lado de fora.
Às vezes perco-me em desejos diletantes,
outras vezes reduzo-me ao que de maravilhoso tenho.

Curta-metragem

Os teus traços parecem ainda mais perfeitos à luz do desejo. Fecho os olhos e aperto-te contra mim, na necessidade de sermos unos de uma vez por todas. Lutamos contra a natureza e deixamos que uma gota de suor nos percorra o tronco. Olho-te de maneira estranha, olhas-me da mesma forma - já não somos crianças, já não nos vemos como tal. Os beijos salgados já não são inocentes, e percorremos o corpo um do outro na tentativa de beber o néctar que até agora tanto nos uniu. O desejo apodera-se de nós, deixamos de ser apaixonados para sermos carnalmente atraentes um ao outro. Fundimo-nos em função da carne, olhamo-nos em função do amor, e deixamos de o sentir por momentos para o tentarmos fazer. Os lençóis são àsperos ao toque da tua pele, o ar que respiro é amargo aos teus beijos suculentos e desejosos, o pensamento é seco aos nossos corpos húmidos, e o odor a luxúria deixa de nos ser estranho.

Rebanho

Escrevemos sem ser escritores. Somos egoístas com uma arma apontada à cabeça. Mas Ninguém nos ouve nas noites de grito, nem no riso mentiroso. Berrarias mudas que apontam o dedo ao mundo, na espectativa que alguém nos faça o mesmo. Somos loucos desesperados de alguma atenção. Somos crianças sem vida própria, com um vazio cheio de livros e palavras. Somos adultos opacos, escondemos a nossa demência na demência do mundo. Dia. Noite. Dia. Noite. Dia. Noite.Pausa. Os insanos não dormem, apenas produzem na sua ânsia de parar o tempo. Somos egoístas porque simplesmente não temos nada. Somos vazios mentirosos, falsos. Não somos escritores, mas apenas medíocres a querer alguma atenção. Escrevemos coisas loucas, boas ou más, mentiras ou clarividências, azuis ou verdes. Escrevemos sempre na tentativa de sermos avaliados. Uma. Outra vez. Mais uma. E mesmo que não gostemos - uma e outra vez. Porque nos sentimos vivos. Porque nos sentimos menos loucos. Porque alguém reparou numa palavra nossa. Porque por segundos nos achamos artistas, por muito medíocres que nos achem.

Acessório de Refletância de Ângulo Raso

Quando o mundo já nos parece previsível na sua forma, descobrimos perspectivas novas de ver o que nos rodeia.



(sendo elas finitas, o nosso prazo de validade é demasiado robusto para as conseguirmos ver todas enquanto vivos)

Quisera que chegasse

Consegues lembrar-te do ultimo abraço carinhoso que recebeste?
Ainda te lembras do que sentiste?
Consegues trespassar para a medíocre invenção da escrita o que pensaste e guardaste?

Nem eu.

Auto-hetero-auto Retrato

Eu.
Face rosa de desamor, olhar azul de mar.
Águas revoltas, passado presente, amor latente.

Tu.
Lábios doces de delícia, braços e mãos rasgados em carícia.
Brincadeiras inocentes, precedências inerentes.
Amor puro, amor verdadeiro, amor teu.

Tu, eu.
Corpos aquecidos pela paixão e pela injustiça.
Um leque de confidências, uma mão cheia de incoerências.

Eu, tu.
Olhares cegos de visão e de razão.
Paixão permanente, coração latejante, pensamento vadio- e por isso vazio.

Nós.
Uma criança carinhosa, um pomar colorido.
Um cacho de saudade, cujos bagos são saboreados em momentos escassos( e deliciosos).

Vice-versa

- O meu batom é lilás brilhante. A minha caneta de sublinhar é púrpura. A minha pele é semi-transparente. A minha altura é 1.60 m. Roo as unhas. Tenho sangue plebeu.
E se o meu batom fosse verde, a minha caneta de sublinhar azul, a minha pele opaca, a minha altura 1.80 m, as minhas unhas bonitas e cuidadas, e meu sangue fosse azul?

- Se o fosses, pensarias o inverso.

Tolos

quando ainda somos poéticos numa cobertura de betão.
ridículos?
(Sorrio e nego com a cabeça)

Pausa

Façamos uma pausa no blog. Só para comunicar a minha alegria extrema de saber que a minha cunhada está de bebé, e que vou ser tia :D
Parabéns ao meu manusco :D
Aweeee

Ao Krip, do Caneta sem Tinta

É com alguma tristeza que vejo um blog como o "Caneta sem tinta" admitir o seu fim. Através do seu autor, conheci uma infinidade de pessoas que hoje me fazem sorrir, apr(e)endi palavras e ideias, emocionei-me, entristeci, sorri, revoltei-me, senti.

G*, meu querido amigo imaginário. Ainda te lembras quando passámos horas a dizer mal do mundo? Foram poucas, comparadas com as que ganhámos em apontar defeitos um ao outro. Tornámo-nos em dois animais desenhados por crianças, rolámos na relva, insultámo-nos, fingimos, amámos como quem ama uma borboleta que nos atravessa o caminho na cidade. Fizeste as malas, mas não quero que partas (ainda).

Lembra-te que me deves o Omnia Mutantur em papel.
Lembra-te dos 'foolish games'.
Lembra-te de tudo o que fingimos lembrar-mo-nos.
Lembra-te que deixámos de ser crianças.
Lembra-te do nosso filme preferido.
Lembra-te de teres andado com o meu saco um dia inteiro.
Lembra-te de teres lido "A Aparição".
Lembra-te das perguntas e das não-respostas.
Lembra-te da "fotologoesfera".
Lembra-te que temos uma fotografia juntos.
Lembra-te que conheci quem me roubou o coração através de ti.
Lembra-te da minha insistência no número 9.
Lembra-te do presente que me deste.
Lembra-te de Lilith.
Lembra-te das coisas sem sentido.
Lembra-te que me contrariaste milhões de vezes até nos conhecermos.
Lembra-te que sabemos o nome completo e data de nascimento um do outro.
Lembra-te que tinhas razão.
Lembra-te de momentos e memórias.
Lembra-te de coisas que ainda não sabes.
Lembra-te da importância das tuas palavras para mim, para o mundo.
Mas não me lembres, parte.

Ab irato

Tenho pesadelos como as crianças;
e não me sei rir deles, como as crianças.
Aconchego-me no teu corpo e peço protecção, como as crianças.
Evito chorar com medo de piorar, como fazia em criança.

Mas cresci, como as crianças.
E ainda rebolo na cama sem sono,
mas já não chamo pela mãe.

Já tenho mais anos-luz que dedos nas mãos,
sei escrever há tempo de mais para me lembrar de quando aprendi.
(como gostava me recordar de tentar pegar num lápis com o desajeito que me é intrínseco)

O cabelo escureceu,
tornei-me num pseudo-camaleão armado em poeta.
Já me sinto responsável - e já me doem as costas por isso.

Confissão

Talvez o meu maior erro seja não me saber expressar, de modo a que os outros percebam o que desde sempre percebi; pois fico sempre na esperança que a maioria das pessoas me perceba sem que tenha de falar.

Nado não vivo

As palavras são ridículas
Verdes, podres.
Tuas.

Envergonhas o chão que pisas,
mostras-te o que não és.
Metes nojo aos transeuntes,
enojas-te a ti próprio.

És mendigo de ti mesmo,
és um pedinte de nenhures.

E carregas a ingenuidade tórrida de um corpo asqueroso
que oferece náuseas ao mais rico homem.

E gritas que és sem o ser,
mas na verdade nunca foste,
nem sequer na ultima garrafa de vinho barato que deglutiste,
e muito menos nalgum olhar que ofereceste.

Consola-te pobre cego, que mesmo a ver não deixas de o ser.
Embriaga-te em sonhos e ilusões,
veste roupas largas e goza com anões,
vive na vontade de morrer!
Mas na tua lúcubre visita à terra,
o escuro alcatrão que calcaste
não passa de uma farsa de que te apropriaste.

Convence-te pobre porco,
que quem te julga com tamanho nojo como eu,
nunca será tão odiado como és!
Nesse teu ínfimo mundo azul,
ao qual olhas com prazer...
sem nunca teres chegado a nascer.

Dias

Hoje não me apetece escrever.

T Dois

Olho a moldura de letras que na minha frente se apresenta mais uma vez. Delineio os seus traços como se fosse a primeira vez que escrevia publicamente. Um pedaço de vidro partido que por momentos desvia a atenção das minhas palavras, uma ambulância que chega. Reparo mais uma vez nas frases escritas nas mesas alvas na minha frente em jeito de heresia, revolta contra o invisível, expressão da violência de uma aprendizagem voluntária que hoje em dia é obrigatória. Desvio o meu olhar por momentos para uma frase dita por um colega, troco um olhar de cumplicidade amargo. Nas ondulações de humanos que na minha frente escrevem frenéticamente sem que sejam dominados pela minha diletância, ou mesmo inércia. Perco-me do raciocínio que o enforcado na frente apresenta, e disperso-me no meu pensamento enquanto olho a luz imunda que pelas vidraças imediatamente atrás do meu sítio embebe o ambiente de sorrisos de indiferença. Arrepio-me de pensar nas doenças que atrás do meu meio se cultivam. Ali, tratam-se pessoas por números como bestas infectadas. Aqui, ouvem-se raciocínios falaciosos e rolam canetas em papéis já cheios de tinta ilegível. E tudo se funde numa morte intelectual, um assassínio da vontade humana de saltar pela janela e voar até casa para me acolher nos cobertores com quem se ama e protege. Recosto-me na cadeira e disfruto do cheiro doce da tinta que se espalha pelo meu caderno diário. Deixo pender a cabeça num momento de preguiça, delego a tua visão no tecto. Sorrio ao imaginar a possibilidade de alguém abaixo de mim faz o mesmo.

Cegueira



Fecho os olhos no mundo sensível.
Abro-os no mundo inteligível.

Rapto

(Se possível, ao som de "The Outsider - A Perfect Circle")


   Corro o vidro de modo a poder sentir o ar da madrugada na face. E como é cortante a forma subtil que as naturezas encontram para nos fazer sentir dentro de um filme. O gelo que seca a pele da minha face rosada pede-me um fechar de olhos no intuito de absorver o momento.
   Concedo o seu desejo, e sinto o calor das baixas temperaturas, embrulhada num manto de sonolência cada vez mais cómodo. Se lhes pudesse tocar as gargalhadas inocentes e puras, que soltam sem dar conta, talvez o toque se assemelhasse a veludo amarrotado.
   A viagem ainda não tinha terminado. O corpo de alguns pedia néctar, mas eu preferi contemplar a pré-histórica roda enquadrada num desenvolvimento avassalador, cortado aos poucos pelo vento que apenas eu conseguia ver.
Deixei-me adormecer no aconchego de um amigo-revelação. E apesar de ter sido o seu ferveroso cheiro a adormecer-me, a minha mente estimulava-se com o perfume de outro - a quem eu realmente pertenço. E não há nada mais atordoante que adormecer na velocidade do tempo, com o perigo à espreita em qualquer faixa de rodagem contrária ao nosso caminho, mas nada mais agradável que acordar com uma voz sorridente, envolta num regresso a casa.
   Penetro a chave minha fechadura, retiro o diário da minha gaveta, recolho-me, penso em ti por segundos. Apago-me por breves horas.

(Apenas lamento o facto de a minha tosca transcrição de emoções ser cega. Contudo, é agradável saber que nem tudo o que se vive pode ser intelectuado.)

Simetria


Tenho escrito coisas bonitas para pessoas bonitas aqui.

De(In)dicado

Tu és todos os sons
De todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.

[Pedro Abrunhosa -Como uma ilha]


Injustiça

Um dia descobri porque as palavras carregadas de angústia me deixam um gosto mais duradouro na boca que as palavras felizes.
Talvez porque a felicidade faz o tempo correr.

Eternidade espontânea



Chegar a casa de madrugada, e sentir que fizemos alguém rir.
Escrever no escuro, mesmo que sejam traços sem sentido.
Manter o pensamento acordado, mesmo que os olhos não o peçam.
Encontrar truques para a má memória do mundo, mesmo sabendo que há coisas que se esquecem.
Alimentar uma escrita feroz para próprio gozo, sabendo que ninguém a vai ler.
Ver uma cidade dormente, e pensar apenas numa pessoa.
Sentir a alma cheia, quando à tua volta apenas existe o vazio de cores que nunca tu construiste.
Deixar a velocidade nos trespassar o corpo, contrariando o tempo que nos apodrece.
Esboçar um sorriso por estarmos vivos, enquanto todos à nossa volta são abatidos um por um.
Jogar mal por falta de jeito, e rir por derrota da forma mais verdadeira.
Notar que alguém nos nota, mesmo que seja por uma segundo efémero.
Sentir que do outro lado do rio está alguém que nos cuida, mesmo que a saudade aperte.
Ingerir alimentos pouco saudáveis a meio da noite, só pelo gozo da companhia.
Lançar sorrisos irónicos falsos, esconder uns verdadeiros.
Jogar um pouco na mente durante o dia, esquecer tudo na noite.
Enfrentar a noite num rasco de vontade, mesmo com medo de tonturas.
Ter a roupa cravada de cheiro dos bares, sabendo que os nossos pulmões não se lavam na máquina.
Lançar uma palavra de aconchego a uma mente ainda irracional.
Rir ao acaso.


Momento

Há sons, que pelo seu apelo ingénuo à infância, me levam para planos já esquecidos no tempo.
Passaram dez anos desde que não tenho por cima da minha cama uma casinha com dois ursos, um grande, outro pequeno. Os dois vinham à janela alternadamente ao som de uma melodia que me sempre foi familiar. Não era um som de uma comum caixa de música, mas algo mais secreto, que transmitia segredos à minha imaculada mente, assim como afastava os fantasmas toscos dos meus sonhos irreais. Era especial, porque o urso pequeno sempre me fazia ficar triste. Era pequeno, era insignificante, era eu enquanto respirava numa casa de adultos, sentindo que eu era tosca. Por isso, nunca abraçava, nunca dizia que gostava de alguém. Era rude, para que me conseguisse sentir o urso maior, mais sedutor, sem aquele choro de anjo.
Rio-me desse tempo em que a minha prima preferida tinha 70 anos e eu já a achava velha. Hoje tem 80 e essa velhice já me passa ao lado, mas fico sempre com a necessidade de a ter conhecido em jovem, pois parece que antes de eu existir, ela não existia, ou pelo menos em mim não o faria. Serão menos 62 anos de lembrança dela gravada na minha memória, que ingrato.
Sei que quando pessoas que me agitam a memória morrem, eu sinto-me um pedaço mais perto da atitude deles aquando da minha infância. E solto sempre um tímido sorriso ao pensar que poderei ser 20 anos na mente de alguém, tendo eu vivido 50. Sorrio mais ainda quando imagino um filho meu a imaginar-se estranho pela minha atitude ao vê-lo chorar pelo urso pequeno.

141

Quero aconchegar-me em ti
Adormecer com as tuas festas
Chorar no teu ombro quando me apetecer...

Eu aconchegar-te com ternura e carinho
limpar as tuas lágrimas e sussurrar ao teu ouvido aquilo q precisas de ouvir no momento
aproveitar um abrir de olhos nocturno teu, para roubar um beijinho e voltar a aconchegar-nos

gosto de ti
pelo que és
pelo que me fazes ser.
(sem que eu o peça)


foto de R*

Crime

Corta-se o cordão umbilical com toda a pressa para que ninguém veja o crime.

Larga-se o ser mudo numa qualquer esquina. Aprende a falar num instante.

Luta para que não lhe doa a partida de que não toma sentido.

E ingénuo espera que o busquem.

E ingénuo espera na esquina que o crime o abrace.

E não sabe que o cordão umbilical lhe foi cortado.

E aprende a falar.

Um ser que nunca falou o mesmo dialecto.

E grita.

Por fim, grita.



por mylostwords

One bullet at a time

e se

no dia em que

o mundo acabasse

tivesses planeado o amanhã ?


Duo em uníssono

GUILHERME
significa: o que protége

Gaguejo por entre os teUs suspiros aInda entrelaçados nas tuas palavras
. Lança-as mar, queremo-las quando chegarem a Hipérboles na margem, mesmo que inúteis, mesmo que as absorvamos como antes. Estórias de encantar, barafundas de falsas emoções - são tuas sem o ser. Remata a tua existência com conselhos inúteis (como este), que tanto gostas de dizer que não gostas. Mais que seres o que és, não és o que dizes ser, muito menos o que te contradizes na tentativa de o fazer. Não és, meio do que dizes gostar, claramentE.

(dedicado)

O cheiro não cadastrável

És porque não me és.
És sem o ser.
Deixas de o ser quando não peço.
Interpretas-me.
A tua voz, o teu carinho não é mais que uma efémera amostra.
Do que sinto quando te sinto, nada é explicável.
Amor? Que seja, que sejas. Gosto.
De ti, de mim.
(pausa)
(parágrafo sem o ser.)

O verde e o vermelho

Escrever
mais uma vez
porque tem 1 erro parcial
ou um notorio.
As ideias falham
Os pensamentos fogem
Usaram-se ideias pré-concebidas
O alcatrão lento já não dá valor à ideia
As palavras são insuficientes
Não há inspiração
A despersonalização enoja o sentimento
Erramos num recurso estilístico
Hoje não é dia de não-ser, muito menos de ser não-poeta.
E por isso desistimos do que dizemos
do que pensamos
Do que íamos dizer
Ou do que poderiamos pensar através do que iria ser dito ou escrito.

(Conheces a letra da "Enjoy the silence"?)

O abstraccionismo geométrico comporta-se da mesma forma: o conjunto de cores que se vê na estação das Olaias, que foram pintadas de forma arbitrária, não transmitem, tal como as palavras, nada de palpável. É a sensação que tens, que lhe dá o valor. (...) Ainda pensei que o Krip lá chegasse, mas nem ele. Pensou que se devesse à calmaria da estação. Muitas vezes perdemo-nos em interpretações . (...) Daí gostar dos teus textos mais recentes: a forma curta e directa esconde mais que os meus (maus) textos que ninguém compreende. É isso que gosto, fazes-te compreender, não usas jogos de conhecimentos elitistas que por vezes eu faço: as tuas palavras chegam a qualquer pessoa. (...) De facto já me disseram que cresci na escrita... que tenho uma espécie de escrita inteligente... mas tu tendes a não ter noção enquanto escreves, é-te intrínseco. É como quando aprendes a andar de bicicleta: já não pensas, andas e desenvolves os truques (é mais ou menos isso). Mas sobretudo é uma Paixão Muito Grande.. talvez a Maior que tenho na vida... e claro que fico extremamente feliz por saber que pessoas como tu, que também admiro pela sua forma de escrever, me dêem críticas tão magníficas... Se queres que seja sincera, mas minhas palavras não funcionam. Num texto expositivo-argumentativo, sou capaz de escrever à mercê das ideias mais loucas que me surjam. Confio na minha forma de arrojar conceitos completamente básicos. Mas a nível mais poético, falta-me sabor. Ou talvez dor. A tua balança de escrita tende mais para uma faceta métrica. Sim.. de facto tens outra abordagem na escrita, tens um tipo de escrita mais arrumado. (...) Eu tenho uma relação diferente com as palavras: uso-as. Já tu, preferes mantê-las. Mantenho. Pode parecer surreal e incompreensível para muitos.. mas tenho de escrever. Tenho de. Mesmo. Aprendi a viver assim.. cresci assim.. e nisto vou-me. Está bem, boa Noite. E não esmoreças na escrita. porque também tu.. sabes o que escreves.. e faze-lo bem.. Tenho dias, poucos...

(Quando três pessoas conversam interpoladamente, o resultado torna-se curioso. Talvez sejam nelas que mais consigo mostrar o que posso. Escrever de mim para mim tira-lhe o gostinho a que estamos habituados. A ti, Musa. A ti, Surpresa.)

Ligações frutíferas II



Abstraccionismo geométrico & "Feelings are intense, words are trivial"



Ligações frutíferas

Há quem chore por ti,
Eu sorrio contigo.

Há quem eu ache falso,
Nada é verdadeiro o suficiente para o poder ser.

Há quem faça dieta,
Eu como chocolate.

Há quem queira beber,
Eu tenho dias.

Tenho dias que ouço sons rudes,
Outros que estou surda com o meu próprio som.

Há dias que a vida não muda,
Noutros ela deixa de existir.

Há quem ame o surrealismo.
Eu gosto do abstraccionismo geométrico.

O "João" é a estação do metro "Parque",
Eu preferia ser "Olaias".

Tenho segundos que me acho inflexível,
Outros sou a mais cega crente.

Há dias que tento,
Outros ganho.

Hoje gritei com pessoas,
Amanhã posso querer chorar no ombro delas.

Hoje quero o que quer que possa querer,
Nem que seja uma palavra doce vinda de alguém.

Hoje sou gregária porque gosto,
amanhã sou gregária porque me é intrínseco.

Magia

Pergunto-me como seria possível escrever um texto sem nunca repetir uma única palavra.

Respiro.




O (interno) sorriso

Há sons que o corpo provoca quando o silêncio da alma é grande. Há outros que só se ouvem de verdade quando estamos com quem queremos.

Para cima

"Nós nunca controlamos nada. A Sr.Vida condena-nos, vangloriza-nos como calha"

A propósito, esta frase altamente destruidora de tudo o que somos, engrandece-me. Dá-me vontade de levantar a cabeça, de dizer que posso e consigo. Há um ano atrás não era metade do que sou hoje. E por mais que fique triste por vicissitudes e acasos, terei sempre uma mudança em mente, uma porta aberta, uma solução vigente. Ainda estou cega com a luz que me invadiu por minha escolha, ainda choro por alegrias e tristezas porque nunca havia chorado. Mas agora, enquanto crianças nascem, eu faço o mundo um pouco melhor: vivo.


O cheiro do som

És no meu pulso
(vermelho e negro)
Somos num coração
(és num eco eterno)
Sorrimos na mais alta degradação do planeta,
mas na maior capacidade de ser repleto de prendas interiores.
(cartas e mais cartas de amor)
Sou-te nunca deixando de me ser.
(amo)

O lugar do teu olhar

E no meio da brincadeira, no meio da falha em que surge o som enebriante, foge o meu sonho por entre os dedos, querendo chegar onde não se chega. As riscas coloridas do céu confundem-se com o tracejado da ligação, e mesmo assim deixo-me invadir pelas palavras inutéis, e pensamentos decorados para efeitos audíveis. Foge de mim, corre para a outra margem. Quero-te, tenho-te, não te tenho, fugiste, tenho-te de novo. As folhas caídas que surripam nestes patamares soltos em terra de ninguém prendem o olhar veloz dos transeuntes. E eu, que conheço as pedras como as paredes do meu quarto, deixo-me desconhecer o que havia bem conhecido, para te sentir, para te ser, para te amar. A recordação da obcessão por um tal de azul não foi mais que um cinzento com aroma a sangue. O corte triste de uma alma pérfida ausentou-se por completo. E aqui, a minha velocidade de pensamentos corre como nunca. Foge grita, sente, anda, percorre, salta, deixa-se cair...

Padrão

Gosto de sentir a cor das paredes quando o céu está azul. Gosto ainda mais da ausência das primeiras na presença do segundo. Quando as paredes já me cumprimentavam, numa tarde anoitecida, pegámos na coragem fraca, fugimos pela janela do reflexo e saltámos para o patamar proibido- branco, inseguro, gratificante. O fumo da ausência de luz real apagava todas as que se moviam lá em baixo. Os carros com trabalhadores carregados de pressa, as ruas iluminadas pelo alcatrão efémero, o combóio ajudante do ambiente seco. E lá no cimo, nada mais que o negro infinito. Que senti? Poder de me mostrar verdadeira, como faço agora, contigo. O grande abraço que o negro superior me havia subtilmente oferecido foi acolhido pela luz de um olhar claro e tentador, que me provocou no primeiro segundo. Quero assumir-te ao negro ausente, ficar-te e ser-te quando me quiseres ser. És real como nunca haviam sido, minha estrela oferecida, meu gemido gritante, meu sentimento pleno e cortante. O teu beijo no centro do carinho, os lençóis ausentes na sua inutilidade, o teu calor, o meu carinho, o teu olhar, o meu toque, o teu sorriso, o meu sentimento, o meu calor, o teu toque, o pleno, a dor, o amor, o carinho, o arrepio, o auge, a tua capacidade de amar, o meu sorriso de prazer, as estrelas, o anoitecer...

Toque

Aconteceu.
Ri, riste-te, sorrimos.
Olhaste, olhei, olhámo-nos.
Acenei, tocaste, parámos.
Olhei o céu, olhaste as estrelas, deixámos de ver.
Fechámos os olhos sedentos, aproximámos o bater do coração.
Sussurraste-me, sussurrei-te, fundimo-nos.
Fomos num beijo, num sorriso, numa tarde.
Sou. És. Talvez sejamos.
Sentes-me?


Ontem

Softly
Kissing you as you lie sleeping
Breathing
Gently with you in your slumber
Your face is the picture of contentment
My angel's dreaming, my angel's dreaming

And I'm so happy wit'you
So happy wit'you
So happy wit'you
So happy wit'you

Slowly
Opening your wondrous eyes on me
Shining
Green and glorious in the morning sun
This moment, what could be more precious?
May it live forever, may it live forever

So happy wit'you
So happy wit'you
So happy wit'you
So happy wit'you

Smiling on me your love gives me all the blessings of this newday
The heat in your skin caresses my senses in sucha glorious way

I'm so happy wit'you
So happy wit'you
So happy wit'you
So happy wit'you

Lamb- Softly

Indícios

Fecho os olhos, e sem pensar, vejo. Um sonho reincidente que desperta o meu lado mais real. Sou livre por te ver, livre para o fazer, e ainda mais o sou por querer querer.
"É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes."
Opiário
"Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa. "

Gostava
" Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade."

Assim como falham
"O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar."
Magnificat

"Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar."
Sorriso audível das folhas


Caminhos

Temos objectivos. Estranhos, poderosos.
O alcatrão que está entranhado e que corre por nós.
A sensação doce da vida que avassala teclados negros de virtude.
A insonoridade da amoralidadade do meu crime.
A dor, o sorriso, a força.
Tua, não minha.
Caio aos teus pés, ouço a nossa cumplicidade curiosa.
O medo, a velocidade cortante a que os teus dedos percorrem as sinestesias falsas...
Vamos correr, cantar, viajar pelo mundo real de um feriado marcado.
Não me deixes, abraça apenas o momento do desmomento, assim como a causalidade da coisa.
Sê-me sem pensar em quem te foi, para que possa anular quem nunca me conseguiu ser.
As pastilhas nos sapatos de adolescentes que continuam a marcar o chão de ensino...
O cheiro da minha cor, a cor do teu cheiro, o ardor do nosso ser.
Aprecia a luz, o meu silêncio ausente, a minha mão caída por azares.


Prison Sex

It took so long to remember just what happened.
I was so young, vestal then, you know it hurt me.
But I’m breathing so I guess I’m still alive
Even the signs seemed to tell me otherwise.
Got my hands down, and my head down,
And my eyes closed, my throat’s wide open.
I do unto others what has been done to me.
Do unto others what has been done to you.
I’m treading water. I need to sleep a while.
My lamb and martyr, you look so precious.
Won’t you, won’t you come a bit closer.
Close enough so I can smell you.
I need you to feel this. I can’t stand to burn too long.
Release in sodomy. the one sweet moment I’m whole.

I do unto you now what has been to me.
I do unto you now, what has been done.
You’re breathing so I guess you’re still alive.
Even the signs seem to tell me otherwise.
Won’t you, won’t you come on up closer.
Close enough so I can smell you.
I need you to feel this. I need this to make me whole.
Relief in sodomy. have you witnessed that blood and flesh can be trusted. i.
Have you witnessed the blood and, this can’t be trusted. i.
Only this one holy medium brings me piece of mind.
Got your hands bound, and your head down,
And your eyes closed, you look so precious now.

I have found some kind of temporary sanity in this.
Shit, blood, and come on my hands. I’ve come round full circle.
My lamb and martyr, this will be over soon. you look so precious.
You look so precious now...


by Tool

Rainy day


Doesn't rain anymore.
Here is life, with your own world.
Knock on my door anytime you want.

Sonhos (re)incidentes

A viabilidade de tudo isto está em causa. O facto é que os inquéritos de podre população feliz contradizem o meu carácter sonhador. Um grosso modo de dezoito anos que consolidam o contrato das minhas palavras com as vossas. Um novo período que se avizinha, já que se sente o calor da minha nova personalidade, quer venha ela a ser efémera ou perene.
O elástico cor-de-rosa do meu corpo deixou de me prender à magna legitimidade dos sentimentos intelectuados, assim como a visão do mundo se tornou mais humana. Deixei o meu tom terra no fundo do balde, e inundei-o com sentimentos, não de gratidão, mas "egoístas". Talvez a partir de agora passe a cultivar o sentido interior do que me rodeia em estradas carregadas de população azul. Um ano não tem, obviamente, que marcar a mudança, mas a mudança dá-me sempre a noção de passagem das horas. É apenas o beijo da volúpia que me baptiza da forma mais incrível.
Que continuemos neste pacto de transmissão de cultura até se tornar insustentável.
Muitas foram as pessoas que me proporcionaram a escrita contínua e pseudo-verdadeira. Costumo afirmar que não são as palavras dos que escrevem que me fazem escrever, ao invés, são os que não escrevem um palavra que o fazem. Enumerá-las? Talvez bastará olhar para a secção "Vide", para que se torne claro e óbvio.
Beijos às faces da mudança, pois afinal, foi só um ano.

Hoje

Quando me sentia triste por envelhecer, o mundo rodou. Agradeço a todos que me quiseram bem neste dia que ainda é bebé.

We are

"You took your coat off and stood in the rain,
You were always crazy like that
I watched from my window,
Always felt I was outside looking in on you
You were always the mysterious one
With dark eyes and careless hair,
You were fashionably sensitive, but too cool to care"

O teu cavalo branco.

Pudesse eu descrever o teu magnífico som, ora veloz, ora lento. Como te admiro, como sigo os teus passos, como durmo e acordo, como...
Como és e foste, como me farto de te ouvir, como te peço sempre que voltes. Como te anseio que sejas meu, como te sinto meu quando te ouço!

Doze (onze) moradas de silêncio

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje

Al Berto
(para ti G*, com saudades de te poder deixar de levar a sério)

O homem da cabeça de vidro



O plástico entranhado nos nossos corpos de vidro ainda deixa rasto pelo pensamento. Podes por fim rir das carícias, dos cortes e marcas que uma caneta azul deixou no teu corpo, pois deixei de acreditar que acreditas na manipulação inexistente. O argumento baseado em "sou o que tu quiseres" ainda se mantém cristalizado nos blocos de açúcar que o frio causou, ainda sinto que sentes o gosto doce e sólido da minha boca sanguífera.
Encontrei a razão de tudo isto num debate azulado, pois o meu olhar escondido entre folhas contrasta com o teu entre corpos. O meu azul é um utensílio, o teu verde uma arma. O meu azul é um espelho, o teu acastanhado uma falácia. O meu castanho é uma devoção à tua acoerência, o teu arco-íris a devoção à coerência alheia. Verifica os diferentes caminhos, assim como a capacidade enebriante dos mesmos. Repara na assombração de um Fado que se impõe na tua mão, em que por uns segundos, uma caneta conseguiu aquecer-se e marcar um nome que te adoça.
Intensifica-te, passa a odiar-me, pois a necessidade de te ver longe quer saborear os laivos de sangue que se geraram no teu peito.