tenho a tristeza sentada ao meu lado. não daquela que chama a atenção dos outros. não daquela egoísta. mas daquela que nos tiram o chão, os braços e as pernas. as pernas, o chão e a boca. as palavras, a língua e os braços. uma perna e outra perna. a língua cortada com uma tesoura pequena, aos poucos e às postas. a boca agrafada ao nariz e ao peito. os lábios repuxados com laivos de sangue seco. as palavras impossíveis sem os braços sem mãos e sem cotovelos. sem uma caneta na ponta dos dedos. as pernas traçadas uma soubre a outra. na tua frente. descoladas do corpo onde sempre permaneceram. com lascas de carne já seca pelo tempo que não passou. e tudo o que pensas, é impossível. sem chorar e mostrar a dor. até que o chão se abre. a queda. para sempre.
Poder
porque se gastam aos poucos, gostava de saber o nome de todos aqueles com quem troquei palavras, para que deixassem de ser sombras na minha memória, e os pudesse escrever. e uma palavra é um infinito. e o i_n_f_i_n_i_t_o é tudo o que está dentro das pessoas.
Meu amigo
o negro espesso da tua figura aperta-me os sentidos.
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.
porque sei que sofres, meu amigo.
e sei que sabes, mas que finges não saber, e ambos sabemos que finges que eu não sei, mas sabes que sei. tudo. desde o teu sorriso falso à tua palavra mais àspera.
e dói. dói por saber que te dói. dói mais ainda saber que sabes que me dói, mas finges.
e no fundo, o que mais dói é este fingimento que nos impede de falar. de pegar na tua mão e de te dizer: "estou aqui". mas tu não deixas. e eu não consigo.
porque sei que te aperto os sentidos. porque sabes que sofro. e sabes que eu sei que sabes mas finges não saber que ambos sabemos.
da dor
infinita do universo.
meu amigo
a menina que gostava de pular pelas páginas
pisava aqui
e
g
rau___
outro... e corria_._._._._._._._._._._._._._até à outra ponta da folha,
_
_
_
até alcançar o ponto final,
descia um
de
g
rau___
_
_
_
até alcançar o ponto final,
e começar a escrever com o toque das folhas recente na ponta de seus dedos, e com o pó de fantasia que ficara agarrado aos seus sapatos.
não vivo.
começa de novo a fúria. as pessoas correm e eu paro. sento-me na minha própria angústia e sorvo toda aquela avidez do veloz.
fecho os olhos. voo.
angustio.
volto.
sigo.
não me perdoo.
dói aqui. nas pontas do coração. no turbilhão. ______________________________________________.
fecho os olhos. voo.
angustio.
volto.
sigo.
não me perdoo.
Recompensa
peguei-lhe na mão e ensinou-me a desenhar, como uma troca de favores.
Nunca eu aprendi a desenhar bem,
nem ele agarrou o vento do meu toque.
Mas sorrimos
dentro do olhar um do outro.
Nunca eu aprendi a desenhar bem,
nem ele agarrou o vento do meu toque.
Mas sorrimos
dentro do olhar um do outro.
Insensibilidade

até sentir o ardor nos rasgões de pele.
umae outra vez.
até amanhecer.devagar.
e se esquecer.do que não sentiu.
Não gosto
gosto de escrever. gosto de ver passar as palavras pelos meus olhos e entendê-las. estendê-las. gosto de ler o que se escreve e que não se pode dizer. mas não gosto das letras. porque enquanto parece que as leio, a minha memória lê as que consegui ler pela primeira vez. e cá ficaram. enraízadas aos sentimentos e às páginas. subestimadas. as palavras nunca significam a mesma coisa duas vezes. as letras soam sempre ao mesmo. se eu me lembrasse do trabalho com que cada uma foi escrita, talvez gostasse das letras. mas eu não gosto das letras. porque as sei de cor. porque as magoo quando não penso no tornear da caneta das primeiras que me ensinaram a escrever: as do meu nome. e as letras que finjo ler são as perdidas na minha memória. as mesmas que me fazem escrever por automatismo. sem valor. por isso não gosto das letras. e talvez menos ainda da memória delas.
Tudo,
desde as palavras que se embrulharam nas nossas línguas,
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.
Assimetria
chorarmos pelos cantos por falta de algo que nem realmente nos faz falta,
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.
Confissão

Reparar que tenho de recorrer a esquemas para entender textos torna-se engraçado. Pois só depois reparo que o esquema acaba por parecer mais difícil de compreender que o próprio texto.
Mas sempre fui assim nas palavras e pensamento
raciocino
ordeno
da minha forma.
Daquela
que poucos
conseguem entender.
Mas sempre fui assim nas palavras e pensamento
raciocino
ordeno
da minha forma.
Daquela
que poucos
conseguem entender.
Queda
[O acto, o assassínio]
Nem tudo tem solução:
nem a inércia
nem o medo de dela fugir.
E eu,
que me esgueiro pelas portas e me arrasto pelas dunas na noite
tenho os dois.
...
[A consciência]
Aborreces-te. Acomodas-te.Voltas a aborrecer-te. Voltas a acomodar-te.
Choras. Ficas contente.
Gritas. Acalmas os ânimos.
Irritas-te. Contas até dez e inspiras.
Perdes o juízo. Sais para refrescar a mente.
Excedes-te. Toleras.
Engoles a democracia e és irredutível. Esqueces-te.
Mandas alguém à merda. Pedes desculpa.
Cerras os punhos. Levantas-te e segues.
E quando quebras o ciclo por uns momentos, reparas que não és mais que uma explosão de sentidos por revelar, acomodados, reprimidos: que te mastigam o cérebro dia após dia, que te fazem fumar as pontas de vontade.
Tic Tac
Faz daqui a dois minutos mais dois minutos que cá estou sem ver a luz do sol. Já me injectei de esperança uma, duas, talvez três vezes desde que estou neste cubículo pérfido. A anestesia já não faz efeito, já não me mata, apenas mói, corrói, dói. Apenas me faz ficar aqui encostada a esta parede a olhar para aquele mosquitinho irritante a afogar-se no leite do gato. Raiva de o ver a agonizar, raiva de saber que o posso salvar e não faço porque tenho o corpo preso com linhas de coser, cozer; palavreados e composições. Merda textual que me mordisca os pensamentos.
Tic Tac sem parar.
Perda, prisão, afição, ferrugem.
Tic Tac sem parar.
Perda, prisão, afição, ferrugem.
C O R R O S ã o do eu.
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