Não gosto

gosto de escrever. gosto de ver passar as palavras pelos meus olhos e entendê-las. estendê-las. gosto de ler o que se escreve e que não se pode dizer. mas não gosto das letras. porque enquanto parece que as leio, a minha memória lê as que consegui ler pela primeira vez. e cá ficaram. enraízadas aos sentimentos e às páginas. subestimadas. as palavras nunca significam a mesma coisa duas vezes. as letras soam sempre ao mesmo. se eu me lembrasse do trabalho com que cada uma foi escrita, talvez gostasse das letras. mas eu não gosto das letras. porque as sei de cor. porque as magoo quando não penso no tornear da caneta das primeiras que me ensinaram a escrever: as do meu nome. e as letras que finjo ler são as perdidas na minha memória. as mesmas que me fazem escrever por automatismo. sem valor. por isso não gosto das letras. e talvez menos ainda da memória delas.

Tudo,

desde as palavras que se embrulharam nas nossas línguas,
aos papéis de rebuçados que doces, derretiam-se nas minha mãos na espera da altura certa de os abrir,
tudo é teu.

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(música: Lamb, Five)

Assimetria

chorarmos pelos cantos por falta de algo que nem realmente nos faz falta,
quando há quem não tenha o que realmente importa
e não sente falta
nem chora.

Alter ego

todo esforço é vão,
pois toda a alma apodrece.

Confissão


Reparar que tenho de recorrer a esquemas para entender textos torna-se engraçado. Pois só depois reparo que o esquema acaba por parecer mais difícil de compreender que o próprio texto.
Mas sempre fui assim nas palavras e pensamento
raciocino
ordeno
da minha forma.
Daquela
que poucos
conseguem entender.

Nem mais uma palavra

...
enquanto não sentires realmente o que dizes.

Saturation


or even
simulation.

Queda

[O acto, o assassínio]

Nem tudo tem solução:
nem a inércia
nem o medo de dela fugir.

E eu,
que me esgueiro pelas portas e me arrasto pelas dunas na noite
tenho os dois.
...

[A consciência]
Aborreces-te. Acomodas-te.
Voltas a aborrecer-te. Voltas a acomodar-te.
Choras. Ficas contente.
Gritas. Acalmas os ânimos.
Irritas-te. Contas até dez e inspiras.
Perdes o juízo. Sais para refrescar a mente.
Excedes-te. Toleras.
Engoles a democracia e és irredutível. Esqueces-te.
Mandas alguém à merda. Pedes desculpa.
Cerras os punhos. Levantas-te e segues.

E quando quebras o ciclo por uns momentos, reparas que não és mais que uma explosão de sentidos por revelar, acomodados, reprimidos: que te mastigam o cérebro dia após dia, que te fazem fumar as pontas de vontade.

Tic Tac

Faz daqui a dois minutos mais dois minutos que cá estou sem ver a luz do sol. Já me injectei de esperança uma, duas, talvez três vezes desde que estou neste cubículo pérfido. A anestesia já não faz efeito, já não me mata, apenas mói, corrói, dói. Apenas me faz ficar aqui encostada a esta parede a olhar para aquele mosquitinho irritante a afogar-se no leite do gato. Raiva de o ver a agonizar, raiva de saber que o posso salvar e não faço porque tenho o corpo preso com linhas de coser, cozer; palavreados e composições. Merda textual que me mordisca os pensamentos.
Tic Tac sem parar.
Perda, prisão, afição, ferrugem.

C O R R O S ã o do eu.

Crime


Agendando a vida enquanto se vive.

Imperativo

porquê
para quê

berros de ordem

quando basta uma palavra meiga

dois.

um.
Tento acalmar as vozes cá dentro; mas só se faz silêncio quando a minha boca deixa fugir, nem que seja aos solavancos, um jorro de verdade.

um.
Deixei de perceber o que é esta coisa a que chamam viver;
E por causa desses que o dizem saber,
estou só.

Máscara


Corre-se pelas ruas e ama-se às esquinas com um calor desenfreado. Um vai e vem espasmódico de ancas que inunda a espessura da noite. Depois, contando as moedas proporcionais ao vazio da alma, limpam aos lenços a vergonha já agarrada à máscara , e dormem como anjos.

Os valores constrangem,


[porque enquanto correm lírios soltos pelas belas e serenas artérias do corpo; é contínua a perda de tempo com enigmas, leis e regras de conduta.]

Seres-padrão


A bolha invisível,
imperfurável
não permite que se viva
no sonho
e não adianta
mascararmo-nos
de tolerantes ou conformados,
ou ainda de felizes
por termos um amor
de mão ou de bolso.

Porque somos átomos esborratados pelos pensamentos
uns
dos outros.


life at the next stop



Os motores pulsam lentamente pelas estradas de sangue nas noites de sono, assim que os corpos se deleitam nos lençóis alvos e sós. A eles, os cérebros mirrados lambem, deglutem o desejo de enganar os inconscientes, dando-lhes a sensação do sonho, do irreal, daquilo que nunca terão coragem de fazer. A eles, moem as memórias com monstros e situações recorrentes que lhes causam pavor. A eles, rasgam a carne com as agulhas das injecções de adrenalina pelo corpo dormente e (se julga) adormecido. A eles, os pesadelos mostram a horrível realidade, em contraste aos momentos felizes.
Amanhece.
Os motores voltam ao ritmo diurno e o esfregar os olhos acompanha um sentimento de segurança, de serem seres inatingíveis pelos sonhos e memórias facilmente ultrapassáveis. Sentem-se realmente acordados, bem como capazes de comprar uma passagem para o paraíso no quiosque mais próximo.
A eles, o sonho traz mais vida que a própria. A eles, os cérebros tentam dizer que memória é mais que quatro paredes e um gás esguio que lhes entra pelo nariz e lhes sai pela boca. A eles, foi incutido um padrão demasiado rígido capaz de tornar a busca da felicidade inconsequente.

(Fotografia de Paulo Ribeiro, com agradecimentos)