Crime


Agendando a vida enquanto se vive.

Imperativo

porquê
para quê

berros de ordem

quando basta uma palavra meiga

dois.

um.
Tento acalmar as vozes cá dentro; mas só se faz silêncio quando a minha boca deixa fugir, nem que seja aos solavancos, um jorro de verdade.

um.
Deixei de perceber o que é esta coisa a que chamam viver;
E por causa desses que o dizem saber,
estou só.

Máscara


Corre-se pelas ruas e ama-se às esquinas com um calor desenfreado. Um vai e vem espasmódico de ancas que inunda a espessura da noite. Depois, contando as moedas proporcionais ao vazio da alma, limpam aos lenços a vergonha já agarrada à máscara , e dormem como anjos.

Os valores constrangem,


[porque enquanto correm lírios soltos pelas belas e serenas artérias do corpo; é contínua a perda de tempo com enigmas, leis e regras de conduta.]

Seres-padrão


A bolha invisível,
imperfurável
não permite que se viva
no sonho
e não adianta
mascararmo-nos
de tolerantes ou conformados,
ou ainda de felizes
por termos um amor
de mão ou de bolso.

Porque somos átomos esborratados pelos pensamentos
uns
dos outros.


life at the next stop



Os motores pulsam lentamente pelas estradas de sangue nas noites de sono, assim que os corpos se deleitam nos lençóis alvos e sós. A eles, os cérebros mirrados lambem, deglutem o desejo de enganar os inconscientes, dando-lhes a sensação do sonho, do irreal, daquilo que nunca terão coragem de fazer. A eles, moem as memórias com monstros e situações recorrentes que lhes causam pavor. A eles, rasgam a carne com as agulhas das injecções de adrenalina pelo corpo dormente e (se julga) adormecido. A eles, os pesadelos mostram a horrível realidade, em contraste aos momentos felizes.
Amanhece.
Os motores voltam ao ritmo diurno e o esfregar os olhos acompanha um sentimento de segurança, de serem seres inatingíveis pelos sonhos e memórias facilmente ultrapassáveis. Sentem-se realmente acordados, bem como capazes de comprar uma passagem para o paraíso no quiosque mais próximo.
A eles, o sonho traz mais vida que a própria. A eles, os cérebros tentam dizer que memória é mais que quatro paredes e um gás esguio que lhes entra pelo nariz e lhes sai pela boca. A eles, foi incutido um padrão demasiado rígido capaz de tornar a busca da felicidade inconsequente.

(Fotografia de Paulo Ribeiro, com agradecimentos)

Loop

O futuro é passivel de ser previsível quando se é escritor;
o suspiro da surpresa é contido e dá-se conta
das constantes anáforas da vida.


(foto de Paulo Alegria)

The sparkling diamond


Bicolor, bífido, hibrido; falso?

Bloqueio

Roço os dedos pelas teclas
[estímulos invisíveis que o meu corpo transporta ao cérebro]
afogo-as com lágrimas invisíveis;
[o retorno]
estou dormente dos pensamentos
[tudo parece mecânico]
não me consigo solver em palavras.

Solto

Mau não é ser mau, mas ser nulo.

Pai,

pega-me pelo braço como quem castiga uma criança, diz que nunca fui aquilo que querias, diz que me tornei uma aberração.E tudo por causa da minha necessidade de me viciar nas drogas da preguiça e do comodismo.
Desliza pelo meu corpo uma lâmina que me corte o corpo à profundidade da alma; faz-me ver que preciso de um rumo, que o tenho de encontrar em vez de me rotinizar. Mostra-me que sou capaz de ser, de te ser, de ser o mundo que sempre quis dominar a brincar.Puxa-me pelas orelhas como às crianças e diz-me o que deva fazer,ensina-me a pescar. Dá-me liberdade de criar, injecta-me nas veias esse néctar a que chamam de talento, de génio. Faz-me ser grande, faz com que ensinem às crianças aquilo que uma vez eu disse ou escrevi, faz-me inventar algo nesta imensidão de gente que vive a morrer.
Porque sem isso, Pai, nunca saberei rir.

nove

não me sinto capaz.

Silêncio

vive por não morrer
com um coração enrugado e imune aos pedaços de droga dos médicos.

Dizem que arranha, berra, grita, de dor
em ter a doença num corpo que resistiu aos recortes da alma
em jeito de suicídio.

os velhos dizem que ele tem cancro do amor, doença da alma
os médicos matam-no aos poucos com destilações para a loucura.

todos falam daquele que um dia vagueava nas ruas a gritar por
ajuda.
todos
todos falam
todos falam sem calar
todos falam sem calar as bocas cheias
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos nas noites de sexo forçado
sem amor.
porque só falam
todos

todos falam
só falam
e não ouvem.

Eu, eu.

Eu, cientista
Crio mil e um pretextos para escrever matematismos. Procuro teorias e teses políticas, estudo-as, nego-as. Torno-me um ser ruminante do conhecimento, enquanto o mostro com toda a pompa. Sou cientista quando vejo que não há saida quando não o sou, pois crio sempre patamares altos ao ponto de me superar. E quando me supero sinto-me o ser mais alto de todo o planeta, forte e capaz de desafiar as gravidades da existência. Dá-se início à época de cedência às princesices. Deixo de me achar mesquinha, bem como aos sentidos. Deixo-me ir pelas surpresas, e acredito que são a verdade mais cristalina. Pois se me supero cá dentro, conseguirei superar-me à vista do outro, e sentir sem medo.

Eu, princesa
É tão bom saltar ao som da música que mais gosto e que melhor me faz sentir. Melhor ainda quando choro sem razão, culpando a parte fria de mim. E danço valsas em pensamentos fugazes que me trazem recordações de amores antigos, que torturam os actuais. Iludo-me como um palhaço velho que ainda pensa causar gargalhadas. Até que de noite tremo de medo do mundo, e escrevo sem raiva. Nessa minha loucura nunca peço um mundo melhor, apenas um melhoramento de mim. Por acabo sempre por pensar que sinto, e que tenho sucesso no que faço. Mas não. Caio em devaneios sem fundamento e em sinestesias a que os meus sentidos acabam por corresponder. E aí passo a negar-me:
- Sentimentalóide, sentimentalona.

Eu, ciumenta
Imagino-te e vomito todas as palavras ~onas, ~óides. Pego na faca mais afiada e fina que vejo; degladio-me com as tuas entranhas até que o sangue me dê prazer. É inveja. É dor de não poder estar à tua altura. É ciume doentio a tal ponto que salivo de raiva quando te leio. E tu és daqueles tipinho de gentinha pelo qual eu dava a minha carne: como eu, como nós, podre. Mal de mim ver-te como alguém adversário, mas não me abstraio da tua ruindade deliciosa. Derretes o meu coraçãozinho com um olhar teu, mesmo que falso e nojento. É triste. É vão, sentir ciúmes dos próprios sentidos, de mim mesma. Mas sinto.


Compasso

...um dois três, uma volta, mais uma, um passo à esquerda, dois à direita, uma vénia...

A vida seria bem mais divertida se a nossa estrada fosse um palco, e o barulho dos carros a banda sonora de um musical.

Marasmo emocional, épocas de

porque ainda há quem pense que amar é uma obrigação humana;
face a todo este ódio que se produz.

porque ainda se condena moralmente,
quando nas ruas passeiam esponjas absorvidas no seu próprio ego.

porque ínfima é a consciência de que somos nós os assassinos do elixir da vida eterna;

a cada dia deixamo-nos morrer um pouco.

porque somos
(im)perfeitos.

Ultimato

O auge da cri-[a(c)-ção]
dá-se na pe-ne-[tra(c)-ção] da falsidade
em todas as es[feras] da vida.

Depois,
há aqueles que se deixam escorregar pelos gritos até sentirem o chão frio do pranto.

[Primeira leitura: As melhores criações advêm das alturas em que se esconde a loucura, e se mente ao real para tudo parecer calmo e harmonioso; não existe mais que um desespero vergonhoso e latente. As outras, que surgem das situações de tristeza declarada não terão a mesma intensidade, pois as lágrimas acabam sempre por atenuar a dor, e arrefecer o ambiente.

Segunda leitura: A liberdade acontece quando os medos se vão e o ser humano age sem precedência condicionantes, quando há força e inteligência para o conseguir. Aqueles que se deixam enterrar pelas próprias dores, perdem o rastilho de esperança, e mergulham no medo e na mentira.

Suma: Existirá uma relação antitética entre criação e plenitude; o Homem é livre quando perde os medos, mas só cria quando esconde, quando se abstrai da pluralidade a que é submetido. A pergunta põe-se na possível conjugação da Criação e Liberdade, ou seja, se o ser humano poderá coexistir com o fingimento, sem possuir o medo.]

(editado)

Depois da Meia Noite

Passam nove minutos da meia noite e eu penso em ti. Revejo todos os momentos que temos tido, tudo o que temos crescido. E sabe bem chegar a casa cansada e saber que temos alguém que nos aconchega no colo e dos acaricia o cabelo até adormecermos. Que sentimos a pelnitude do outro em nós mesmos, que somos um chá purificante das dores salgadas que não descolam da nossa pele. Um beijo pequeno, uma abraço, um toque teu - é o que basta para me sentir em paz e em plena liberdade. É perfeito, é forte e no mesmo tempo frágil como uma gota da sangue que escorrega e se esvai. Mas faz-nos sentir vivos, faz-nos ter vontade de criar às mais loucas horas e situações, faz-nos rir, faz-nos chorar.
(Ininterruptamente, continuo.)