The sparkling diamond


Bicolor, bífido, hibrido; falso?

Bloqueio

Roço os dedos pelas teclas
[estímulos invisíveis que o meu corpo transporta ao cérebro]
afogo-as com lágrimas invisíveis;
[o retorno]
estou dormente dos pensamentos
[tudo parece mecânico]
não me consigo solver em palavras.

Solto

Mau não é ser mau, mas ser nulo.

Pai,

pega-me pelo braço como quem castiga uma criança, diz que nunca fui aquilo que querias, diz que me tornei uma aberração.E tudo por causa da minha necessidade de me viciar nas drogas da preguiça e do comodismo.
Desliza pelo meu corpo uma lâmina que me corte o corpo à profundidade da alma; faz-me ver que preciso de um rumo, que o tenho de encontrar em vez de me rotinizar. Mostra-me que sou capaz de ser, de te ser, de ser o mundo que sempre quis dominar a brincar.Puxa-me pelas orelhas como às crianças e diz-me o que deva fazer,ensina-me a pescar. Dá-me liberdade de criar, injecta-me nas veias esse néctar a que chamam de talento, de génio. Faz-me ser grande, faz com que ensinem às crianças aquilo que uma vez eu disse ou escrevi, faz-me inventar algo nesta imensidão de gente que vive a morrer.
Porque sem isso, Pai, nunca saberei rir.

nove

não me sinto capaz.

Silêncio

vive por não morrer
com um coração enrugado e imune aos pedaços de droga dos médicos.

Dizem que arranha, berra, grita, de dor
em ter a doença num corpo que resistiu aos recortes da alma
em jeito de suicídio.

os velhos dizem que ele tem cancro do amor, doença da alma
os médicos matam-no aos poucos com destilações para a loucura.

todos falam daquele que um dia vagueava nas ruas a gritar por
ajuda.
todos
todos falam
todos falam sem calar
todos falam sem calar as bocas cheias
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos
todos falam sem calar as bocas cheias de nojos esquecidos nas noites de sexo forçado
sem amor.
porque só falam
todos

todos falam
só falam
e não ouvem.

Eu, eu.

Eu, cientista
Crio mil e um pretextos para escrever matematismos. Procuro teorias e teses políticas, estudo-as, nego-as. Torno-me um ser ruminante do conhecimento, enquanto o mostro com toda a pompa. Sou cientista quando vejo que não há saida quando não o sou, pois crio sempre patamares altos ao ponto de me superar. E quando me supero sinto-me o ser mais alto de todo o planeta, forte e capaz de desafiar as gravidades da existência. Dá-se início à época de cedência às princesices. Deixo de me achar mesquinha, bem como aos sentidos. Deixo-me ir pelas surpresas, e acredito que são a verdade mais cristalina. Pois se me supero cá dentro, conseguirei superar-me à vista do outro, e sentir sem medo.

Eu, princesa
É tão bom saltar ao som da música que mais gosto e que melhor me faz sentir. Melhor ainda quando choro sem razão, culpando a parte fria de mim. E danço valsas em pensamentos fugazes que me trazem recordações de amores antigos, que torturam os actuais. Iludo-me como um palhaço velho que ainda pensa causar gargalhadas. Até que de noite tremo de medo do mundo, e escrevo sem raiva. Nessa minha loucura nunca peço um mundo melhor, apenas um melhoramento de mim. Por acabo sempre por pensar que sinto, e que tenho sucesso no que faço. Mas não. Caio em devaneios sem fundamento e em sinestesias a que os meus sentidos acabam por corresponder. E aí passo a negar-me:
- Sentimentalóide, sentimentalona.

Eu, ciumenta
Imagino-te e vomito todas as palavras ~onas, ~óides. Pego na faca mais afiada e fina que vejo; degladio-me com as tuas entranhas até que o sangue me dê prazer. É inveja. É dor de não poder estar à tua altura. É ciume doentio a tal ponto que salivo de raiva quando te leio. E tu és daqueles tipinho de gentinha pelo qual eu dava a minha carne: como eu, como nós, podre. Mal de mim ver-te como alguém adversário, mas não me abstraio da tua ruindade deliciosa. Derretes o meu coraçãozinho com um olhar teu, mesmo que falso e nojento. É triste. É vão, sentir ciúmes dos próprios sentidos, de mim mesma. Mas sinto.


Compasso

...um dois três, uma volta, mais uma, um passo à esquerda, dois à direita, uma vénia...

A vida seria bem mais divertida se a nossa estrada fosse um palco, e o barulho dos carros a banda sonora de um musical.

Marasmo emocional, épocas de

porque ainda há quem pense que amar é uma obrigação humana;
face a todo este ódio que se produz.

porque ainda se condena moralmente,
quando nas ruas passeiam esponjas absorvidas no seu próprio ego.

porque ínfima é a consciência de que somos nós os assassinos do elixir da vida eterna;

a cada dia deixamo-nos morrer um pouco.

porque somos
(im)perfeitos.

Ultimato

O auge da cri-[a(c)-ção]
dá-se na pe-ne-[tra(c)-ção] da falsidade
em todas as es[feras] da vida.

Depois,
há aqueles que se deixam escorregar pelos gritos até sentirem o chão frio do pranto.

[Primeira leitura: As melhores criações advêm das alturas em que se esconde a loucura, e se mente ao real para tudo parecer calmo e harmonioso; não existe mais que um desespero vergonhoso e latente. As outras, que surgem das situações de tristeza declarada não terão a mesma intensidade, pois as lágrimas acabam sempre por atenuar a dor, e arrefecer o ambiente.

Segunda leitura: A liberdade acontece quando os medos se vão e o ser humano age sem precedência condicionantes, quando há força e inteligência para o conseguir. Aqueles que se deixam enterrar pelas próprias dores, perdem o rastilho de esperança, e mergulham no medo e na mentira.

Suma: Existirá uma relação antitética entre criação e plenitude; o Homem é livre quando perde os medos, mas só cria quando esconde, quando se abstrai da pluralidade a que é submetido. A pergunta põe-se na possível conjugação da Criação e Liberdade, ou seja, se o ser humano poderá coexistir com o fingimento, sem possuir o medo.]

(editado)

Depois da Meia Noite

Passam nove minutos da meia noite e eu penso em ti. Revejo todos os momentos que temos tido, tudo o que temos crescido. E sabe bem chegar a casa cansada e saber que temos alguém que nos aconchega no colo e dos acaricia o cabelo até adormecermos. Que sentimos a pelnitude do outro em nós mesmos, que somos um chá purificante das dores salgadas que não descolam da nossa pele. Um beijo pequeno, uma abraço, um toque teu - é o que basta para me sentir em paz e em plena liberdade. É perfeito, é forte e no mesmo tempo frágil como uma gota da sangue que escorrega e se esvai. Mas faz-nos sentir vivos, faz-nos ter vontade de criar às mais loucas horas e situações, faz-nos rir, faz-nos chorar.
(Ininterruptamente, continuo.)

Vergonha

Medo da Vergonha?
Não.
Vergonha do Medo?
Sim.
Vergonha da Existência?
Acabas de nascer e és repleto de vergonhas. Cresces e acabas por ser vergonhoso.
Vergonha de Escrever?
Não.
Escrever a Vergonha?
Difícil.
Envergonhar Palavras?
Mais simples, elas são voláteis.
Vergonha de Perguntas?
Sempre.
Medo de Perguntas?
Só se tiver vergonha.
Das minhas?
Até das minhas.

Cura II

Disponho as palavras de modo diferente e reinvento a minha já inerte maneira de escrever. Vejo-me de fora sem a dependência do meu corpo às minhas doenças: como se não me fosse; sem as feridas em grito. Critico-me sem mágoa. Escrevo com a caneta sem a minha tinta em constante indecisão.
Nesta visão de fora que me constrói, crio finalmente uma ideia real do que transpareço. Mas (re)reflectir-me na retina recria também uma nova alteração no que pareço. O processo é anulado, falha-se a tentativa de ter uma visão fugaz e isenta desde eu que ando a tentar descobrir( e talvez gostar): o meu corpo insiste em ser-me, em aperceber-se de que eu o observo. E aí, baixo a cabeça e abstraio-me, até voltar a reconhecer a minha voz.

Cura

Eleva os braços aos céus e dança entre os pingos delicados de chuva.
[A beleza]
Sente a vida a correr nas veias, sente o coração que pulsa a tua mente.
[A indissociabilidade]
Despe-te no meio da multidão envergonhada e ofende-te aos gritos.
[A diferença]
Imuniza-te ao pudor que tens de ti mesma.
[O crescimento]
Olha o teu corpo como uma continuação importante de ti , de mim e do mundo.
[Os pensamentos]
Vejamos o nosso reflexo com um sorriso.
[O processo]
Dança hoje e amanhã, até que nos doam os músculos de tanta grandiosidade.
[A sinestesia]
Não cries a dependência como se fossem partes diversas e separadas de ti.
[O sangue]
Tira o problema dos problemas e dos conceitos, dos problemas dos conceitos e do conceito de problema.
[A liberdade]
Sejamos plenos dentro dos nossos corpos.
[A fusão]
Sintamo-nos finalmente nós.
[A felicidade]

Oscilações

Às vezes gostava de saber representar;
às vezes queria ter mais tempo para mim;
às vezes queria ter talento;
às vezes queria gostar menos de mim;
às vezes gostava de ser mais séria;
às vezes gostava de parar o tempo;
às vezes gostava de me conhecer;
às vezes gostava de não saber escrever;
às vezes queria acreditar em Deus;
às vezes preferia saber mais;
às vezes sonho em voar;
às vezes quero ler durante horas a fio sem comer sequer;
às vezes quero afogar-me com a minha própria ansiedade;
às vezes gostava de me chamar pelo nome;
às vezes preferia ver-me do lado de fora.
Às vezes perco-me em desejos diletantes,
outras vezes reduzo-me ao que de maravilhoso tenho.

Curta-metragem

Os teus traços parecem ainda mais perfeitos à luz do desejo. Fecho os olhos e aperto-te contra mim, na necessidade de sermos unos de uma vez por todas. Lutamos contra a natureza e deixamos que uma gota de suor nos percorra o tronco. Olho-te de maneira estranha, olhas-me da mesma forma - já não somos crianças, já não nos vemos como tal. Os beijos salgados já não são inocentes, e percorremos o corpo um do outro na tentativa de beber o néctar que até agora tanto nos uniu. O desejo apodera-se de nós, deixamos de ser apaixonados para sermos carnalmente atraentes um ao outro. Fundimo-nos em função da carne, olhamo-nos em função do amor, e deixamos de o sentir por momentos para o tentarmos fazer. Os lençóis são àsperos ao toque da tua pele, o ar que respiro é amargo aos teus beijos suculentos e desejosos, o pensamento é seco aos nossos corpos húmidos, e o odor a luxúria deixa de nos ser estranho.

Rebanho

Escrevemos sem ser escritores. Somos egoístas com uma arma apontada à cabeça. Mas Ninguém nos ouve nas noites de grito, nem no riso mentiroso. Berrarias mudas que apontam o dedo ao mundo, na espectativa que alguém nos faça o mesmo. Somos loucos desesperados de alguma atenção. Somos crianças sem vida própria, com um vazio cheio de livros e palavras. Somos adultos opacos, escondemos a nossa demência na demência do mundo. Dia. Noite. Dia. Noite. Dia. Noite.Pausa. Os insanos não dormem, apenas produzem na sua ânsia de parar o tempo. Somos egoístas porque simplesmente não temos nada. Somos vazios mentirosos, falsos. Não somos escritores, mas apenas medíocres a querer alguma atenção. Escrevemos coisas loucas, boas ou más, mentiras ou clarividências, azuis ou verdes. Escrevemos sempre na tentativa de sermos avaliados. Uma. Outra vez. Mais uma. E mesmo que não gostemos - uma e outra vez. Porque nos sentimos vivos. Porque nos sentimos menos loucos. Porque alguém reparou numa palavra nossa. Porque por segundos nos achamos artistas, por muito medíocres que nos achem.

Acessório de Refletância de Ângulo Raso

Quando o mundo já nos parece previsível na sua forma, descobrimos perspectivas novas de ver o que nos rodeia.



(sendo elas finitas, o nosso prazo de validade é demasiado robusto para as conseguirmos ver todas enquanto vivos)

Quisera que chegasse

Consegues lembrar-te do ultimo abraço carinhoso que recebeste?
Ainda te lembras do que sentiste?
Consegues trespassar para a medíocre invenção da escrita o que pensaste e guardaste?

Nem eu.

Auto-hetero-auto Retrato

Eu.
Face rosa de desamor, olhar azul de mar.
Águas revoltas, passado presente, amor latente.

Tu.
Lábios doces de delícia, braços e mãos rasgados em carícia.
Brincadeiras inocentes, precedências inerentes.
Amor puro, amor verdadeiro, amor teu.

Tu, eu.
Corpos aquecidos pela paixão e pela injustiça.
Um leque de confidências, uma mão cheia de incoerências.

Eu, tu.
Olhares cegos de visão e de razão.
Paixão permanente, coração latejante, pensamento vadio- e por isso vazio.

Nós.
Uma criança carinhosa, um pomar colorido.
Um cacho de saudade, cujos bagos são saboreados em momentos escassos( e deliciosos).