Compasso

...um dois três, uma volta, mais uma, um passo à esquerda, dois à direita, uma vénia...

A vida seria bem mais divertida se a nossa estrada fosse um palco, e o barulho dos carros a banda sonora de um musical.

Marasmo emocional, épocas de

porque ainda há quem pense que amar é uma obrigação humana;
face a todo este ódio que se produz.

porque ainda se condena moralmente,
quando nas ruas passeiam esponjas absorvidas no seu próprio ego.

porque ínfima é a consciência de que somos nós os assassinos do elixir da vida eterna;

a cada dia deixamo-nos morrer um pouco.

porque somos
(im)perfeitos.

Ultimato

O auge da cri-[a(c)-ção]
dá-se na pe-ne-[tra(c)-ção] da falsidade
em todas as es[feras] da vida.

Depois,
há aqueles que se deixam escorregar pelos gritos até sentirem o chão frio do pranto.

[Primeira leitura: As melhores criações advêm das alturas em que se esconde a loucura, e se mente ao real para tudo parecer calmo e harmonioso; não existe mais que um desespero vergonhoso e latente. As outras, que surgem das situações de tristeza declarada não terão a mesma intensidade, pois as lágrimas acabam sempre por atenuar a dor, e arrefecer o ambiente.

Segunda leitura: A liberdade acontece quando os medos se vão e o ser humano age sem precedência condicionantes, quando há força e inteligência para o conseguir. Aqueles que se deixam enterrar pelas próprias dores, perdem o rastilho de esperança, e mergulham no medo e na mentira.

Suma: Existirá uma relação antitética entre criação e plenitude; o Homem é livre quando perde os medos, mas só cria quando esconde, quando se abstrai da pluralidade a que é submetido. A pergunta põe-se na possível conjugação da Criação e Liberdade, ou seja, se o ser humano poderá coexistir com o fingimento, sem possuir o medo.]

(editado)

Depois da Meia Noite

Passam nove minutos da meia noite e eu penso em ti. Revejo todos os momentos que temos tido, tudo o que temos crescido. E sabe bem chegar a casa cansada e saber que temos alguém que nos aconchega no colo e dos acaricia o cabelo até adormecermos. Que sentimos a pelnitude do outro em nós mesmos, que somos um chá purificante das dores salgadas que não descolam da nossa pele. Um beijo pequeno, uma abraço, um toque teu - é o que basta para me sentir em paz e em plena liberdade. É perfeito, é forte e no mesmo tempo frágil como uma gota da sangue que escorrega e se esvai. Mas faz-nos sentir vivos, faz-nos ter vontade de criar às mais loucas horas e situações, faz-nos rir, faz-nos chorar.
(Ininterruptamente, continuo.)

Vergonha

Medo da Vergonha?
Não.
Vergonha do Medo?
Sim.
Vergonha da Existência?
Acabas de nascer e és repleto de vergonhas. Cresces e acabas por ser vergonhoso.
Vergonha de Escrever?
Não.
Escrever a Vergonha?
Difícil.
Envergonhar Palavras?
Mais simples, elas são voláteis.
Vergonha de Perguntas?
Sempre.
Medo de Perguntas?
Só se tiver vergonha.
Das minhas?
Até das minhas.

Cura II

Disponho as palavras de modo diferente e reinvento a minha já inerte maneira de escrever. Vejo-me de fora sem a dependência do meu corpo às minhas doenças: como se não me fosse; sem as feridas em grito. Critico-me sem mágoa. Escrevo com a caneta sem a minha tinta em constante indecisão.
Nesta visão de fora que me constrói, crio finalmente uma ideia real do que transpareço. Mas (re)reflectir-me na retina recria também uma nova alteração no que pareço. O processo é anulado, falha-se a tentativa de ter uma visão fugaz e isenta desde eu que ando a tentar descobrir( e talvez gostar): o meu corpo insiste em ser-me, em aperceber-se de que eu o observo. E aí, baixo a cabeça e abstraio-me, até voltar a reconhecer a minha voz.

Cura

Eleva os braços aos céus e dança entre os pingos delicados de chuva.
[A beleza]
Sente a vida a correr nas veias, sente o coração que pulsa a tua mente.
[A indissociabilidade]
Despe-te no meio da multidão envergonhada e ofende-te aos gritos.
[A diferença]
Imuniza-te ao pudor que tens de ti mesma.
[O crescimento]
Olha o teu corpo como uma continuação importante de ti , de mim e do mundo.
[Os pensamentos]
Vejamos o nosso reflexo com um sorriso.
[O processo]
Dança hoje e amanhã, até que nos doam os músculos de tanta grandiosidade.
[A sinestesia]
Não cries a dependência como se fossem partes diversas e separadas de ti.
[O sangue]
Tira o problema dos problemas e dos conceitos, dos problemas dos conceitos e do conceito de problema.
[A liberdade]
Sejamos plenos dentro dos nossos corpos.
[A fusão]
Sintamo-nos finalmente nós.
[A felicidade]

Oscilações

Às vezes gostava de saber representar;
às vezes queria ter mais tempo para mim;
às vezes queria ter talento;
às vezes queria gostar menos de mim;
às vezes gostava de ser mais séria;
às vezes gostava de parar o tempo;
às vezes gostava de me conhecer;
às vezes gostava de não saber escrever;
às vezes queria acreditar em Deus;
às vezes preferia saber mais;
às vezes sonho em voar;
às vezes quero ler durante horas a fio sem comer sequer;
às vezes quero afogar-me com a minha própria ansiedade;
às vezes gostava de me chamar pelo nome;
às vezes preferia ver-me do lado de fora.
Às vezes perco-me em desejos diletantes,
outras vezes reduzo-me ao que de maravilhoso tenho.

Curta-metragem

Os teus traços parecem ainda mais perfeitos à luz do desejo. Fecho os olhos e aperto-te contra mim, na necessidade de sermos unos de uma vez por todas. Lutamos contra a natureza e deixamos que uma gota de suor nos percorra o tronco. Olho-te de maneira estranha, olhas-me da mesma forma - já não somos crianças, já não nos vemos como tal. Os beijos salgados já não são inocentes, e percorremos o corpo um do outro na tentativa de beber o néctar que até agora tanto nos uniu. O desejo apodera-se de nós, deixamos de ser apaixonados para sermos carnalmente atraentes um ao outro. Fundimo-nos em função da carne, olhamo-nos em função do amor, e deixamos de o sentir por momentos para o tentarmos fazer. Os lençóis são àsperos ao toque da tua pele, o ar que respiro é amargo aos teus beijos suculentos e desejosos, o pensamento é seco aos nossos corpos húmidos, e o odor a luxúria deixa de nos ser estranho.

Rebanho

Escrevemos sem ser escritores. Somos egoístas com uma arma apontada à cabeça. Mas Ninguém nos ouve nas noites de grito, nem no riso mentiroso. Berrarias mudas que apontam o dedo ao mundo, na espectativa que alguém nos faça o mesmo. Somos loucos desesperados de alguma atenção. Somos crianças sem vida própria, com um vazio cheio de livros e palavras. Somos adultos opacos, escondemos a nossa demência na demência do mundo. Dia. Noite. Dia. Noite. Dia. Noite.Pausa. Os insanos não dormem, apenas produzem na sua ânsia de parar o tempo. Somos egoístas porque simplesmente não temos nada. Somos vazios mentirosos, falsos. Não somos escritores, mas apenas medíocres a querer alguma atenção. Escrevemos coisas loucas, boas ou más, mentiras ou clarividências, azuis ou verdes. Escrevemos sempre na tentativa de sermos avaliados. Uma. Outra vez. Mais uma. E mesmo que não gostemos - uma e outra vez. Porque nos sentimos vivos. Porque nos sentimos menos loucos. Porque alguém reparou numa palavra nossa. Porque por segundos nos achamos artistas, por muito medíocres que nos achem.

Acessório de Refletância de Ângulo Raso

Quando o mundo já nos parece previsível na sua forma, descobrimos perspectivas novas de ver o que nos rodeia.



(sendo elas finitas, o nosso prazo de validade é demasiado robusto para as conseguirmos ver todas enquanto vivos)

Quisera que chegasse

Consegues lembrar-te do ultimo abraço carinhoso que recebeste?
Ainda te lembras do que sentiste?
Consegues trespassar para a medíocre invenção da escrita o que pensaste e guardaste?

Nem eu.

Auto-hetero-auto Retrato

Eu.
Face rosa de desamor, olhar azul de mar.
Águas revoltas, passado presente, amor latente.

Tu.
Lábios doces de delícia, braços e mãos rasgados em carícia.
Brincadeiras inocentes, precedências inerentes.
Amor puro, amor verdadeiro, amor teu.

Tu, eu.
Corpos aquecidos pela paixão e pela injustiça.
Um leque de confidências, uma mão cheia de incoerências.

Eu, tu.
Olhares cegos de visão e de razão.
Paixão permanente, coração latejante, pensamento vadio- e por isso vazio.

Nós.
Uma criança carinhosa, um pomar colorido.
Um cacho de saudade, cujos bagos são saboreados em momentos escassos( e deliciosos).

Vice-versa

- O meu batom é lilás brilhante. A minha caneta de sublinhar é púrpura. A minha pele é semi-transparente. A minha altura é 1.60 m. Roo as unhas. Tenho sangue plebeu.
E se o meu batom fosse verde, a minha caneta de sublinhar azul, a minha pele opaca, a minha altura 1.80 m, as minhas unhas bonitas e cuidadas, e meu sangue fosse azul?

- Se o fosses, pensarias o inverso.

Tolos

quando ainda somos poéticos numa cobertura de betão.
ridículos?
(Sorrio e nego com a cabeça)

Pausa

Façamos uma pausa no blog. Só para comunicar a minha alegria extrema de saber que a minha cunhada está de bebé, e que vou ser tia :D
Parabéns ao meu manusco :D
Aweeee

Ao Krip, do Caneta sem Tinta

É com alguma tristeza que vejo um blog como o "Caneta sem tinta" admitir o seu fim. Através do seu autor, conheci uma infinidade de pessoas que hoje me fazem sorrir, apr(e)endi palavras e ideias, emocionei-me, entristeci, sorri, revoltei-me, senti.

G*, meu querido amigo imaginário. Ainda te lembras quando passámos horas a dizer mal do mundo? Foram poucas, comparadas com as que ganhámos em apontar defeitos um ao outro. Tornámo-nos em dois animais desenhados por crianças, rolámos na relva, insultámo-nos, fingimos, amámos como quem ama uma borboleta que nos atravessa o caminho na cidade. Fizeste as malas, mas não quero que partas (ainda).

Lembra-te que me deves o Omnia Mutantur em papel.
Lembra-te dos 'foolish games'.
Lembra-te de tudo o que fingimos lembrar-mo-nos.
Lembra-te que deixámos de ser crianças.
Lembra-te do nosso filme preferido.
Lembra-te de teres andado com o meu saco um dia inteiro.
Lembra-te de teres lido "A Aparição".
Lembra-te das perguntas e das não-respostas.
Lembra-te da "fotologoesfera".
Lembra-te que temos uma fotografia juntos.
Lembra-te que conheci quem me roubou o coração através de ti.
Lembra-te da minha insistência no número 9.
Lembra-te do presente que me deste.
Lembra-te de Lilith.
Lembra-te das coisas sem sentido.
Lembra-te que me contrariaste milhões de vezes até nos conhecermos.
Lembra-te que sabemos o nome completo e data de nascimento um do outro.
Lembra-te que tinhas razão.
Lembra-te de momentos e memórias.
Lembra-te de coisas que ainda não sabes.
Lembra-te da importância das tuas palavras para mim, para o mundo.
Mas não me lembres, parte.

Ab irato

Tenho pesadelos como as crianças;
e não me sei rir deles, como as crianças.
Aconchego-me no teu corpo e peço protecção, como as crianças.
Evito chorar com medo de piorar, como fazia em criança.

Mas cresci, como as crianças.
E ainda rebolo na cama sem sono,
mas já não chamo pela mãe.

Já tenho mais anos-luz que dedos nas mãos,
sei escrever há tempo de mais para me lembrar de quando aprendi.
(como gostava me recordar de tentar pegar num lápis com o desajeito que me é intrínseco)

O cabelo escureceu,
tornei-me num pseudo-camaleão armado em poeta.
Já me sinto responsável - e já me doem as costas por isso.

Confissão

Talvez o meu maior erro seja não me saber expressar, de modo a que os outros percebam o que desde sempre percebi; pois fico sempre na esperança que a maioria das pessoas me perceba sem que tenha de falar.

Nado não vivo

As palavras são ridículas
Verdes, podres.
Tuas.

Envergonhas o chão que pisas,
mostras-te o que não és.
Metes nojo aos transeuntes,
enojas-te a ti próprio.

És mendigo de ti mesmo,
és um pedinte de nenhures.

E carregas a ingenuidade tórrida de um corpo asqueroso
que oferece náuseas ao mais rico homem.

E gritas que és sem o ser,
mas na verdade nunca foste,
nem sequer na ultima garrafa de vinho barato que deglutiste,
e muito menos nalgum olhar que ofereceste.

Consola-te pobre cego, que mesmo a ver não deixas de o ser.
Embriaga-te em sonhos e ilusões,
veste roupas largas e goza com anões,
vive na vontade de morrer!
Mas na tua lúcubre visita à terra,
o escuro alcatrão que calcaste
não passa de uma farsa de que te apropriaste.

Convence-te pobre porco,
que quem te julga com tamanho nojo como eu,
nunca será tão odiado como és!
Nesse teu ínfimo mundo azul,
ao qual olhas com prazer...
sem nunca teres chegado a nascer.