T Dois

Olho a moldura de letras que na minha frente se apresenta mais uma vez. Delineio os seus traços como se fosse a primeira vez que escrevia publicamente. Um pedaço de vidro partido que por momentos desvia a atenção das minhas palavras, uma ambulância que chega. Reparo mais uma vez nas frases escritas nas mesas alvas na minha frente em jeito de heresia, revolta contra o invisível, expressão da violência de uma aprendizagem voluntária que hoje em dia é obrigatória. Desvio o meu olhar por momentos para uma frase dita por um colega, troco um olhar de cumplicidade amargo. Nas ondulações de humanos que na minha frente escrevem frenéticamente sem que sejam dominados pela minha diletância, ou mesmo inércia. Perco-me do raciocínio que o enforcado na frente apresenta, e disperso-me no meu pensamento enquanto olho a luz imunda que pelas vidraças imediatamente atrás do meu sítio embebe o ambiente de sorrisos de indiferença. Arrepio-me de pensar nas doenças que atrás do meu meio se cultivam. Ali, tratam-se pessoas por números como bestas infectadas. Aqui, ouvem-se raciocínios falaciosos e rolam canetas em papéis já cheios de tinta ilegível. E tudo se funde numa morte intelectual, um assassínio da vontade humana de saltar pela janela e voar até casa para me acolher nos cobertores com quem se ama e protege. Recosto-me na cadeira e disfruto do cheiro doce da tinta que se espalha pelo meu caderno diário. Deixo pender a cabeça num momento de preguiça, delego a tua visão no tecto. Sorrio ao imaginar a possibilidade de alguém abaixo de mim faz o mesmo.

Cegueira



Fecho os olhos no mundo sensível.
Abro-os no mundo inteligível.

Rapto

(Se possível, ao som de "The Outsider - A Perfect Circle")


   Corro o vidro de modo a poder sentir o ar da madrugada na face. E como é cortante a forma subtil que as naturezas encontram para nos fazer sentir dentro de um filme. O gelo que seca a pele da minha face rosada pede-me um fechar de olhos no intuito de absorver o momento.
   Concedo o seu desejo, e sinto o calor das baixas temperaturas, embrulhada num manto de sonolência cada vez mais cómodo. Se lhes pudesse tocar as gargalhadas inocentes e puras, que soltam sem dar conta, talvez o toque se assemelhasse a veludo amarrotado.
   A viagem ainda não tinha terminado. O corpo de alguns pedia néctar, mas eu preferi contemplar a pré-histórica roda enquadrada num desenvolvimento avassalador, cortado aos poucos pelo vento que apenas eu conseguia ver.
Deixei-me adormecer no aconchego de um amigo-revelação. E apesar de ter sido o seu ferveroso cheiro a adormecer-me, a minha mente estimulava-se com o perfume de outro - a quem eu realmente pertenço. E não há nada mais atordoante que adormecer na velocidade do tempo, com o perigo à espreita em qualquer faixa de rodagem contrária ao nosso caminho, mas nada mais agradável que acordar com uma voz sorridente, envolta num regresso a casa.
   Penetro a chave minha fechadura, retiro o diário da minha gaveta, recolho-me, penso em ti por segundos. Apago-me por breves horas.

(Apenas lamento o facto de a minha tosca transcrição de emoções ser cega. Contudo, é agradável saber que nem tudo o que se vive pode ser intelectuado.)

Simetria


Tenho escrito coisas bonitas para pessoas bonitas aqui.

De(In)dicado

Tu és todos os sons
De todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.

[Pedro Abrunhosa -Como uma ilha]


Injustiça

Um dia descobri porque as palavras carregadas de angústia me deixam um gosto mais duradouro na boca que as palavras felizes.
Talvez porque a felicidade faz o tempo correr.

Eternidade espontânea



Chegar a casa de madrugada, e sentir que fizemos alguém rir.
Escrever no escuro, mesmo que sejam traços sem sentido.
Manter o pensamento acordado, mesmo que os olhos não o peçam.
Encontrar truques para a má memória do mundo, mesmo sabendo que há coisas que se esquecem.
Alimentar uma escrita feroz para próprio gozo, sabendo que ninguém a vai ler.
Ver uma cidade dormente, e pensar apenas numa pessoa.
Sentir a alma cheia, quando à tua volta apenas existe o vazio de cores que nunca tu construiste.
Deixar a velocidade nos trespassar o corpo, contrariando o tempo que nos apodrece.
Esboçar um sorriso por estarmos vivos, enquanto todos à nossa volta são abatidos um por um.
Jogar mal por falta de jeito, e rir por derrota da forma mais verdadeira.
Notar que alguém nos nota, mesmo que seja por uma segundo efémero.
Sentir que do outro lado do rio está alguém que nos cuida, mesmo que a saudade aperte.
Ingerir alimentos pouco saudáveis a meio da noite, só pelo gozo da companhia.
Lançar sorrisos irónicos falsos, esconder uns verdadeiros.
Jogar um pouco na mente durante o dia, esquecer tudo na noite.
Enfrentar a noite num rasco de vontade, mesmo com medo de tonturas.
Ter a roupa cravada de cheiro dos bares, sabendo que os nossos pulmões não se lavam na máquina.
Lançar uma palavra de aconchego a uma mente ainda irracional.
Rir ao acaso.


Momento

Há sons, que pelo seu apelo ingénuo à infância, me levam para planos já esquecidos no tempo.
Passaram dez anos desde que não tenho por cima da minha cama uma casinha com dois ursos, um grande, outro pequeno. Os dois vinham à janela alternadamente ao som de uma melodia que me sempre foi familiar. Não era um som de uma comum caixa de música, mas algo mais secreto, que transmitia segredos à minha imaculada mente, assim como afastava os fantasmas toscos dos meus sonhos irreais. Era especial, porque o urso pequeno sempre me fazia ficar triste. Era pequeno, era insignificante, era eu enquanto respirava numa casa de adultos, sentindo que eu era tosca. Por isso, nunca abraçava, nunca dizia que gostava de alguém. Era rude, para que me conseguisse sentir o urso maior, mais sedutor, sem aquele choro de anjo.
Rio-me desse tempo em que a minha prima preferida tinha 70 anos e eu já a achava velha. Hoje tem 80 e essa velhice já me passa ao lado, mas fico sempre com a necessidade de a ter conhecido em jovem, pois parece que antes de eu existir, ela não existia, ou pelo menos em mim não o faria. Serão menos 62 anos de lembrança dela gravada na minha memória, que ingrato.
Sei que quando pessoas que me agitam a memória morrem, eu sinto-me um pedaço mais perto da atitude deles aquando da minha infância. E solto sempre um tímido sorriso ao pensar que poderei ser 20 anos na mente de alguém, tendo eu vivido 50. Sorrio mais ainda quando imagino um filho meu a imaginar-se estranho pela minha atitude ao vê-lo chorar pelo urso pequeno.

141

Quero aconchegar-me em ti
Adormecer com as tuas festas
Chorar no teu ombro quando me apetecer...

Eu aconchegar-te com ternura e carinho
limpar as tuas lágrimas e sussurrar ao teu ouvido aquilo q precisas de ouvir no momento
aproveitar um abrir de olhos nocturno teu, para roubar um beijinho e voltar a aconchegar-nos

gosto de ti
pelo que és
pelo que me fazes ser.
(sem que eu o peça)


foto de R*

Crime

Corta-se o cordão umbilical com toda a pressa para que ninguém veja o crime.

Larga-se o ser mudo numa qualquer esquina. Aprende a falar num instante.

Luta para que não lhe doa a partida de que não toma sentido.

E ingénuo espera que o busquem.

E ingénuo espera na esquina que o crime o abrace.

E não sabe que o cordão umbilical lhe foi cortado.

E aprende a falar.

Um ser que nunca falou o mesmo dialecto.

E grita.

Por fim, grita.



por mylostwords

One bullet at a time

e se

no dia em que

o mundo acabasse

tivesses planeado o amanhã ?


Duo em uníssono

GUILHERME
significa: o que protége

Gaguejo por entre os teUs suspiros aInda entrelaçados nas tuas palavras
. Lança-as mar, queremo-las quando chegarem a Hipérboles na margem, mesmo que inúteis, mesmo que as absorvamos como antes. Estórias de encantar, barafundas de falsas emoções - são tuas sem o ser. Remata a tua existência com conselhos inúteis (como este), que tanto gostas de dizer que não gostas. Mais que seres o que és, não és o que dizes ser, muito menos o que te contradizes na tentativa de o fazer. Não és, meio do que dizes gostar, claramentE.

(dedicado)

O cheiro não cadastrável

És porque não me és.
És sem o ser.
Deixas de o ser quando não peço.
Interpretas-me.
A tua voz, o teu carinho não é mais que uma efémera amostra.
Do que sinto quando te sinto, nada é explicável.
Amor? Que seja, que sejas. Gosto.
De ti, de mim.
(pausa)
(parágrafo sem o ser.)

O verde e o vermelho

Escrever
mais uma vez
porque tem 1 erro parcial
ou um notorio.
As ideias falham
Os pensamentos fogem
Usaram-se ideias pré-concebidas
O alcatrão lento já não dá valor à ideia
As palavras são insuficientes
Não há inspiração
A despersonalização enoja o sentimento
Erramos num recurso estilístico
Hoje não é dia de não-ser, muito menos de ser não-poeta.
E por isso desistimos do que dizemos
do que pensamos
Do que íamos dizer
Ou do que poderiamos pensar através do que iria ser dito ou escrito.

(Conheces a letra da "Enjoy the silence"?)

O abstraccionismo geométrico comporta-se da mesma forma: o conjunto de cores que se vê na estação das Olaias, que foram pintadas de forma arbitrária, não transmitem, tal como as palavras, nada de palpável. É a sensação que tens, que lhe dá o valor. (...) Ainda pensei que o Krip lá chegasse, mas nem ele. Pensou que se devesse à calmaria da estação. Muitas vezes perdemo-nos em interpretações . (...) Daí gostar dos teus textos mais recentes: a forma curta e directa esconde mais que os meus (maus) textos que ninguém compreende. É isso que gosto, fazes-te compreender, não usas jogos de conhecimentos elitistas que por vezes eu faço: as tuas palavras chegam a qualquer pessoa. (...) De facto já me disseram que cresci na escrita... que tenho uma espécie de escrita inteligente... mas tu tendes a não ter noção enquanto escreves, é-te intrínseco. É como quando aprendes a andar de bicicleta: já não pensas, andas e desenvolves os truques (é mais ou menos isso). Mas sobretudo é uma Paixão Muito Grande.. talvez a Maior que tenho na vida... e claro que fico extremamente feliz por saber que pessoas como tu, que também admiro pela sua forma de escrever, me dêem críticas tão magníficas... Se queres que seja sincera, mas minhas palavras não funcionam. Num texto expositivo-argumentativo, sou capaz de escrever à mercê das ideias mais loucas que me surjam. Confio na minha forma de arrojar conceitos completamente básicos. Mas a nível mais poético, falta-me sabor. Ou talvez dor. A tua balança de escrita tende mais para uma faceta métrica. Sim.. de facto tens outra abordagem na escrita, tens um tipo de escrita mais arrumado. (...) Eu tenho uma relação diferente com as palavras: uso-as. Já tu, preferes mantê-las. Mantenho. Pode parecer surreal e incompreensível para muitos.. mas tenho de escrever. Tenho de. Mesmo. Aprendi a viver assim.. cresci assim.. e nisto vou-me. Está bem, boa Noite. E não esmoreças na escrita. porque também tu.. sabes o que escreves.. e faze-lo bem.. Tenho dias, poucos...

(Quando três pessoas conversam interpoladamente, o resultado torna-se curioso. Talvez sejam nelas que mais consigo mostrar o que posso. Escrever de mim para mim tira-lhe o gostinho a que estamos habituados. A ti, Musa. A ti, Surpresa.)

Ligações frutíferas II



Abstraccionismo geométrico & "Feelings are intense, words are trivial"



Ligações frutíferas

Há quem chore por ti,
Eu sorrio contigo.

Há quem eu ache falso,
Nada é verdadeiro o suficiente para o poder ser.

Há quem faça dieta,
Eu como chocolate.

Há quem queira beber,
Eu tenho dias.

Tenho dias que ouço sons rudes,
Outros que estou surda com o meu próprio som.

Há dias que a vida não muda,
Noutros ela deixa de existir.

Há quem ame o surrealismo.
Eu gosto do abstraccionismo geométrico.

O "João" é a estação do metro "Parque",
Eu preferia ser "Olaias".

Tenho segundos que me acho inflexível,
Outros sou a mais cega crente.

Há dias que tento,
Outros ganho.

Hoje gritei com pessoas,
Amanhã posso querer chorar no ombro delas.

Hoje quero o que quer que possa querer,
Nem que seja uma palavra doce vinda de alguém.

Hoje sou gregária porque gosto,
amanhã sou gregária porque me é intrínseco.

Magia

Pergunto-me como seria possível escrever um texto sem nunca repetir uma única palavra.

Respiro.




O (interno) sorriso

Há sons que o corpo provoca quando o silêncio da alma é grande. Há outros que só se ouvem de verdade quando estamos com quem queremos.