Altruísmo ingénuo
Adoraria dominar os teus sentidos, mas se o fizesse, não serias tu.
-Hoje de noite leva-me para sítios que odeio, para que te possa repugnar e deixar de amar "
Meine Moment
Quase chorava de ansiedade, mas consegui conter-me, pois naquele palco onde tinham sido partilhadas tantas emoções, eu não podia falhar. Lá pelos corredores ouviam-se desejos de merda, e eu continuava na companhia de mim mesma, na tentativa de me concentrar e me tornar num quadro em branco. As palavras que iria repetir tinham sido escritas por mim, a música de entrada também, mas mesmo assim, tinha medo. Num ápice olho para a outra ponta do pano, onde se encontrava uma personagem por mim criada. Ouço as pancadas de Molière. As lágrimas caem pelo meu rosto de felicidade, mas rapidamente me componho para não pôr em causa a qualidade da minha expressão vocal. Nas 7 pancadas choro, nas 3 recomponho-me, e na última, sinto-me realmente eu. Ouço um bichanar do outro lado do pano, pois a sala está cheia e ansiosa. É dada a minha ordem de entrada e eu faço-o com toda a consolidez, apesar de não sentir o meu corpo e muito menos os meus pensamentos. Meine Moment...
6 de Junho de 2003
Complacência
Da minha boca apenas saem canções que sempre ouço quando me quero integrar no que me rodeia. Vejo uma folhinha caída e por tal instinto tento agarra-la, mas não consigo, pois não tenho braços para o poder fazer. É nestas alturas que gostava de ser como todos os outros, apesar de todos dizerem que o sou. Enquanto todos se preocupam em ser diferentes, eu apenas quero ser eu, dentro dos possíveis. A minha língua ainda não se habituou ao manjar que sou obrigada a engolir, como que palavras que nunca mais voltara a repetir.
O meu corpo moribundo...
Queria nadar, mas não consigo. Queria correr, mas apenas me limito a dar três passos de seguida. Agora, o meu corpo louro sandré apenas me deixa pensar e voar.
No horizonte observo um peixe que vive por entre o líquido, e rio-me. Abro as minhas asas e voo até ele, estralhaçando-o com as minhas garras e deglutindo-o com prazer.
1755
Um barulho atordoa-me e deixo o meu mundo fantástico: a cama treme, ouvem-se vidros partindo, gritos, choros de crianças, o choro não de uma, mas da criança. Da criança que tenho entre-braços que pede complacência de modo horrível. Os seus pais estão mortos, subterrados nesta imensidão de areia, pedra e sonhos. Vejo os relevos das almas a subirem, e contenho-me para não chorar: tenho de ser forte, tenho de me impôr, tenho de....
A tal criança escuta-me com atenção, continuando no cume verdejante que lhe anuncio apesar da sua constante descrença.
Olho para o chão e sinto os meus pés cortados por realidades que nem quero sentir. A minha seminudez não é causa de vergonha, mas de revolta, pois não tenho com que tapar a criança dos horrores da realidade que nos é exterior. É um ser puro, sem nome, sem memórias. E o real quer corromper a predestinação a que me tornei crédula. Abraço-a como que para sempre e cantarolo uma passagem do Danúbio Azul...
A minha calma suicidou-se, pois o meu amor desapareceu... sento-me neste chão inconstante e rebelo-me contra a mãe natureza. Ela matou-te, mas não me levou contigo. Apenas me deixou esta sensação característica de situação limite e uma criança.
Saio do meu refúgio para a rua. Vejo a morte a meu lado e corro até tropeçar e caír. Encontro uma catana, decerto que seria de algum escravo do feudalismo que já se libertara. Penso em matar-me, mas recuo, pois pensei em ti. A criança que trago nos braços não é minha, e muito menos nossa, contudo protejo-a da eternidade imortalizando-te nos seus pensamentos.
Sonho contigo, meu amor...
O lago dos cisnes
Meu palco de madeira, não sei que é isto que me rodeia.. ouço valsa num tom longínquo que me faz voar. Na altura em que me consigo libertar daquela espécie de jetlag per guisa de brisa cortante, o meu corpo move-se com graciosidade ao ritmo da valsa de Tchaikovsky. À minha frente estão centenas de pessoas que assistem a cada movimento meu, como que avaliadores natos dos erros que possa cometer. A cada nota, a minha elasticidade é notada, movo-me, rodopio, mais e mais...Difíceis sequências de passos clássicos de ballet assemelham-se a uma arquitectura dançada. Sou um edifício volátil que trás nas suas pontas a beleza do mundo, e por tal me denominaram Odette. Apenas a morte me trará a paz , daí a razão de o rio ser a meta do meu amor por Siegfried. Estico as minhas vértebras, contradigo a gravidade, saboreando cada nota e cada toque subtil de violino.
Os holofotes deixam de me ofuscar com o seu poder e a sala está vazia. Transformo-me num calendário inútil e banal.
20 de Novembro de 1976, Paris.
As quatro paredes do meu quarto-I
"Segredos são beijos ternos que suavemente se segredam ao ouvido a quem nós queremos que nos conheçam e nos amem...
Poemas são o mar da vida que derramamos no papel,
como a onda que beija a praia em que
nos confessa seus amores em cada maré.
E como o oceano vivemos entre algumas
tempestades e calmia , seremos felizes portanto
apenas por navegar , porque só quando chove
e faz sol vemos o arco-irís feito muitas vezes
com a água das nossas próprias lagrimas e com
o brilho do sol que todos trazemos na alma..."
Carlos (O Cantinho dos segredos)
Let the demons decide my faith
Recuso-me a desistir.
Queria amarrar-te e fazer-te sofrer tanto que desejasses mais que tudo que eu te matasse. Ao fim ao cabo seria uma forma de te aperceberes que querias viver, pois eu não te mataria. Nunca...
O Incessante
Que suga as minhas profecias e cabalismos
Que vive... e deixa viver...
Cantando a imprevisibilidade repleta
De contradições de ser
És tu quem me canta a nova esperança negra!
A luz deixou de encher..
Assim como o negrume exaltado que me atormentava enfrentado
Apenas a permanência da ausência
A escravidão e dependência incandescente do ser...
Num ápice surge a correlação!
É a sinestesia idolatrada que me consome e que apela por complacência
Aparição num momento ansiado mas aos poucos esquecido
Que surgiste.. como um deus desconhecido e incessante
Dentro do meu sentir pensante
E do meu coração inoperante
Vivi a própria fantasia
Produzindo a existência
Toquei as inóspitas notas
De um momento de carência
Senti o sentir
Pensei o pensar
Fui o ser inexistente
E num ápice de contente
Deixei de o conter por sentir o pensar
Enquanto tentava amar...
Foi a utopia realizada
O oxímoro coerente
A fantasia convalescente
A proclamação por Epicuro e Zenão contrariada
Por isso nomeei de algo previsível
Personagem nas cinzas criada
Ansiando a chegada do império espiritual...
O anjo caído por muitas mãos
Repartido e em folhas expresso
Com um nome mudo e cansado
Com o tédio em si infiltrado
Sentindo a presença do inesperado
E esperando a incoerência do processo.
Mea Setencia
Hoje o céu chama-me.Talvez por não dar importância à minha capa e me deixar voar para onde nunca tivera palpado. Apesar de olhar para uma escadaria vazia e pela escuridão embriagada, senti a presença de quem descia a mesma, fumando a sua cigarrette per guisa de superioridade. O meu corpo estava visível, contudo, foi trespassado pelo tal ser que nem o era... Seria talvez o 5º império. A seu lado descia o acessível, que por tal me deslumbrou e me agarrou a mão. In speciem iguais, mas a típica insatisfação humana acelerou a máquina do tempo, trazendo consigo as diferenças.
De que vale a presença de um previsível, se no fundo o que se ambiciona é o Ignoto Deo, que avança e trespassa? Talvez fosse eu tal deo, talvez fosse apenas o meu espelho tentando mostrar de novo que poderei ser Sísifo.
Omnia mutantur, nos et mutamur in illis
De que me vale ser da nobreza, se tenho de suportar a intelectualmente plebe, que não passa de uma censura moderna, que se debate para matar uma fome cumulativa?
Estou cega, mas quero curar-me através da escrita intemporal: nuns dias posso ser capitalista, noutros feudal.
Inquietude
Não suporto ver cadernos cheios de nada e canetas por utilizar.
Simplesmente não aguento.
Assim como uma música não existe sem as suas notas e tempos,
eu não existo sem isto:
sem palavras com as quais me possa comunicar,
nem este sentimento de plenitude no que escrevo.
Por vezes,
não gosto do que escrevo.
Mas muito menos de emendar.
É o sentimento que é por fim posto em algo real
e não tão inalcançável como dantes...
A utopia realizada...
O abraço
Parece a Lua dar o exemplo: só, constantemente no canto de cada retrato escuro, brilha mais porque encontra um caminho por si própria ao ser o único astro relevante no céu, e Viver a sua condição orgulhosamente. De dia, o Sol que crie, que mostre, que revele! A Lua sabe abraçar a Noite, porque sabe como ninguém que só a falta de luz nos pode aproximar do Infinito, ao abrir caminhos inexplorados entre nós e nós mesmos...
let me stay away...
Vivo algo que me da vontade de auto-mutilar, de cortar os pulsos, de beber o meu próprio sangue e cuspi-lo de seguida, devido à ausência de pureza que nele tenho. Tenho consciência da minha felicidade, mas algo me perturba: estou dependente de mim como se eu fosse um ser independente que me molda como uma marioneta. Estou como Campos: o sentir traz-me sensações sadomasoquistas. Quero trincar os meus lábios ate eles incharem e rasgarem, quero matar com a minha arma escondida, quero esquecer o que me afronta com a dor física. Mas merda, sou lúcida!
(repost corrigido)
O que se sente e o que se deixa sentir
De uma desordem interior
Que outrora me assolava
Mas presentemente não.
Canto a malevolência de uma sinestesia algoz
Porém bajulada
Quem num dia me vituperou
Mas presentemente não.
Que será exacto?
Apelidar de engrandecimento,
Ou apenas de consentimento
De um sentir
adaptado a intelectualizações forçadas?
Foi a plenitude do rio que amotinava
E que antitéticamente se dividia
Mas presentemente não.
Hoje o meu rio cessou
A minha dádiva foi desvanecida por tal ser inerente
E ao contraditar o correcto,
orgulho a falta de margens.
Pois bebo de onde ninguém sente
Sustentando a lucidez, clareza e cristalização de uma falta de Fado.
Que já não me atormenta presentemente.
Ingiro dessa torrente
Que apesar de escassa e duvidosa
Consegui torna-la para mim imprescindível
E para os outros preciosa.
Existencialismo(excerto de Morte Vivida, cap 4)
- Em que pensas tu minha intrigante apotegma? Existencialismo fascina-te?- questionou-a sem complacência.
- Sim.... especialmente após a tua expressão... Os conceitos.. ou lá como tu os chamas são necessários... o Homem é um ser gregário! Precisa de viver em conformidade como ambiente que o rodeia... se todos tivessem a mesma denominação iria ser impossível viver em sociedade.. e o existencialismo passaria a ser um vírus...Assim como na religião de hoje em dia, apareceriam satânicos do existencialismo, na medida em que o satanismo é uma paradoxal religião...
- O existencialismo continuaria a existir na mesma como a religião. Dou-te o exemplo de um fascinante conceito.. utopia. O que é uma utopia? É uma verdade axiomática?
- Não! Uma utopia é exactamente o contrário, é a designação do que não poderá existir!- A sua indignação transportou Deshiav para um interrogatório fugaz e cruel.
- Então explica-me o teu venerado existencialismo aqui... não crês no “livre-arbítrio”? a escolha não é o maior poder sobre tudo? Não é esse mesmo poder que está em todo o segundo que corre.. e que se deixasse de correr era derivado de uma escolha também? Podes escolher a utopia? Não a queres escolher? Sim queres.. o teu maior sonho.. estar com um vampiro para o explorar e o desentediar, mostrado-lhe que existe uma vida lá fora que pede pelo seu esforço, que o mundo gira por sangue novo assim como o tal ser vampírico?
- Mas nesse caso já não é utopia.. é real! Eu estou aqui não estou?
- Pensas que estás.. como podes tu provar que não passa de um simples sonho?
- Porque o sinto, porque tenho provas, porque fotografei-te enquanto falavas e te auto-regulavas!
- Mesmo que gravasses as conversas! Mesmo que isto fosse uma videoconferência transmitida em directo para todo o mundo! O cepticismo iria ser majoritário, e vivendo tu pelos outros, e segundo a tua adaptação de teoria existencialista isto não seria nada.
- Seria sim, porque eu sabia que era verdade, porque o vivo, porque me recordaria para sempre desses momentos.
- E se to fizessem crer que não passava de imaginação? Esta nossa conversa deixaria de existir? Não, porque eu a vivi, e porque em mim ninguém pode crer, porque eu nem sequer sou um vampiro.
- Não?
- Eu não me posso auto-rotular de nada se a humanidade não crê na minha existência.. sou uma utopia! Sou o nada que é nada!
- Então tu também és um existencialista satânico...
- Nem isso! Não sou nada!- afirmou como um convalescente.
- “Cogito ergo sun”
- Então esquece o existencialismo.- disse com um ar irónico e confiante, como se os seus movimentos fossem lentos e estudados ao pormenor.
Antinomia de mais um
Inundada por um rio cujas margens derrogam ideias.
Assombrando as noites de quem escreveu,
Mas apaziguando o coração
Num processo de dissertação
Que um pensar alheio cometeu.
Per guisa de crença
Que torna a existência mais complacente.
Uma multidão alienante,
trespassando a vida como um objecto cruciante.
Para confinar tal efémera gota
E apelar a um charco de sangue.
É um masoquismo idolatrado,
Um sentimento intelectuado...
Estoicismo pendente
Qual Epicuro contrariado.
Fugi assim, para muito longe.
fiz-me à estrada ao amanhecer
à deriva sem nada a perder
fui embalada ao sabor do vento
deixei perder as horas do tempo.
As memorias ficaram por contar
nas tristezas n kero tocar,
o horizonte acaba ali,
e a nascente jamais a vi.
sou mais uma sonhadora