1755

  Sonho contigo, meu amor que esconde em cada utopia minha. A minha vida é vã quando te desprezo, apesar de admitir que o faça. Observo as imagens retidas na memória desfeitas numa neblina negra, anteriormente azul e posteriormente rosada. Sussurro ao teu ouvido que te quero para sempre e choro por nunca o ter dito antes. Risadas ingénuas que dou: sou parva, infantil, uma miúda que é feliz por entre montes e vales verdejantes existentes na tal utopia que tu coadjuvas. O sonho vai entrando numa fase descrente, em que o meu corpo quer ser consciente e eu não deixo, pois quero planar para todo o sempre apesar o conhecer impossível.
  Um barulho atordoa-me e deixo o meu mundo fantástico: a cama treme, ouvem-se vidros partindo,  gritos, choros de crianças, o choro não de uma, mas da criança. Da criança que tenho entre-braços que pede complacência de modo horrível. Os seus pais estão mortos, subterrados nesta imensidão de areia, pedra e sonhos. Vejo os relevos das almas a subirem, e contenho-me para não chorar: tenho de ser forte, tenho de me impôr, tenho de....
  A tal criança escuta-me com atenção, continuando no cume verdejante que lhe anuncio apesar da sua constante descrença.
  Olho para o chão e sinto os meus pés cortados por realidades que nem quero sentir. A minha seminudez não é causa de vergonha, mas de revolta, pois não tenho com que tapar a criança dos horrores da realidade que nos é exterior. É um ser puro, sem nome, sem memórias. E o real quer corromper a predestinação a que me tornei crédula. Abraço-a como que para sempre e cantarolo uma passagem do Danúbio Azul...
  A minha calma suicidou-se, pois o meu amor desapareceu... sento-me neste chão inconstante e rebelo-me contra a mãe natureza. Ela matou-te, mas não me levou contigo. Apenas me deixou esta sensação característica de situação limite e uma criança.
  Saio do meu refúgio para a rua. Vejo a morte a meu lado e corro até tropeçar e caír. Encontro uma catana, decerto que seria de algum escravo do feudalismo que já se libertara. Penso em matar-me, mas recuo, pois pensei em ti. A criança que trago nos braços não é minha, e muito menos nossa, contudo protejo-a da eternidade imortalizando-te nos seus pensamentos.
  Sonho contigo, meu amor...   

     

3 comentários:

Anónimo disse...

encontro-me aqui uma vez mais. a tentar encontrar adjectivos distintos para um mesmo propósito. estás a escrever de uma maneira elevada. cada vez escreves melhor. quais elogios fáceis?! palavras que vêm assim pagar uma promessa às tuas. este texto está excepcionalmente bom. a alusão ao terramoto e toda a descrição de tudo o que se vai passando como se lá tivesses estado deveras. é doce e violento ao mesmo tempo. Obrigada por este e os demais textos.

(mylostwords)

= )

Anónimo disse...

Todos temos os nossos terramotos na vida... Mas por vezes são necessários para destruir o que não está bem. Outras vezes fazem o contrário, e destroem o que não devem... Mas a vida é assim, justa umas vezes, injusta outras.

Eu já tive um grande e mau 1755, e ainda não acabei de me reconstruir depois dele... Ainda bem que agora tenho alguém para me ajudar nisso :)

Edu @@@@@@@

Anónimo disse...

(sou eu do Desfile da Morte!)

parece que falamos do mesmo topico em nossos blogs. sonhar eh fazer o corpo entender q sempre exist sperancas, por + q demoradas ou muito longe do ponto em que voce esta. sonhe, porque sonhar faz acontecer. :)

valeu pela visita!! ;D

PS.: percebi 1 sotaque stranho... vc eh d portugal hein. eu sou do brasil. ;D mas dah pra entender perfeitamente. vou ficar vindo aki. ;)