Este remeter para a questão de rótulos e conceitos fez-me estremecer de riso. Este ser que nem sequer o é não gosta de ter rótulos e diz que é ele próprio. Peço desculpa senhor Deshiav... só o seu nome já é um rótulo. Essa questão é chamada de intelectualização do sentimento e consequente transposição para a linguagem.
- Em que pensas tu minha intrigante apotegma? Existencialismo fascina-te?- questionou-a sem complacência.
- Sim.... especialmente após a tua expressão... Os conceitos.. ou lá como tu os chamas são necessários... o Homem é um ser gregário! Precisa de viver em conformidade como ambiente que o rodeia... se todos tivessem a mesma denominação iria ser impossível viver em sociedade.. e o existencialismo passaria a ser um vírus...Assim como na religião de hoje em dia, apareceriam satânicos do existencialismo, na medida em que o satanismo é uma paradoxal religião...
- O existencialismo continuaria a existir na mesma como a religião. Dou-te o exemplo de um fascinante conceito.. utopia. O que é uma utopia? É uma verdade axiomática?
- Não! Uma utopia é exactamente o contrário, é a designação do que não poderá existir!- A sua indignação transportou Deshiav para um interrogatório fugaz e cruel.
- Então explica-me o teu venerado existencialismo aqui... não crês no “livre-arbítrio”? a escolha não é o maior poder sobre tudo? Não é esse mesmo poder que está em todo o segundo que corre.. e que se deixasse de correr era derivado de uma escolha também? Podes escolher a utopia? Não a queres escolher? Sim queres.. o teu maior sonho.. estar com um vampiro para o explorar e o desentediar, mostrado-lhe que existe uma vida lá fora que pede pelo seu esforço, que o mundo gira por sangue novo assim como o tal ser vampírico?
- Mas nesse caso já não é utopia.. é real! Eu estou aqui não estou?
- Pensas que estás.. como podes tu provar que não passa de um simples sonho?
- Porque o sinto, porque tenho provas, porque fotografei-te enquanto falavas e te auto-regulavas!
- Mesmo que gravasses as conversas! Mesmo que isto fosse uma videoconferência transmitida em directo para todo o mundo! O cepticismo iria ser majoritário, e vivendo tu pelos outros, e segundo a tua adaptação de teoria existencialista isto não seria nada.
- Seria sim, porque eu sabia que era verdade, porque o vivo, porque me recordaria para sempre desses momentos.
- E se to fizessem crer que não passava de imaginação? Esta nossa conversa deixaria de existir? Não, porque eu a vivi, e porque em mim ninguém pode crer, porque eu nem sequer sou um vampiro.
- Não?
- Eu não me posso auto-rotular de nada se a humanidade não crê na minha existência.. sou uma utopia! Sou o nada que é nada!
- Então tu também és um existencialista satânico...
- Nem isso! Não sou nada!- afirmou como um convalescente.
- “Cogito ergo sun”
- Então esquece o existencialismo.- disse com um ar irónico e confiante, como se os seus movimentos fossem lentos e estudados ao pormenor.
1 comentário:
Gosto do teu blog, e este post está interessante, até porque no dia-a-dia questiono-me sobre o modo de ser do ser humano no geral, e embora eu não siga nenhuma religião, acho interessante esse debate que transcreveste para o teu post, e mais especialmente a questão dos rótulos, na nossa sociedade todos temos de pertencer a algo, porque tem de ser assim...realmente é ridículo
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